A mãe de Adriana ouviu a notícia logo pela manhã, por volta de 7h30. Na televisão. Ligou para Daniela, que foi para o hotel, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, local em que a Air France concentrou os parentes de passageiros do voo (até então desaparecido), todos à espera de notícias. Era 1º de junho. Até agora, foi o dia mais difícil. Mas o pior pode ser o próximo dia 2 de julho. "É quando ela voltaria."
Adriana, que tinha 27 e era formada em turismo, viajava para Portugal, para participar de um encontro familiar. Outros parentes, de outras cidades do país, também seguiam para lá, em outros voos.
A queda do Airbus A-330, da Airbus, na noite do dia 31 de maio, bagunçou toda a vida de Daniela, irmã de Adriana. Até agora, ela, que é contadora, não voltou a trabalhar. Daniela diz que não tinha muitas esperanças de que os passageiros fossem resgatados com vida, mas essa possibilidade, encarada como possível por outros parentes de vítimas, começou a morrer mesmo quando foi resgatado o primeiro corpo, no dia 6 de junho.
"Meus pais ficaram bastante tristes. Eu e meu irmão ficamos tentando segurar", conta Daniela, que pede para que o
UOL Notícias não publique nem seu sobrenome, nem o da irmã, nesta reportagem. "No início, teve um assédio muito grande. A imprensa ficava ligando."
Como em outros acidentes aéreos de grande repercussão, a cacofonia informativa confunde os parentes de vítimas. "Você não sabe em quem acredita. Você já está envolvido numa tristeza." Ela acabou esperando só pelas informações da Marinha e da Aeronáutica.
Uma hora fala-se que o avião se despedaçou, outra que caiu inteiro. Alguns familiares acham que as fontes oficiais omitem informações. Outros, que não, que mesmo os militares não sabem bem o que aconteceu. "A única coisa que a gente queria é que houvesse mais cuidado com a vida das pessoas."
Sobre as buscas, Daniela não tem grandes esperanças - o corpo de Adriana ainda não foi encontrado.
"Acho que, se não apareceu até agora, é difícil acharem os corpos. Mesmo os especialistas dizem que não tem como um corpo estar na superfície. A única esperança é o robô encontrar o avião no fundo do mar." Depois de uma longa explanação, ela completa: "A gente queria mesmo é que achassem a caixa preta."
Em relação ao dia 2 de julho, dia em que a irmã chegaria de Portugal, ela diz: "A gente ainda acha que ela está viajando. A gente demora para raciocinar."
MãeMaria Eva Marinho, mãe do engenheiro Nelson Marinho, que tinha 40 anos, diz que nunca pensou que fosse passar pela situação. "Ainda não vi o corpo do meu filho. E já pararam as buscas."
Segundo ela, o mais difícil, durante este mês, foi "acreditar que ele poderia voltar vivo": "Essa esperança acabou morrendo."
Maria Eva, que mora no Rio, também criticou a realização, na segunda (29), do culto ecumênico no Recife. "Como é que pode, no sábado, marcar o culto para segunda? Como é que ia reunir toda essa gente no Recife?"