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02/06/2005 - 19h24
"O melhor sexo raramente é com a pessoa mais amada", diz especialista

Veja a entrevista

Da Redação

O Dia dos Namorados vem aí, mas a ciência acaba de jogar um balde de água fria em alguns sonhos românticos demais ao demonstrar que amor e sexo são coisas diferentes. Um estudo que será publicado na edição de julho do "The Journal of Neurophysiology" mostrou isso apor meio do escaneamento cérebro de pessoas que estavam na fase de começo de namoro. O lado direito do cérebro reage diante do amor. Já a atração sexual é vista do lado esquerdo do cérebro. E conclui: o amor mexe com sistemas de motivação e de busca de recompensa: a tão desejada reciprocidade.

Segundo Henrique Del Nero, psiquiatra e coordenador do Núcleo de Ciências Cognitivas da USP fala sobre o assunto, este estudo revela uma faceta interessante ao mostrar que há três áreas cerebrais distintas que são afetadas quando alguém sente desejo sexual, paixão ou quando está vivendo um relacionamento duradouro. "São três coisas diferentes. Ao contrário do que se pensa, o melhor sexo nem sempre é com a pessoa que mais se ama. Eu já ouvi muito isso nos meus 23 anos de clínica", afirmou.

A paixão, de acordo com ele, tem componentes interessantes, em termos de centros cerebrais ativados, que tem a ver com busca de beleza, de padrões estéticos. "Se a pessoa reparar bem, às vezes algumas características do alvo da sua paixão tem algum pedacinho do rosto que lembram alguma pessoa da família, remete a sensações muito primeiras de gratificação, de recompensa", explica.

"Mas no fundo o que o estudo mostra é que o amor apaixonado é um primeiro momento de forte impulso de ter alguém, muito antes de procriar. Está dissociado do sexo. É um desejo apaixonado de conquistar alguma coisa. Tanto é que a gente fala que a gente é apaixonada pelo trabalho, é um impulso violentíssimo que deixa a gente muito focada. E não tem muito que ver com sexo e com outras razões", completa Del Nero.

Sofisticação biológica

"O homem começa a se diferenciar dos outros animais pelo sexo. Nós somos seres muito antigos, se formos ver na escala evolutiva. Nos animais, o primeiro motivo biológico do contato é a procriação. Nos animais existem ciclos, existe o cio. No homem, a natureza já inventou um cio que funciona o ano inteiro. Ele escolhe; ou seja, não é qualquer um. Os humanos são muito mais seletivos que os animais. Nós ganhamos com o sexo, o cio permanente e com a escolha, uma grande possibilidade de refinamento da prole. E podemos garantir que o parceiro fique por perto no tempo em que a fêmea fica inabilitada para certas funções", explica o psiquiatra.

De acordo com ele, na medida que a sociedade se desenvolveu na sua formação de valores, leis, cultura e civilização, nós precisávamos de mais. Aí entra o comportamento de afiliação. Uma ligação que vale mais que o sexo. O ser humano sofistica a possibilidade de a união ser mais duradoura do amor terno e do amor companheiro, aquele que dura a vida toda. São etapas muito bem explicadas. Aliou o sexo ao amor e à relação estável.

O lugar do sexo

O que o estudo mostra é que pode-se amar uma pessoa e não sentir atração por ela e vice-versa. O desejo carnal, principalmente no homem, pode ser totalmente desvinculado envolvimento.

"Devemos, sem banalizar o sexo, torná-lo uma coisa muito menos pesada que nos foi transmitido. Sexo é maravilhoso, belíssimo, deve ser totalmente liberado, no sentido de se livrar das amarras que cristianismo, as religiões e os sistemas colocaram para manter uma estrutura estável que era muito importante para o capitalismo", diz.

Já paixão, continua o psiquiatra, é uma das coisas mais maravilhosas que existe. "Ela é rara. A gente não pode viver esperando por um banquete. Mas que às vezes intoxica. Tem que comer arroz e feijão também. A cultura nos ensina amar o possível, e a paixão é um pouco de amor por uma utopia."

De acordo com ele, muitas vezes o amor se torna mais intenso quando não é correspondido. A incidência de quadros sérios de depressão sérias que vão parar em consultórios psiquiátricos, causadas por rejeição amorosa , é muito grande, só perde para perda de filho, separação e perda de emprego.

"Um amor premeditado é um amor pobre. Um amor ousado é intenso, apaixonante. Mas um amor inconseqüente pode ser perigoso. Acho que a rejeição entra nesse ponto. É a habilidade de não ser premeditado,m obsessivo e calculista, mas ao mesmo tempo é algo que não se consegue inibir porque é um impulso primitivo. Os circuitos cerebrais que estão envolvidos em paixão tendem a ter um looping repetitivo, como criança que repete mil vezes a mesma coisa. Tenho um paciente que liga 50 vezes por dia para a namorada. Até um juiz e a polícia foram acionados, mas ele não consegue parar", conta.

Para terminar o psiquiatra enumerou três modalidades que ele considera fundamentais no comportamento humano de afiliação (que o difere dos demais animais): "Tem o prazer corporal, o componente fortemente mental e espiritual e o terceiro, que é como aquela história de Platão, do carvalho que faz sombra por outro. Eles se protegem do sol excessivo. Quando um morre, o outro morre também. Nós temos a vida longa e nos protegemos os dois". É o amor duradouro.

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