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20/09/2005 - 18h11 É apressado acreditar em qualquer coisa que o doleiro falou, diz professor da Unicamp Veja a entrevista em vídeo
Da Redação Foi uma confusão só o depoimento do doleiro Toninho da Barcelona às CPIs dos Correios, do Mensalão e dos Bingos. De manhã, ele disse que trabalhou para o PT e para vários partidos políticos. À tarde, disse que não era bem assim e que havia se expressado mal. Ele também negou o que disse antes, em outra ocasião. Hoje, afirmou que nunca trabalhou para o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e que não havia nada de errado nas remessas de dinheiro feitas ao exterior pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Mas acusou aliados da ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy. Disse que mandou dinheiro para um filho do deputado Devanir Ribeiro, que durante a gestão Marta formava a tropa de choque da então prefeita na Câmara de Vereadores. Disse que a CPI do Banestado não investigou as relações de Paulo Maluf com o doleiro Birigui porque o PT fez um acordo com o ex-prefeito na campanha de Marta Suplicy. O relator da CPI do Banestado foi o também homem forte de Marta: é o ex-vereador e hoje deputado federal José Mentor. A produção do UOL News procurou a ex-prefeita e o deputado para esclarecer as acusações de Toninho da Barcelona, mas não conseguiu contato com eles até o momento desta entrevista. Lillian Witte Fibe conversou com o professor de Ética e Política da Unicamp, Roberto Romano. Ele explicou que é preciso tomar muito cuidado para não tirar conclusões precipitadas do depoimento do doleiro. "Por enquanto, acho que é muito apressado tanto aceitar a afirmativa de que trabalhou com o PT como acreditar em qualquer coisa que ele falou. Como em todo o julgamento, embora este seja político, os jurados e o juiz não podem optar pelo sim ou pelo não antes de terminar o julgamento. Não têm esse direito. Até porque na Justiça brasileira existe a possibilidade legal de o depoente acusado, que é o caso dele, mentir." Para Romano, o fator psicológico também interfere no depoimento. "A coisa fica complicada quando ele é chamado a identificar clientes políticos. Nessa hora diz que ocorreu uma ligação com o PT, depois diz que não. Trata-se de uma pessoa que está presa, sob uma pressão psicológica tremenda e que tem medo. De fato assusta a passagem de afirmação para negação e para afirmação de novo, mas note que, no intervalo (nas pausas que faz para responder perguntas), as indicações feitas são muito claras e muito coerentes. Portanto, alguma coisa ocorre ali de verdadeira." A jornalista perguntou ao professor se não dá para levar em conta números apresentados por ele sobre o PT - ele disse que operou R$ 7 milhões para o PT e para partidos da base aliada de uma só vez entre setembro e outubro de 2002. "Deve-se levar em conta sim, e acho que a função dos deputados e senadores é levar em conta e investigar, exigir as comprovações ou as negações. Levar em conta não significa apenas aceitar as palavras do depoente, mas também e, sobretudo, investigar." E completou: "Uma das questões fundamentais tanto da ética como da Justiça é pensar na pessoa na sua situação concreta. É perfeitamente previsível que alguém minta, desminta e desminta novamente. Depende do tipo de pressão que esteja sendo exercitada sobre ela naquele momento. Há uma mistura muito espantosa de credibilidade e coerência com evidentíssimas contradições. São gritantes. Ninguém diz uma coisa de manhã e muda à tarde. Esse é um ponto que deve ser levado para investigar." Lillian perguntou se por causa da instabilidade do depoente as acusações contra a ex-prefeita Marta Suplicy deveriam ficar de lado até segunda ordem. O professor respondeu: "Acho que sim, mas deve integrar a agenda inclusive dos deputados e senadores que pertencem ao PT. Tem de haver uma procura própria até para defenderem o partido caso cheguem às provas de que as alegações não condizem com a verdade." Dinheiro do caixa 2 Segundo o professor, Toninho da Barcelona também não deixou claro se o caixa 2 do PT era abastecido só pelo dinheiro do valerioduto ou se tinha também envolvimento de câmbio ilegal. "Isso não ficou definido, delimitado, e, sobretudo, não ficou dito o caminho e quem passeava pelo caminho. Ficou no ar. Isso tem de ser muito bem investigado e discutido." "Festival denuncista" Ontem, a Executiva Nacional do PT preparou um documento para dizer que o partido está sendo perseguido. "A Comissão Executiva Nacional do PT aprovou uma resolução que critica duramente o 'festival denuncista' que expoentes de vários partidos políticos - principalmente do PSDB e do PFL - têm liderado, inclusive orientando os trabalhos das CPI num sentido eleitoreiro, em que o objetivo de efetivamente investigar e punir é desviado para mero aproveitamento político midiático." (Clique aqui para ler a íntegra do documento) Roberto Romano criticou o teor do documento. "O PT precisa defender o partido não atacando a imprensa e os demais partidos, como mostra à sociedade nesta lamentável carta que está hoje no site do PT. O estilo dessa defesa só leva a isolar mais ainda o PT no cenário político nacional. É preciso medir muito bem as palavras. Eu entendo que o PT esteja se sentindo acuado e perseguido, mas, neste documento, diz com todas as letras que ocorreram erros e que estão sendo punidos. Não é verdade. Não é verdade." E citou o trecho que faz esta afirmação: '(...) começamos a enfrentar nossos erros, buscar a punição dos culpados e a debater as correções políticas necessárias à superação da crise, tanto no governo como no PT'. É verdade isso? Não é verdade. Sabemos, inclusive, que até por um certo tipo de manobra, não temos o prolongamento das punições." Para Romano, trata-se da velha tática de dizer que as denúncias são eleitoreiras e golpistas. "Tenho quase 60 anos e acompanho essa história; já vi muito isso. Tanto que até se criou a expressão 'é intriga da oposição'. Um partido que tem um quadro de intelectuais tão bem formados deveria sofisticar um pouco mais a sua defesa, ter uma atitude um pouco mais elevada. É lamentável quando falam que é um processo covarde pela massificação dos meios de ataque". E completou: "Na imprensa, na universidade, no Ministério Público, na Justiça, na Igreja, em todas as instituições que são humanas há interesses menores e de lucro, mas você dizer que é covarde porque é midiático, está atingindo toda a imprensa, todos os jornalistas, e cria apenas mais má vontade em relação ao partido." Lillian Witte Fibe disse que a retórica petista lembra o stalinismo. "Você tem toda razão. Uma das características dos movimentos totalitários do século 20, que foram o fascismo e o stalinismo, era essa utilização dos slogans para destruir o outro. Esse tipo de atitude causa o isolamento, porque a população não está interessada no xingatório, e sim no que está ocorrendo. Na medida em que um partido inteiro, através da sua direção, acusa todo o setor da imprensa e todas as elites, sem dizer quais são elas, sente-se um mal-estar pior ainda. Aí o ambiente político fica envenenado, e veneno não vai ajudar a sair da crise." Eleição no PT Roberto Romano disse que o PT sairá com a imagem ainda mais comprometida caso não esclareça as denúncias de assistencialismo nas votações de domingo. "Se efetivamente ficarem provadas as denúncias de utilização da máquina e de um certo cabresto, isso é muito sério. É alguma coisa que deveria ser analisada e punida imediatamente por aqueles que querem manter a credibilidade do PT." A jornalista contou ao professor que ontem, em entrevista ao UOL News, o presidente nacional do partido, Tarso Genro, disse que transportar militantes, por exemplo, está previsto no estatuto do PT. Romano sorriu e afirmou: "Esse é o ponto que me parece muito complicado. Naquela famosa entrevista que o presidente da República deu àquela jovem em Paris, disse que todo mundo fazia caixa 2. Mas caixa 2 é crime. Porque ele disse deixa de ser crime?" E concluiu: "Vamos supor que o regulamento do PT diga que cabos eleitorais podem pagar anuidade do militante, levá-lo, dar almoço, etc..., isso continua errado. Sobretudo vindo de uma pessoa como o ex-prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro, que tem uma formação não apenas jurídica e técnica, mas humanística, que conhece profundamente os problemas da ética. Eu fico mais do que espantado. Isso me escandaliza. Se não houver uma ação muito clara no sentido oposto ao tomado pelo Tarso, no sentido de punir e impedir essa prática - até porque deverá haver segundo turno -, teremos um partido que sai ainda mais rachado, com mais problemas de confiabilidade." UOL Busca - Veja o que já foi publicado com a(s) palavra(s)
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