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04/11/2005 - 17h58
Serraglio diz que "mensalão" está comprovado e afirma que cassação ou renúncia não livra ninguém da cadeia

Veja a entrevista em vídeo

Da Redação

A CPI dos Correios apresenta na quinta-feira da semana que vem o relatório sobre as movimentações financeiras das contas do mineiro Marcos Valério. O presidente da CPI, senador Delcidio Amaral, nos deu uma entrevista importantíssima ontem dizendo que a tese de caixa 2 não se sustenta de jeito nenhum, que as datas dos saques não batem com os períodos eleitorais - tampouco com os anunciados empréstimos - e que há sim dinheiro público na história.

E hoje a jornalista Lillian Witte Fibe entrevistou o relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR). As informações também foram impressionantes. O deputado disse que houve sim mensalão, que outras estatais aparecerão como "doadoras" de contas de Valério e que estão investigando, além dos Correios, Infraero e Eletronorte.

Disse que a corrupção está na área de publicidade das empresas e que o ex-ministro Luiz Gushiken, que coordenava para onde ia o dinheiro de publicidade do governo, "já não tem mais o benefício da dúvida" - assim como o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu.

Antes, quando respondia se acredita na inocência do presidente Lula, se acredita que ele não sabia de nada mesmo sendo tão próximo dos acusados, afirmou: "Como advogado, dou o benefício da dúvida a ele".

Mensalão
O deputado contou que a CPI do Mensalão já tem provas de que houve sim mesada de R$ 30 mil para parlamentares. "Eles tabularam tudo por data e mostram que é mensalão sim. A cada semana foram tantos mil, valores redondos, tem tudo tabulado. Não há mais dúvida de que houve mensalão."

Lillian perguntou: "O senhor está nos dizendo que houve suborno, compra de parlamentares, com periodicidade e com dinheiro público?"; Resposta: "É isso aí. Numa ponta já tínhamos identificado saques que beneficiaram parlamentares. Já há na CPI da Compra de Votos (Mensalão) a tabulação semanal de quando iam sendo feitos os pagamentos. Fizeram uma divisão pelo número de deputados e chegaram à conclusão que dava R$ 30 mil mensais, que foi o que o Roberto Jefferson havia informado."

Questionado sobre o que está provado quanto ao "abastecimento" das contas de Valério, explicou. "O Banco do Brasil fez o pagamento antecipado de R$ 35 milhões, dos quais R$ 10 milhões até hoje não foram pagos. Não iam mexer com isso, mas agora o banco veio a público dizer que R$ 10 milhões não foram executados."

"Isso significa que os R$ 10 milhões já eram?", questionou a jornalista. "Sim, já eram. E o Banco do Brasil reconheceu que no dia 25 de outubro notificou a DNA de que quer o dinheiro de volta." Segundo Serraglio, "o imbróglio será grande", já que a história envolvendo o Banco do Brasil afeta o tesouro, por ser uma estatal, e também acionistas da Visanet, por ser uma empresa de capital aberto.

"O Banco do Brasil jogou dinheiro fora, porque pagou antecipadamente. Quem faz a publicidade da Visanet? 1/3 é o Banco do Brasil e o restante são outros. A parte que cabe ao Banco do Brasil é ele que decide onde vai fazer publicidade, em qual agência, quanto vai gastar, que tipo de promoção e evento vai fazer... e também é ele que fiscaliza. Inclusive a Visanet divulgou nota dizendo que não tem nada com isso."

Há outras estatais envolvidas?
"Não tenha dúvida de que na CPI dos Correios vai aparecer muita mazela e indício em relação à publicidade. Os detalhes a gente vai ver para frente." Lillian perguntou se vão aparecer mazelas em relação à publicidade também nos Correios. Osmar Serraglio foi categórico: "Claro que vai aparecer."

"Então tem mais empresa pública?"; Resposta: "Tem. Em todos os levantamentos que se faz de publicidade, tem problema. É incrível. Estou convencido, pessoalmente, não como integrante da CPI, que o segmento publicidade foi um dos focos de que se valeram para, eu não digo de forma centralizada, que fossem enxugados recursos, mas aquela história contada pelo Roberto Jefferson que colocavam pessoas em locais estratégicos e tal, com certeza um dos pontos saiu da publicidade."

Ele disse que a CPI também vai investigar a Eletronorte e a Infraero. "Você já viu o relatório do TCU sobre a Infraero?" O deputado esclareceu que a comissão não cuida nem da Petrobras, nem de Furnas.

Impeachment
O deputado também falou sobre a figura do presidente Lula nessa história toda. Questionado se acha que a crise está mais perto do presidente e se ele pode sofrer impeachment, afirmou que é preciso ter muita cautela.

"O impeachment é uma situação que tem de ser criada a partir de uma coisa que seja muito forte na opinião pública. É igual a time de futebol: não se parte para uma atitude dessas, um impeachment, contra a metade da população... vira uma guerra civil. Ninguém pode ser irresponsável de criar uma situação extrema. A menos que houvesse um clamor majoritário e evidente."

Lillian Witte Fibe perguntou se ele acredita que o presidente Lula não sabia de nada, sendo tão próximo dos principais acusados - Dirceu e Gushiken, por exemplo. Ele foi cuidadoso na resposta: "Me valho da presunção da inocência. Dou a ele o benefício da dúvida."

"José Dirceu pode ter feito tudo sem que ele soubesse?", perguntou a jornalista. "Talvez não soubesse o tamanho das coisas. O Dirceu, escrevi isso, não posso crer que não soubesse. Ele comandava, sabíamos da interlocução que havia, aquela briga toda, não abria mão do relacionamento político para o Aldo (Rebelo, ex-ministro da Coordenação Política). Portanto, estava sabendo de tudo o que acontecia. Aí não há o benefício da dúvida."

E para o ex-ministro Luiz Gushiken? "Em relação à publicidade, está muito próximo de perder o benefício da dúvida."

Cadeia
Para o deputado, renúncia ou cassação de culpados não poderá livrá-los da responsabilidade criminal. "Nem quem vai ser cassado está livre, nem quem renunciou está livre de cadeia. Falta de decoro é problema de mandato, que o Parlamento decide 'sim' ou 'não' e o cara decide 'sim' ou 'não'. Agora, a participação de atos delituosos independem de renúncia ou da cassação. Com certeza vão ter de enfrentar na Justiça."

Relatório
Serraglio informou que o relatório da CPI dos Correios vai apresentar as contas do 'complexo Marcos Valério', acima de tudo aquelas contas que alimentaram o mensalão.

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