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05/04/2005 - 16h16
Sucessão do papa: Frei Betto aposta em avanço na moral sexual católica

Veja a entrevista em vídeo

Da Redação

O frade dominicano e escritor Frei Betto, 60, disse haver indicativos que afastam um pouco a probabilidade de que o próximo papa seja de linha conservadora. Em entrevista a Lillian Witte Fibe, no UOL News, Frei Betto declarou que a Igreja Católica deve evoluir na questão da moral sexual e disse que não é pensar muito alto falar em fim do celibato obrigatório. Ele disse que a Igreja precisa prestar atenção ao legado de "três grandes judeus que fizeram história: Jesus, Marx e Freud", e classificou João Paulo 2º como um homem com "cabeça de direita e coração de esquerda".

"Alguns indicativos nos deixam menos inquietos quanto à escolha de um papa conservador. Em 1996, o papa João Paulo 2º reformulou as regras do Conclave, excluindo aqueles cardeais acima de 80 anos. Os mais idosos são também os mais conservadores. Acredito que o novo papa será um cardeal com entre 65 e 73 anos."

"Há mais três critérios importantes: ele deve ser poliglota, com domínio de vários idiomas, principalmente o italiano, deve ser bem visto pela Cúria romana, e ter uma qualidade rara de se encontrar na mesma pessoa: ser ortodoxo de um lado e bom de mídia no outro. Os ordodoxos em geral não são bons de mídia, e os que têm magnestismo em geral são progressistas."

Por tudo isso, Frei Betto junta-se aos que acreditam na possibilidade de um papa brasileiro: "Aposto muito na possível eleição de dom Cláudio Hummes", afirmou.

"Os cardeais não elegerão um papa muito jovem, para que ele não fique por um tempo muito longo no mandato."

O dia-a-dia do escrutínio

Pelas regras estabelecidas pela Igreja, a escolha do novo papa deve começar entre o 15º e 20º dia após a morte do antecessor. Como o papa João Paulo 2º morreu no último sábado, tudo indica que o próximo Conclave comece a partir do dia 17 de abril. Segundo Frei Betto, o dia-a-dia do escrutínio deve seguir a seguinte ordem:

1º dia - um escrutínio ("É homenagem aos mais idosos. "É quase uma brincadeira entre eles", diz Frei Betto.)
2º ao 4º dia - quatro escrutínios
5º dia - descanso ("É onde acontecem vários conchavos", afirma Frei Betto)
6º dia - três escrutínios
7º dia - quatro escrutínios
8º dia - descanso
9º dia - três escrutínios
10º dia - quatro escrutínios
11º dia - descanso
12º dia - três escrutínios
13º dia - quatro escrutínios
14º dia - descanso
A partir do 15º dia - escolha por maioria simples (50% mais um dos votos)

"Acho que não vai ser uma eleição tão rápida, porque nos primeiros dias vai ser uma disputa dos italianos contra o resto do mundo. Os cardeais italianos vão querer recuperar o papado, que tiveram ininterruptamente de 1922 até 1978, quando um papa polonês foi eleito (João Paulo 2º)."

Entre os italianos, Frei Betto aponta o cardeal Dionigi Tettamanzi, arcebispo de Milão, como um nome forte. "Ele não é tão conservador quanto dizem", afirmou.

Uma vez "vencido" o embate entre italianos, para Frei Betto, há chances para o surgimento de um papa sul-americano, africano ou asiático. "A escolha de um cardeal de olho puxado ou negro hoje seria de impacto fantástico. A Igreja já teve três papas africanos na história, numa época que não existia mídia. Nunca houve um papa latino-americano nem asiático."

"Igreja precisa prestar atenção em Jesus, Marx e Freud"

Citando entrevista que o teólogo Fernando Altemeyer deu ao UOL News na noite de sábado, em que ele afirmou que a Igreja precisa "conversar com Freud", no sentido de que a psicanálise é um ganho que deve ser levado em consideração também pela religião, Lillian perguntou se Frei Betto concordava com isso.

Ele respondeu: "Acho que a Igreja precisa prestar atenção nos três grandes judeus que marcaram a história do mundo: 1º, Jesus, 2º, Marx, e 3º, Freud. "Não é exagero o Vaticano prestar atenção em Karl Marx, no sentido da crítica do sistema social e da desigualdade, condenando o modelo de globalização, o neoliberalismo, e aceitando a Teologia da Libertação."

Frei Betto ressaltou que João Paulo 2º criticou a globalização. "Ele sempre falou que não aceitava esse regime, que provocava desigualdade. Em sua última viagem ao México, fez dois discursos fortes citando isso." Para Frei Betto, João Paulo 2º tinha "cabeça de direita e coração de esquerda".

"Ele tinha essa ambigüidade, era doutrinariamente conservador, mas do ponto de vista social, tinha um pensamento bastante avançado. Mas nunca rompeu com a Cuba de Fidel Castro, com a Líbia de Gaddafi e com o Iraque de Saddam Hussein."

Necessidade de renovação

Sobre a migração de fiéis católicos para outras religiões, Frei Betto vê a necessidade da Igreja em "renovar seus ministros" e discutir questões internas como a manutenção do celibato e o impedimento de ordenação de mulheres. "Um padre se forma hoje em 8 anos. Já um pastor se forma em 1 ano e 8 meses. Se alguém for a uma igreja católica num horário qualquer hoje à tarde, dificilmente encontra um padre que atenda. Se alguém for às 3 da manhã a uma igreja evangélica, é quase certeza de que haverá um pastor lá. Eles têm flexibilidade maior", disse.

Frei Betto disse que o único grande movimento de evangelização recente promovido pelos católicos foram as comunidades eclesiais de base, "só que a Igreja não abraçou de cheio o movimento".

"Celibato não existiu sempre na Igreja Católica. Acredito no Espírito Santo e acho que pensar em mudanças não é sonhar alto"

Para Frei Betto, falar em acabar com o celibato obrigatório. "Jesus curou a sogra de Pedro. Se Pedro gostou, não sei, mas o Evangelho diz que Jesus curou a sogra de Pedro. Quer dizer, ele tinha mulher, e foi papa. O celibato é coisa recente na história da Igreja."

"Não estamos sonhando alto. Já vi tantas mudanças na história da Igreja em meus 60 anos, e acredito no Espírito Santo. Como a Igreja continua ativa e viva, é sinal de que Deus existe mesmo. Acho que a Igreja precisa superar isso. É possível que o próximo papa venha a ter outra postura diante da moral sexual."

"A Igreja considera que o casamento é para procriar. A Teologia da Libertação acredita que é para manifestar comunhão de amor. Na Igreja, há os progressistas, conservadores e aqueles que têm uma desconfiança enorme diante dos avanços, das evoluções simbolizadas na juventude."

Sobre o encolhimento da quantidade de fiéis, Frei Betto vê "preocupação" da Igreja com relação à "modernização" do pensamento.

"Não me preocupo muito com essa migração para outras religiões, porque acho que Deus não tem religião. Seria insensatez uma competição entre igrejas e religiões. Deus deve, no mínimo, estar achando muita graça do que estamos falando", disse.

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