Por Antonio de la Jara
ASSUNÇÃO (Reuters) - O presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, afirmou na segunda-feira estar serenamente contente por sua histórica vitória nas eleições de domingo, dando fim a mais de seis décadas de predomínio do Partido Colorado (centro-direita).
Lugo, um ex-bispo católico que obteve vantagem de quase dez pontos percentuais sobre a candidata colorada, Blanca Ovelar, representa uma coalizão ampla da qual participam vários partidos e movimentos sociais, misturando liberais, socialistas, organizações de agricultores, sindicatos e entidades estudantis. Após celebrar sua vitória até 1h da madrugada (horário local) de segunda-feira, Lugo disse que acordou muito cedo para participar de reuniões com representantes de sua aliança e definir a composição do novo governo.
"Sinto-me bem. Estou serenamente contente, que é a postura que nos caracterizou. Tenho uma enorme gratidão para com o povo paraguaio, que ontem (domingo) demonstrou um comportamento exemplar nas eleições", afirmou Lugo ao Canal 13.
"Estamos bem e contentes com os cidadãos, com seu comportamento. Os cidadãos são o sujeito na construção de uma democracia que nós, os paraguaios, merecemos", acrescentou.
Depois da vitória de Lugo, os paraguaios tomaram as ruas de Assunção para festejar, em meio a manifestações de grande alegria de pessoas aliviadas com o final dos 61 anos de domínio do Partido Colorado, marcados nas últimas décadas pela corrupção.
"Lugo foi muito criticado. Tentaram fazer com que as pessoas tivessem medo dele. Mas, mesmo assim, os paraguaios votaram no candidato que gerava menos antipatia. Agora, iniciamos um processo de construção social e política, um processo de governabilidade", afirmou Jorge Pablo Brugnoni, cientista político e consultor da Organização das Nações Unidas (ONU).
ALIANÇAS NECESSÁRIAS
Em uma manobra inesperada, o jornal ABC Color, do Paraguai, publicou em sua primeira página, na segunda-feira, um editorial intitulado: "O povo derrotou aqueles que o humilharam, empobreceram e traíram".
"Afirmamos com convicção que desde hoje se enterra a imunda e degradante 'transição' e se inicia uma etapa de democracia genuína no Paraguai", afirmou o diário em um trecho do editorial.
O Partido Colorado domina o cenário político do país desde 1947 e sua posição consolidou-se em 1954, quando o general Alfredo Stroessner deu um golpe de Estado impondo uma brutal ditadura. Esse regime só chegou ao fim em 1989, em um levante comandado por alguns setores da mesma legenda governista.
Ainda que não esteja definida a correlação de forças no futuro Congresso, cujos membros também foram eleitos no domingo, analistas asseguram que o governo eleito provavelmente buscará selar alianças para ter uma bancada majoritária no órgão e assim fazer valer seu programa.
O vice-presidente eleito, Federico Franco, comanda o Partido Liberal, a segunda maior força política do Paraguai.
Durante sua campanha, Lugo prometeu derrotar a corrupção nesse país, um dos mais pobres da América do Sul, e lançar uma reforma agrária, além de renegociar os acordos energéticos que o Paraguai mantém com a Argentina e o Brasil.
O jornal Ultima Hora, que ocupou toda a sua primeira página com uma foto do presidente eleito, escreveu em sua manchete principal: "Lugo derrota o Partido Colorado". Já em sua contracapa, o diário referiu-se ao atual presidente do país, Nicanor Durante, como "O marechal da derrota".
O jornal La Nación destacou em sua primeira página: "Lugo faz história e derrota a ANR (Partido Colorado)". Já os diários Crónica e Popular estamparam a palavra "Amém!" em sua capa.
Lugo deve tomar posse no dia 15 de agosto.