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06/06/2005 - 18h44
"Governo e PT precisam de um chacoalhão, não podem ficar recuados", diz petista

Veja a entrevista em vídeo

Da Redação

Em entrevista a Lillian Witte Fibe, o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), ex-presidente da Câmara e pré-candidato do partido ao governo de São Paulo, disse que não existe 'mensalão' nenhum do PT a parlamentares da base aliada; que o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, está "absolutamente tranqüilo" e que chegou a hora de o governo e o PT darem uma "chacoalhada". Sobre o futuro do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que tem ido contra as decisões do partido - assinou o pedido de abertura de CPI - , disse que ele não deve ser punido e que será o candidato do PT ao Senado no ano que vem. Veja abaixo os detalhes da entrevista.

Como governo e PT receberam as denúncias de Jefferson?
Segundo João Paulo Cunha, as declarações do deputado Roberto Jefferson foram recebidas com perplexidade e surpresa tanto pelo PT quanto pelo governo. Ele contou que na época em que presidia a Câmara uma denúncia parecida, sobre pagamento em troca de voto, foi feita ao Jornal do Brasil pelo deputado pelo Rio de Janeiro, Miro Teixeira (ex-PDT, hoje no PT).

"Mandei para a Procuradoria-Geral e para a Corregedoria. O Miro mandou documento para a presidência dizendo que aquilo não era verdade, que nunca tinha falado aquilo. Eu disse: 'tem de dizer quem paga e quem recebe para a gente poder punir'. Depois mandei acionar o jornal, porque se não for verdade o jornal tem de dar direito de resposta. E mandei para o Ministério Público apurar".

João Paulo disse defender uma profunda investigação, não importando os envolvidos. "A minha posição, que corresponde mais ou menos ao que pensa o PT, é que tudo tem de ser apurado. Se tiver qualquer prova e indício do que ele (Jefferson) estiver falando, a pessoa tem de ser punida, seja quem for, doa a quem doer".

O deputado afirmou que o tesoureiro do PT, acusado de comandar o tal 'mensalão' à revelia do governo, não está nem um pouco preocupado. "Conversei com o Delúbio hoje e ele está absolutamente tranqüilo. Não tem problema nenhum, ele não fez nenhuma medida irregular. Toda a parte financeira do PT tem sido feita com base absolutamente dentro da lei. Não há nada disso".

João Paulo Cunha disse que se surpreendeu com as afirmações do petebista. "Não sei exatamente o que moveu o deputado Jefferson a tomar essa iniciativa. Ele sempre foi considerado uma pessoa equilibrada e tal... Não sei porque resolveu fazer isso. Se tiver qualquer prova, tem de apresentar e nós vamos apurar, vamos apurar. Nós do PT, o Ministério da Justiça, até a Câmara dos Deputados".

Segundo o parlamentar, apurações devem ser feitas de qualquer jeito. "Se não for verdade também tem de ter providências. As pessoas não podem ficar falando. É claro que é muito ruim para o governo, para o PT. Não somente pelo fato em si, mas pelo fato de estar dentro de uma crise que já vem se arrastando há alguns dias. Isso potencializa e agrava".

"Chacoalhão"
Ele acha que o escândalo nos Correios seguido da entrevista de Jefferson demonstram fragilidade do governo. "Minha opinião é que mesmo que remova tudo isso, o governo vai continuar com algumas dificuldades. Tenho dito para o PT e para o próprio presidente que as providências devem ser tomadas simultaneamente". Isso significa, segundo João Paulo Cunha, tocar os projetos normalmente, de forma a não admitir que as coisas parem.

"Vamos enfrentar esse debate de CPI e de Roberto Jefferson e tomar outras medidas. O governo precisa tomar um chacoalhão. Precisa apresentar coisas simbólicas e emblematicamente fortes para a população perceber. Seja na área do emprego, da saúde, precisamos mostrar que o governo está andando. O governo não pode ficar passivo, recuado, respondendo a essas coisas. Tem de ter uma política mais ofensiva".

Questionado se está na hora de o presidente Lula promover a reforma ministerial que ficou para trás, o deputado afirmou: "não sei que peças o presidente precisa mexer, mas que precisa dar um chacoalhão, precisa, porque tem hora que as coisas ficam esgotadas, exauridas, precisam de um gás novo, de um ânimo novo, um símbolo novo, uma relação nova. Isso para você ter um motivo de viver e para as pessoas olharem para você com um pouco mais de esperança. No meu ponto de vista, o governo está um pouco nessa situação".

Corrupção
João Paulo Cunha disse também que há uma sensação de que a corrupção aumentou porque existe um forte trabalho de combate a esse mal, e que agora as notícias aparecem mais porque há mais investigação. "Comecei a pensar essas coisas depois de sexta-feira. Estava no interior de São Paulo e assisti um pedaço de dois jornais. E tinham duas matérias sobre corrupção. Acontece que as notícias sobre o trabalho da Polícia Federal em relação à corrupção aumentaram muito, e toda vez que aparecem, fica parecendo que o caso é de agora. E não é. Não estou querendo negar os acontecimentos, mas acho que têm sido potencializados pela ação, que é o grande paradoxo. Você combate e de repente dá a impressão de que você foi culpado".

Sobre as recorrentes declarações do presidente Lula, de que as pessoas são mau-humoradas e "acordam azedas de manhã", que "há dias em que não dá para ler jornal", o deputado petista contemporizou. "Eu não sei porque ele diz isso, mas eu acho que ele tem uma certa razão em dizer que tem um grupo de pessoas que torcem para dar errado. Estamos numa democracia, tudo bem, mas além de fazer crítica, você tem de prestar esclarecimentos às pessoas que estão bem-intencionadas e mostrar os dois lados".

Os próximos passos
Ele contou ao UOL News que o presidente Lula se reuniria com ministros da área política e que o PT também havia marcado uma reunião da bancada para o início da noite. "O partido já publicou sua nota e insiste e renova a crença na Polícia Federal, mas quer que seja punida qualquer pessoa responsável". Apesar de admitir a crise, o deputado João Paulo Cunha falou numa palavra que foi repetida à exaustão durante a campanha vitoriosa de Lula à presidência da República.

"Vamos continuar atravessando momentos difíceis. Mas eu sempre tenho esperança que momentos difíceis precisam e exigem que a gente abra novos caminhos e o PT e o governo precisam abrir novos caminhos agora". Ele disse ter certeza que a mesada citada por Roberto Jefferson não existe e que agora o caminho deve ser a Justiça. Questionado se o PT vai processar o presidente do PTB, ele explicou: "Não sei se só o PT, porque ele também falou do PL e do PP. Acho que a bancada do PT poderia, sem prejuízo nenhum, pedir uma apuração rigorosa disso, porque não pode ficar confortável. Como eu estou pessoalmente seguro, quero que seja apurado".

O futuro de Suplicy
Para o deputado João Paulo Cunha, o senador petista Eduardo Suplicy não deve receber nenhum tipo de punição do partido por ter assinado a CPI dos Correios. "Acho que o senador Suplicy está mais ou menos assegurado. Mais ou menos não... Bom, não posso falar por todo mundo, mas tenho a impressão de que está assegurado e que será nosso senador por São Paulo. Eu não partilho da idéia e tenho a impressão de que ninguém do PT vai defender punição a ele. Ele pode expressar tranqüilamente sua opinião e não vai ser punido".

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