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25/07/2005 - 19h33 "É estranho Lula não falar sobre empréstimo que pagou ao PT; ele deve ter os recibos provando que fez o depósito ao partido" Veja a entrevista em vídeo
Da Redação O Supremo Tribunal Federal negou habeas corpus preventivo à mulher do publicitário mineiro Marcos Valério mas garantiu que ela não sai com voz de prisão amanhã, do depoimento que vai dar à CPI dos Correios. Ela ganhou o direito de não assinar o compromisso de dizer toda a verdade. Ou seja: Renilda Santiago pode mentir (como puderam fazer o marido dela e também Delúbio Soares e Silvio Pereira, ex-tesoureiro e ex-secretário geral do PT). Ela recorreu à Justiça porque não queria ir à CPI, mas vai na marra porque é ordem do Supremo. A única coisa que a mulher de Marcos Valério não pode, segundo informou o STF, é se recusar a responder perguntas - bom, mas aí, já que não precisa dizer a verdade, pode mentir e pronto. Para o jornalista Fernando Rodrigues, colunista do UOL News, a decisão do Supremo tem um efeito limitado no sentido de impedir que as investigações descubram as operações financeiras nas quais estão envolvidas as empresas de Marcos Valério. "Vários já estiveram na CPI com esse habeas corpus e fica mais ou menos evidente que mentiram para deputados e senadores. Acontece que documentos coletados e recebidos pela CPI vêm desmontando, uma a uma, as versões mentirosas apresentadas por essas pessoas. É muito difícil que essa mulher amanhã, e outros que vierem a depor, se beneficiem muito disso. Estão é acabando com o resto de reputação que ainda têm e saindo desse meio todo, alguns deles, com a pecha de mentirosos - além da de corruptos". Segundo Fernando, o depoimento de amanhã pode ser meio frustrante, mas a curto prazo. "A médio prazo essas pessoas não vão conseguir evitar que as operações fiquem conhecidas". O jornalista contou que pelos cálculos de técnicos da CPI, o valor que as empresas de Marcos Valério movimentaram chegam a cerca de R$ 1,6 bilhão de 2000 para cá. "É um valor muito alto que ainda merece ser reconfirmado, porque esses números estão sendo vazados um a um sem a comprovação final. Mas são valores altíssimos e, se forem confirmados, estaremos à frente de uma das maiores lavanderias de dinheiro político que já se viu nesse país". O empréstimo do PT ao presidente Lula Fernando Rodrigues contou que o que mais se pergunta em Brasília é se esse escândalo vai chegar ao presidente Lula. Ele lembrou que um fato novo divulgado sábado pela Folha de S.Paulo é, no mínimo, estranho. A reportagem revela que o presidente Lula tomou um empréstimo de R$ 29,4 mil do PT. A dívida foi paga em quatro parcelas. A primeira, a mais alta, no valor de R$ 12 mil, foi quitada no dia 30 de dezembro de 2003 via depósito online que ninguém sabe quem efetuou. A reportagem da Folha procurou o Planalto e esperou dias por uma resposta, que se limitou à seguinte nota: "A Presidência da República não tem conhecimento dessas informações, que devem ser buscadas junto ao Partido dos Trabalhadores". "É um episódio muito complicado, esquisito e ruim para o presidente Lula, até porque, por algum motivo obscuro, ele não nos deu nenhuma explicação. Há uma semana a Folha começou a perguntar ao Planalto a respeito do empréstimo, que era público, que estava registrado. A pergunta é: quem fez o depósito de R$ 12 mil ao PT? Não se sabe, mas o presidente Lula deve saber. Deve ter sido ele e imagina-se que tenha inclusive o comprovante. Até porque, diante dos milhões, R$ 12 mil são valores pequenos, e seguramente o presidente da República tem os recibos de tudo isso aí e vai mostrar. Agora é curioso que não mostrou ainda. É esquisito, né?!" Para o jornalista, a reaproximação do presidente Lula com as bases é uma estratégia para tentar preservar sua popularidade entre as classes mais simples da sociedade brasileira. "É uma estratégia que qualquer leitor de pesquisa recomendaria ao presidente. O que a pesquisa Datafolha mostrou ontem é que, apesar de o governo Lula ter um suporte razoável, apesar de todo escândalo, apesar de Lula ainda manter um certo prestigio, a figura dele vem perdendo muita popularidade, sobretudo nas classes 'A', 'B' e início da 'C'. Que são aqueles com maior escolaridade, com maior nível de renda, os chamados formadores de opinião. Estes já perderam muito do encanto que tinham com Lula. Sobrou as classes 'D' e 'E', os menos favorecidos. E essa tentativa de fazer uma linha direta com esse extrato social é uma forma de se blindar e de tentar garantir para si aquilo que já tem e também para não perder e deixar que essa parcela seja contaminada". Clima pesado em Brasília Fernando Rodrigues disse que a grande expectativa da semana é para a divulgação de documentos que estão em poder da Justiça. "Até agora sabemos quem sacou - na verdade, uma parte de quem sacou -, mas não sabemos quais foram as empresas que pagaram para as agências de publicidade de Marcos Valério. A gente já sabe de alguns bancos e empresas que pagaram alguns milhões para as agências, mas é preciso saber que tipo de serviço foi prestado, verificar com precisão se aquele dinheiro pago por aqueles serviços descritos nas notas corresponde a algo próximo da realidade. Porque a suspeita maior é que o grosso do dinheiro seja de empresas privadas que fazem a doação por meio das agências dele. Ele tem negado, mas os indícios são gritantes a respeito desse esquema". Chantagem O colunista do UOL News disse que está mais ou menos evidente que há sim chantagem de Marcos Valério contra o PT. "Os envolvidos estão de certa forma negando, mas quando uma pessoa diz que sabe de muita coisa, está fazendo chantagem. Se sabe, porque não fala? Está esperando o quê? Alguma vantagem..." Lillian perguntou se Valério seria uma espécie de cachorro que late e não morde. Fernando respondeu: "Não sei, acho difícil, até porque os documentos que hoje ainda não foram divulgados, estão no Supremo. Esses documentos contêm informações das quais Marcos Valério é ciente e já podia ter contado. Sabe até mais do que está lá. Pouquíssimas pessoas devem ter o controle geral de quem ganhou dinheiro, mas uma delas é certamente Marcos Valério". O PT vai pagar a dívida? Fernando Rodrigues respondeu da seguinte forma: "o argumento do PT é que esse empréstimo de Valério foi feito informalmente entre Delúbio e ele, e que não há contabilização formal contra o partido. É um bom argumento, seguro e sólido, desde que os dirigentes atuais do PT, e eu digo todos os dirigentes, não tenham nada a ver com o esquema". Questionado se sabia de alguma coisa, usou uma frase que tem sido recorrente nos últimos tempos: "prefiro não falar sobre o assunto".
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