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17/01/2006 - 15h46
Adib Jatene: "Vaidade e inveja fazem mal ao coração; brasileiro precisa ter mais fé"

Veja a entrevista em vídeo

Da Redação

A âncora Lillian Witte Fibe recebeu hoje no estúdio do UOL News, em São Paulo, um dos cardiologistas mais renomados do Brasil, dr. Adib Jatene, com 76 anos, 4 filhos e 10 netos. Ex-ministro da Saúde por duas vezes (nos governos Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso), hoje dirige o Hospital do Coração. Na conversa, que durou cerca de 40 minutos, o médico falou de política, medicina e qualidade de vida.

Disse que diferentemente do que muita gente diz, o Brasil vai bem na área da saúde, mas que a falta de dinheiro compromete os resultados. "É preciso usar a criatividade", afirmou. Segundo ele, inveja e vaidade fazem mal ao coração, estresse se controla com bom-humor e, para ser feliz, o brasileiro precisa ser mais otimista e ter mais fé.

Questionado se voltaria à política, foi categórico: "Não, por uma razão: estou acostumado que quando eu combino alguma coisa, eu cumpro. E o que eu consegui verificar na política é que não há compromisso de se cumprir o que se combina." De qualquer forma, afirmou estar à disposição de qualquer partido e qualquer governo para ajudar o país.

Estresse
Adib Jatene citou um amigo quando questionado sobre felicidade. "Trabalhei no Dante Pazanezzi com o dr. Dante, filósofo, grande cardiologista. Ele dizia que ninguém consegue combater o estresse. O estresse existe, o que você consegue é reagir de uma forma mais equilibrada a ele."

Segundo ele, dr. Dante dizia que existem dois sentimentos que complicam muito a vida das pessoas: a inveja e a vaidade. "A inveja faz o indivíduo sofrer com o sucesso alheio e a vaidade faz com o que indivíduo fique muito preocupado com o que os outros pensam do que ele está fazendo. No momento em que você consegue controlar esses dois sentimentos, fica num nível em que fica mais fácil reagir às dificuldades."

Lillian Witte Fibe perguntou quais os efeitos das decepções amorosas para o coração. "Decepção amorosa é como qualquer outra decepção, tristeza. Um casal idoso, por exemplo, quando morre um, o outro logo tem problemas."

Ele lembrou que certa vez recebeu Ulysses Guimarães no Incor, que havia sofrido um pequeno infarto, e que quando o político deixou o hospital os jornalistas perguntaram ao médico se ele poderia voltar a trabalhar.

Resposta do dr. Adib Jatene à imprensa: "o trabalho não mata ninguém. O que mata é a raiva, a tristeza, porque isso provoca a liberação de hormônio, vaso-constrição, hipertensão... A pessoa precisa aprender a metabolizar as decepções, as frustrações."

E completou: "quando eu era estudante meu esporte era o remo. Lembro que um dia a gente estava chegando num páreo de 2 mil metros, exaustos, e nosso técnico dizia: 'vamos, porque eles também estão cansados'. Quando a gente tem problema, a gente vai superar, vai sair. Todo mundo tem problema. É isso que eu acho que a gente precisa trabalhar."

Receita de saúde
A jornalista perguntou ao cardiologista o que ele faz para manter a vitalidade e a forma aos 76 anos de idade. Segundo ele, usa as mesmas recomendações que faz aos seus pacientes. "Mantenho o peso, não fumo, controlo a pressão, controlo os meus exames de sangue, e procuro controlar o estresse da vida moderna, consigo ser tranqüilo."

Ele contou que tem muita gente que parece se esquecer da saúde. "Eu sempre digo aos meus pacientes: 'tenho certeza que seu carro está absolutamente em ordem, que qualquer barulhinho você leva na oficina. Chega aqui tenso, gordo, fumando, o que você quer? Você está destruindo sua estrutura'. Precisamos em primeiro lugar cuidar da carcaça, porque apesar de todo o avanço científico e tecnológico, a pessoa é igual."

Segundo Jatene, é preciso acreditar. "Diante da doença todo mundo fica aflito, angustiado, com medo. O oposto do medo não é a coragem, é a fé. As pessoas precisam acreditar. Isso é que faz com que as pessoas tenham força. E o Brasil está precisando de um pouco mais de otimismo."

Sem dinheiro não dá
O cardiologista acha que a área da saúde vai bem, está melhorando, mas admite que a falta de dinheiro compromete o resultado. "A saúde pública tem um enorme problema, que é financeiro. O esquema financeiro não funciona."

Para ele, o problema começou na década de 90, quando a previdência social deixou de investir em saúde. "Você se lembra que no passado toda a assistência hospitalar e ambulatorial era do Inamps, que chegou aplicar 25% do seu orçamento. Quando o serviço de saúde passou para o Ministério da Saúde, não passou com os recursos que a previdência destinava, porque nesta altura o número de aposentados tinha crescido muito. Em 93 tínhamos 3,5 milhões de aposentados; hoje temos quase 20 milhões. O serviço de atendimento médico, hospitalar e ambulatorial veio para o Ministério da Saúde, mas sem os recursos."

CPMF
"Então foi preciso criar a CPMF?", perguntou a jornalista. "Acho que a CPMF foi uma das coisas mais importantes já criadas, porque é a única forma de combater a sonegação. Quando eu estava discutindo a CPMF não era como um indicador, se falava que era um novo tributo. Acontece que quando tiraram os recursos da previdência, você ficou sem recurso para o sistema de saúde, era insuficiente, tanto que se dava R$ 2 para um consulta. Hoje, uma consulta com um especialista é R$ 7 e uma comum é R$ 3 e pouco."

Ele explicou que tinha quatro metas quando era ministro e criou a contribuição, que naquela altura pretendia ser provisória, como o próprio nome diz (Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras).

"1) revalorizar os procedimentos - uma consulta de R$ 2 e pouco, queria passar para R$ 10. Só aí eu precisava de R$ 3 bilhões; 2) trazer a malária aos níveis que tínhamos na década de 80, de 100 mil casos por ano; estávamos com 600 mil. Para isso, eu precisava organizar toda a entrada e saída do garimpo, que era uma coisa louca; 3) reduzir à metade a mortalidade infantil, que implicava numa ampliação grande no programa de saúde da família; 4) erradicação do Aedes Egypt (mosquito transmissor da dengue), que na época era possível."

Para atingir estas metas, explicou, precisaria de R$ 8 bilhões além do orçamento. "A CPMF deu mais que isso, só que quando foi aprovada, retiraram [a equipe econômica] das fontes que o Ministério tinha mais do que a CPMF arrecadou. Eu tinha a proposta de que meu orçamento seria mantido com as suas fontes, e naquele ano a inflação foi de 30%. Eu tinha R$ 15 bilhões e esperava mais R$ 8 bilhões. Então, no ano seguinte, precisava de R$ 15 bilhões mais 30%, que era a inflação do ano, mais R$ 8 bilhões. Mas as fontes foram retiradas." Lillian perguntou como ele se virou. "Eu fui embora [em 96]."

Segundo Adib Jatene, quando a CPMF foi regulamentada, se colocou um artigo proibindo a Receita de cruzar as informações para efeito de Imposto de Renda. "Foi preciso o Everardo Maciel comprovar que dos 100 maiores contribuintes da CPMF, 62 nunca haviam pagado o Imposto de Renda. Precisou demonstrar que tinha microempresa - que por definição não podia movimentar mais de R$ 120, R$ 150 mil por ano - que movimentava R$ 100 milhões por ano. O Congresso cedeu e o que aconteceu? Aconteceu que a arrecadação que era de R$ 6,5 bilhões por mês passou para R$ 20 bilhões, R$ 21 bilhões por mês. Esse era o número da sonegação que a CPMF corrigiu."

Voltaria à política?
"Não, e por uma razão: estou acostumado que quando eu combino alguma coisa, eu cumpro. E o que eu consegui verificar na política é que não há compromisso de se cumprir o que se combina. Aconteceu comigo. Então o meu papel é ajudar as pessoas que estão trabalhando e se mobilizando. E que estão organizando a sociedade, seja qual for o governo. Eu ajudo o ministro no que eu puder, seja ele qual for. Este é o meu papel."

E concluiu: "O governo não é o dono do país. O dono somos nós, o país é nosso. O governo é um empregado nosso e o que acontece é que você nem sempre coloca para cuidar das suas coisas as pessoas mais adequadas, mas isso, à medida que o tempo vai passando e novas eleições vão ocorrendo, melhora."

Prioridades
Questionado sobre o que faria se estivesse à frente do Ministério da Saúde, disse que o mais importante é ter consciência de que o governo, sozinho, não vai resolver as coisas. "Acho que o governo hoje não tem condição de resolver o problema do país. Quem tem condição é a elite econômica, intelectual e financeira. Essa elite precisa se engajar."

A jornalista perguntou se esse "engajamento" não seria uma transferência de ônus. "Não estou transferindo ônus nenhum. Se você dividir a população, você vê que a elite paga uma carga tributária muito alta. E por que paga? Porque tem recurso. A população que não tem recurso não paga nada."

"E a bi-tributação em áreas como saúde e segurança, por exemplo?", questionou Lillian Witte Fibe. "Não existe concentração de renda como a do Brasil. Quem concentra renda é o povo ou a elite? Se a elite tivesse tão supertributada, como iria concentrar a renda? País que tem carga tributária muito elevada, se você dividir a renda apropriada dos 10% mais ricos pelos 40% mais pobres, dá 1."

De qualquer forma, disse dr. Jatene, essa conscientização está começando. "A responsabilidade social nas empresas está crescendo muito, estão se formando grupos que se propõem a apresentar propostas ao Legislativo... A sociedade tem instrumentos para ajudar a resolver o problema do país, não só colocando recursos, mas ajudando a combater a corrupção, que também é parte. Precisamos acabar com isso, acabar com o cinismo."

Governos
Questionado se daria a mesma nota para os governos Lula e Fernando Henrique Cardoso na área da saúde, afirmou: "A saúde está estruturada. Tem uma participação enorme da sociedade e toda a estrutura está organizada, de maneira que o ministro não tem como modificar significativamente a estrutura." "A área está boa?", perguntou a âncora. "Está sub-financiada, esse é o único problema do sistema."

O efeito da tecnologia
Lillian Witte Fibe perguntou a ele o que se pode esperar da área da saúde no futuro, que está cada vez mais cara, mas, de outro lado, precisa do dinheiro para se modernizar.

"Eu digo que a tecnologia vai destruir o planeta, porque grande parte da tecnologia foi desenvolvida com finalidade militar. Hoje o potencial destrutivo armazenado em vários países dá para destruir vários planetas. A tecnologia da moeda mudou completamente o sistema financeiro internacional, que não depende de países e de decisões de países."

Além disso, explicou, tem a tecnologia da automação, "que é um desempregador estrutural para as pessoas que não têm qualificação". E ainda a tecnologia da informação da comunicação, "que é alucinante e que induz as pessoas a consumir com recursos que elas não têm, criando uma enorme frustração que, associada ao desemprego social, monta-se um cenário para a violência..."

Segundo o médico, o mundo precisa de uma liderança internacional capaz de resolver a equação. "E a liderança internacional é muito fraca."

Planos de saúde
O cardiologista também falou sobre os planos de saúde no Brasil. "O que o plano de saúde está arrecadando é, na média, R$ 1 mil, R$ 1,5 mil per capita ano. Isso aquele grupo de 30 milhões de pessoas que têm plano de saúde. Só que estas pessoas querem a tecnologia dos países que gastam, mas o dinheiro não dá."

Ele contou que os Estados Unidos, por exemplo, gastavam em 1995, de US$ 3,5 a US$ 4 mil per capita ano. Hoje, gasta US$ 6,5 mil per capita ano. "Países da Europa gastam US$ 1,8 mil per capita ano. Aqui no Brasil estamos gastando pouco mais de US$ 300 per capita ano e queremos usar toda a tecnologia desenvolvida lá fora. Não dá."

Questionado qual então seria a saída, disse que é racionalizar. "Um doente chega ao consultório e diz: 'pede todos os exames porque os planos pagam'. Só que o plano não agüenta pagar todos os exames. Isso tudo precisa ser organizado. Eu sempre digo que nada começa pronto. Estamos trabalhando para arrumar e vamos arrumar."

O médico afirmou que o Brasil está progredindo muito. "Veja que o SUS, com todas as suas limitações, cobre praticamente todos os transplantes de coração, faz mais de 80 mil operações de coração por ano, cobre a grande maioria dos transplantes de rim. É uma injustiça a acusação de que não se faz nada. Faz o que se pode."

Medicina de ponta
A jornalista perguntou a ele como o Brasil consegue ter medicina de ponta em áreas como cardiologia e oncologia, por exemplo, com tanta carência de recursos. "Essa é a coisa mais importante que temos, porque no passado eram os hospitais públicos e universitários que tinham toda a tecnologia e avanços; os privados eram menos importantes. A previdência arrecadava, não tinha aposentado e tinha dinheiro."

Porém, explicou, à medida que os hospitais foram sendo "sufocados" nos seus orçamentos e os planos de saúde foram financiando a rede privada, a rede privada foi melhorando e hoje a mais alta tecnologia está na área privada.

Para o ex-ministro, não é preciso sair do Brasil para ter um bom atendimento. "Acho que os hospitais de ponta de São Paulo, do Rio, de Pernambuco, Salvador estão no mesmo nível dos melhores hospitais do mundo." O problema, afirmou, é que só os que podem pagar têm acesso.

"Qual é a dificuldade? É que não dão acesso à população de baixa renda. Nosso problema é garantir acesso à população de baixa renda. Isso é que está criando a imagem de que a saúde não funciona."

"Podemos ter esperança?", perguntou Lillian Witte Fibe. "Esperança total. Só que precisamos diminuir a crítica. O brasileiro se satisfaz com a crítica. Digo sempre que quem não está com a responsabilidade de atender à necessidade é muito fácil. Precisamos buscar soluções criativas, e essas soluções estão pipocando em todo lugar. Algumas são do governo, outras são de empresas, de grupos de pessoas, ONGs. Todo mundo pode ajudar."

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