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14/02/2005 - 17h39 Assassinato no Pará: "Governo precisa se antecipar aos acontecimentos", diz especialista Veja a entrevista em vídeo
Da Redação Violência e crueldade: o laudo do Instituto Médico Legal sobre o assassinato da freira americana Dorothy Stang revela que ela levou um tiro na cabeça, à queima roupa, de uma arma calibre 45, quatro tiros nas costas e um outro no abdômen. Dois pistoleiros e um homem suspeito de ser o mandante do crime estão foragidos e com a prisão decretada. A freira morava há 27 anos em Anapu, a 777 quilômetros de Belém, no Pará. Ela era da Comissão Pastoral da Terra, braço da Igreja Católica que ajuda trabalhadores rurais na luta pela reforma agrária. Menos de uma semana antes de morrer, a irmã Dorothy esteve com o ministro dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda, e disse a ele que quatro pessoas tinham sido ameaçadas de morte por fazendeiros da região. Parece roteiro de filme de faroeste. E, por incrível que pareça, os dados de violência no campo mostram que mortes como a da irmã Dorothy são muito mais freqüentes do que a gente imagina. A Ouvidoria Agrária Nacional, do Ministério do Desenvolvimento Agrário revela que 301 pessoas morreram em conflitos agrários na última década no Brasil. O Pará quase sempre aparece no topo da lista. Só de janeiro a novembro de 2004, houve 53 mortes no campo no País; 19 delas no Pará. Dessas, 4 foram comprovadamente decorrentes de conflitos agrários, 6 foram por outros motivos, e 9 ainda estão sendo investigadas. Em entrevista ao UOL News, o professor Antonio Flávio Testa, antropólogo e sociólogo da Universidade de Brasília, disse que o governo federal precisa se antecipar aos acontecimentos. "Há uma defasagem muito grande entre as demandas da sociedade no mundo agrário e a capacidade de reação e antecipação do governo a essas atividades criminosas. A vontade política aparece quando acontece uma tragédia. Dificilmente se antecipam a esse tipo de ação. O Estado está sempre a reboque dessas coisas". A morte da freira será um divisor de águas? O professor da UnB disse que infelizmente não acredita no fim dos problemas na região. "Sou um pouco reticente. Há um esforço grande do Estado em relação a isso. Mas por exemplo: no caso dos assassinatos dos fiscais de Unaí (em Minas Gerais) descobriram os criminosos, mas os mandantes não estão respondendo". Segundo o analista, o caso será um marco negativo para o governo Lula por causa do PT e também pela mobilização internacional. "É uma tragédia! Há uma mobilização intensa do Estado, uma cobrança mais forte em cima do governo do Pará. Espero que possa surtir efeito, apesar de achar que os casos devem recrudescer, pela falta de antecipação aos acontecimentos". O professor lembrou do episódio Chico Mendes. O ecologista e líder seringueiro foi assassinado em dezembro de 88 em Xapuri, no Acre. O caso foi mundialmente divulgado. Mendes ficou conhecido em todo o mundo um ano antes de sua morte por ter denunciado, no Senado americano, a devastação de empresas estrangeiras na floresta Amazônica. "Os assassinos de Chico Mendes foram presos, fugiram e foram recapturados. Mas eu tenho sempre na minha cabeça: será que essas pessoas presas foram os mandantes do crime ou foram só escalados para cumprir a pena? Assim como aquela tragédia, várias outras aconteceram. E não vimos a justiça sendo feita". Por que esses crimes acontecem? Antonio Flávio Testa, que trabalhou com os índios da Amazônia na década de 80, indicou alguns fatores responsáveis pelos crimes. "Há uma dificuldade operacional para controlar as fronteiras nacionais. Além disso, existe a questão da exportação ilícita da madeira, do crescimento do agronegócio e de suas variantes perversas. Há uma disputa muito forte de espaço entre grandes corporações lícitas e ilícitas". Para ele, a federalização desse tipo de crime, mudança prevista pela reforma do Judiciário, pode ajudar. "À medida que há pressão nacional e cobrança da mídia e também das organizações civis nacionais, o Estado precisa mostrar soluções. Eventualmente a apuração desse crime deverá ser federalizada". O professor afirmou ainda que a questão fundiária no Brasil é muito complexa e desestruturada. "Há uma lógica muito forte do capitalismo de expandir seus interesses para o campo. Não existe estrutura nenhuma. E ainda tem a exportação de madeira, porque o solo brasileiro é extremamente cobiçado. Acho que está chegando o momento de o Brasil pensar se não estamos precisando colocar nossa força armada para proteger esse patrimônio. Essa questão precisa entrar na agenda nacional". Esse triste cenário vai mudar? Mais uma resposta, infelizmente, negativa na opinião do especialista. "Eu espero que mude, mas a história tem demonstrado o contrário. Trabalhei durante muitos anos na Amazônia e já naquela época, década de 80, tínhamos muitos crimes, atentados e violência contra categorias pouco privilegiadas como índios e posseiros". Fazendeiros e madeireiros do Pará têm mais poder que o Estado? "Acho que isso é relativo. Temos hoje mecanismos que combatem esse tipo de ação, como por exemplo você poder federalizar e poder passar por cima das forças políticas locais. Mas ainda assim haverá defasagem entre a realidade local e as ações que são tomadas em nível de governo". Ele lembrou que o Estado do Pará é muito rico e geopoliticamente estratégico para a nova ordem econômica que se está construindo. "Acho que vão aparecer várias questões sobre isso. E é bom que apareçam agora para que tanto o governo federal quanto o estadual possam tomar providências". O professor acredita que pelo menos por enquanto os crimes desse tipo vão diminuir. "Vai haver uma vigilância muito forte e acho que vão se acalmar. Só não sei por quanto tempo. Não sei se os mandantes serão condenados. Mas pelo menos a Polícia Federal e o Ministério Público têm demonstrado boa vontade para que as punições aconteçam". Por que ela foi assassinada? Ele explicou que a freira foi morta por ajudar trabalhadores a reivindicar seus direitos. "Ela devia estar incomodando interesses, porque mobilizava os trabalhadores. Se você tentar organizar trabalhadores rurais, sem-terras, bóias-frias, seringueiros, essas pessoas começam a incomodar essa estrutura de poder. E ela queria ajudar essas pessoas a criar melhores condições de trabalho. E isso incomodou, porque nesses lugares os fazendeiros têm o poder de vida e de morte. Eles são os donos de tudo". Segundo ele esta foi uma das emboscadas mais covardes de que se tem notícia. "Testemunhas dizem que ela até abriu a Bíblia para ler aos assassinos e mesmo assim levou tiros à queima roupa. Foi uma morte encomendada". Antonio Flávio Testa contou que na Amazônia há trabalhadores que continuam vivendo na escravidão. "Eles são obrigados a trabalhar numa jornada que não tem limites, recebem o salário que o patrão quer pagar e têm de pagar pelas coisas o preço que o patrão quer vender. Assim estão sempre endividados. É a lógica do seringal".
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