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Madrilenhos reagem com indignação e protestos a ataques terroristas 18h39 - 11/03/2004
Julio Gomes Filho Especial para o UOL Em Madri (Espanha)
Indignação. Esta é a palavra que melhor resume o sentimento do madrilenho após os atentados desta quinta-feira.
O dia começou com surpresa pelas explosões. Veio o caos e, com ele, a tensão, o sofrimento, o sangue. Depois, tristeza e solidariedade. Agora, a revolta.
Uma grande concentração popular está marcada para esta sexta-feira (12), a partir das 19h locais. Dezenas de milhares de pessoas estarão presentes na manifestação chamada "com as vítimas, pela constituição e contra o terrorismo", convocada pelo governo.
Mas hoje mesmo, "espontaneamente", segundo palavras de um policial, mais de 3 mil pessoas pararam para entoar palavras de ordem na Puerta del Sol, praça que é o coração da capital espanhola.
Algumas pessoas ainda choram timidamente, outras conversam e dão risada -gesto moralmente proibido durante todo o dia. Mas a maioria está lá mesmo para expressar repúdio pelos acontecimentos. "Filhos da p...". "Assassinos", "bascos sim, ETA não" e "não à morte de inocentes" são alguns dos vários gritos de guerra entoados.
"Os bascos são boa gente, a imensa maioria deles. Não se pode confundir o povo basco com os assassinos sanguinários de ETA", comentou José Maria Martinez, 24. Ele, como outros jovens no local, diz pretender ficar ali durante toda a noite, em vigília até a manifestação desta sexta. Ao seu lado, um grupo levantava um cartaz pedindo pena de morte aos terroristas.
A maioria de jovens, inflada cada vez que uma câmera de TV começa a gravá-los, era acompanhada por todos os tipos de cidadãos: de crianças a velhos. E entre todos a curiosa presença de turistas -milhares deles visitam Madri diariamente. Alguns passavam à distância, com olhar curioso, outros tiravam fotos, alguns até mesmo posavam diante de faixas com os dizeres "Eta No".
Na multidão estava o brasileiro Ronaldo Madeiro, 36, em Sol para participar da manifestação. "O que eles fizeram hoje foi uma sacanagem", comentou o sergipano, mestre de capoeira e residente em Madri há dois anos e meio. "Eu dou aulas naqueles lados da cidade, no sul. Alguns alunos me ligaram para saber se estava tudo bem e contaram que alguns amigos ainda estavam desaparecidos. Não sabem do seu paradeiro", contou.
Madeiro nem pensa em voltar ao Brasil, mas admite que o atentado assusta. "Eu moro em frente a uma praça onde o ETA já realizou atentado, sempre soube dos riscos. Mas eu pego trens como este, podia estar lá hoje."
Sua mulher, a galega Mercedes Quintás, 33, acredita que o governo do Partido Popular será o grande beneficiado pelo acontecimento. "Não digo que o governo tem a ver com isso, mas acabará sendo bom para eles nas eleições", disse Mercedes.
O fato acontece em um conturbado momento político no país, já que no próximo domingo serão realizadas as eleições nacionais que definirão o novo governo espanhol. Pelo menos dois atentados foram evitados pela guarda civil nos últimos meses: um justamente na véspera do último Natal, quando a polícia encontrou bombas em um trem que se dirigia a Madri; depois, em fevereiro, foi encontrado um furgão em Chueca com mais de 30 kg de dinamites.
Acredita-se que o ETA queria de qualquer forma provocar um banho de sangue antes das eleições, o que o grupo teria conseguido justamente hoje, se foi mesmo o autor dos atentados. Os partidos já anunciaram o final de campanha, agora resta saber o que as urnas dirão no próximo domingo.
Política à parte, Madrid já vive normalmente após o dia, tão conturbado. O metrô, que teve três linhas interrompidas durante o dia, funciona normalmente -só está fechada a estação Atocha Renfe, muito próxima a um dos locais das explosões. Os estabelecimentos comerciais abriram durante a tarde. A telefonia fixa e celular, congestionada durante toda a manhã e início da tarde, já funciona sem maiores problemas.
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