Por Mair Pena Neto
RIO DE JANEIRO (Reuters) - A cerimônia de abertura da 15a, edição dos Jogos Pan-Americanos expôs o presidente anfitrião, Luiz Inácio Lula da Silva, a um constrangimento sem precedentes na história recente de grandes eventos esportivos.
Vaiado em seis oportunidades durante a festa, todas as vezes em que teve seu nome citado ou apareceu no telão, Lula não cumpriu o papel formal de declarar abertos os Jogos do Rio. Foi preterido pelo presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, que do centro do campo, produziu a declaração formal. Lula estava em pé diante de um par de microfones, enquanto se viu obrigado a sentar sem dirigir-se ao público que o vaiava ao ponto de abafar as vozes dos apresentadores.
Oficialmente, a gafe de Nuzman foi resultado de um "desencontro de cerimoniais," na definição de um assessor do Palácio do Planalto. O comitê organizador dos Jogos, na voz de seus assessores de comunicação, definiu o mesmo fato como "um erro de cerimonial." Para muitos pode ter ficado a impressão de que Nuzman tentou salvar o presidente de um constrangimento ainda maior. Ambos deixaram o estádio sem falar com a imprensa. Lula com expressão muito contrariada.
A versão do desencontro dos cerimoniais foi confirmada pelo prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, da oposição DEM, único político aplaudido pelo público ao ter seu nome anunciado. Maia acrescentou que a iniciativa de alteração do roteiro cerimonial partiu do Planalto. "A assessoria do presidente procurou o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro e pediu para Lula não fazer a declaração. Mas esqueceram, de avisar o presidente da Odepa (Organização Desportiva Pan-Americana)," disse o prefeito a jornalistas antes de deixar o estádio.
A contribuição de Mario Vazquez Raña foi fundamental para tornar público o desastre cerimonial. Ele convocou o presidente do Brasil para falar sem saber que Nuzman teria recebido a mesma incumbência dos próprios assessores da Presidência da República.
"Raña inocentemente foi o responsável pelo fato constrangedor," seguiu Maia. O prefeito carioca, político clássico, disse que as vaias sempre complicam a vida dos homens públicos, gerando invariavelmente situação de constrangimento. "O presidente não se sentiu bem, se levantou, sentiu uma situação difícil para ele," disse.
O ministro dos esportes, Orlando Silva, único representante do governo a comentar as vaias, considerou que a manifestação não foi espontânea. "Pareceu coisa orquestrada, de onde vinha (a vaia) dava para perceber que era coisa orquestrada," disse ele.
Durante o ensaio geral para a cerimônia, na última quarta-feira, a menção do nome do presidente também foi vaiada pelo público que assistia a prática das arquibancadas.
Lula pode ter recebido a maior vaia de seus dois mandatos justo no evento que pretendia consagrar uma política de investimentos do governo federal no Estado do Rio de Janeiro.
O presidente é esperado para entregar a primeira medalha dos Jogos Pan-Americanos ao final da prova de maratona aquática nas areias da praia de Copacabana, neste sábado.
(Reportagem de Camila Moreira e Pedro Fonseca)