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24/02/2006 - 17h53
Conflito religioso torna "irrealista" plano de retirada de tropas ocidentais do Iraque

Veja a entrevista em vídeo

Da Redação

Um toque de recolher decretado ontem à noite, que deveria durar até 6h da manhã, mas que foi estendido até às 4h da tarde (10 h da manhã em Brasília) aparentemente diminuiu um pouco a violência em Bagdá. A capital do Iraque estava ontem à beira de uma guerra civil: 200 pessoas morreram em três dias. Hoje, além do toque de recolher, atribui-se também ao apelo dos clérigos muçulmanos a redução do número de mortos nas últimas 24 horas, embora ainda não exista um número oficial.

Na quarta, o ataque à Mesquita Dourada, um dos mais conhecidos templos xiitas do país, deflagrou uma série de outros atentados agravando a hostilidade entre xiitas e sunitas. Em represália, milhares de muçulmanos xiitas foram às ruas e atacaram grupos e mesquitas da minoria sunita, que dominou o Iraque na ditadura de Saddam Hussein. A crise entre os grupos religiosos é a pior desde a invasão do Iraque pelos Estados Unidos em 2003.
O acirramento dos conflitos entre sunitas e xiitas pode tornar irreais as promessas feitas pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e o primeiro-ministro inglês, Tony Blair, de retirar ao longo deste ano as tropas ocidentais do Iraque, segundo o historiador Luiz Felipe de Alencastro.

Segundo Alencastro, o conflito religioso era uma situação latente no país. "Já tinha havido na primeira Guerra do Golfo, em 1991, uma insurreição xiita, num momento em que Saddam estava enfraquecido, que foi brutalmente reprimida. A insurreição anti-americana mais forte entre os sunitas relança um enfrentamento", disse.

O historiador vê um recolhimento das tropas americanas que, segundo ele, evitam entrar no tiroteio entre os dois grupos, deixando para o exército iraquiano _"que não tem competência nem formação nenhuma"_ a responsabilidade para controlar os conflitos.

Na avaliação do historiador, o plano político, já afetado pela rejeição das lideranças sunitas em participar de um governo de coalizão, pode piorar com a intromissão de grupos xiitas do Irã. "Os xiitas do Iraque são da mesma família religiosa dos xiitas do Irã. A partir daí há também a perspectiva de manipulação iraniana nos negócios domésticos do Iraque, o que pode complicar ainda mais a situação do país".

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