UOL Notícias Notícias
 

20/05/2002 - 14h54

Festival de performances inclui automutilação

Caroline Schafer

Sentada em uma sala que mais parecia a sala de espera de um hospital, com uma ficha na mão, esperando meu número ser chamado, eu estava experimentando o início da performance mais polêmica de um festival bastante controvertido.

O Fierce Festival ("Festival da Ferocidade", em inglês), na cidade britânica de Birmingham, reúne 15 artistas de todo o mundo que têm em comum o uso do corpo como objeto de arte. O festival provocou polêmica antes mesmo de ser aberto, especialmente pela performance do italiano Franko B., que mora em Londres.

Comigo, outras 18 pessoas estavam esperando para que um homem vestido de enfermeiro nos levasse, um a um, até outra sala para passar três minutos com Franko B., sozinhos.

Ajoelhado e nu, com o corpo pintado de branco, Franko B. recebeu a platéia com uma redoma em volta da cabeça, daquelas usadas por cachorros, para evitar que cocem suas feridas. Na altura do estômago, há um corte sangrando.

Desconforto


Cada visitante teve três minutos com Franko B. Desconfortável é a palavra mais usada pelos espectadores para descrever a performance.

Um deles, Steve Palmer, disse que ficou bem nervoso e não sabia o que esperar. "Quando a porta abriu e eu vi o artista coberto de tinta e sangue, foi um choque", disse ele.

Mas quando conversou um pouco com Franko B., ficou mais à vontade.

O próprio Franko B. diz que sua performance, intitulada Aktion 398, é como uma escultura em uma galeria, mas uma escultura viva.

"Meu trabalho tem como base levantar questões, mais do que encontrar respostas", disse à BBC Brasil.

"Espero que as pessoas saiam das minhas performances pensando nas feridas invisíveis que cada um leva consigo", afirmou.

Controvérsia

Trabalhos como o dele e o do japonês Tadusa Takamine, que mostra em vídeo um deficiente físico sendo masturbado, geraram muitas críticas entre o público do festival.

Não só pela natureza das performances, mas também porque o evento é financiado com dinheiro público.

Deidre Alden, uma vereadora do Partido Conservador, se disse surpresa com o fato de ter gente querendo pagar para ver as performances, que ela considera "doentias".

"Para mim, nada disso é arte. Ir para um palco para se cortar e sangrar não é o que eu chamo de divertimento", afirmou Aldren à BBC Brasil. "Fico supresa com o fato de haver gente que pague por isso."

Segundo ela, cada centavo tirado dos cofres públicos é demais para financiar o evento.

O curador do Fierce Festival, Mark Ball, discorda. Para ele, existe um público ávido para ver trabalhos diferentes.

"A arte tem a obrigação de provocar o debate e os artistas não querem chocar", disse Ball. "Pelo contrário, os trabalhos levantam a questão sobre a posse do próprio corpo que, para mim, precisa ser debatida."

Brasileiro

Outra das atrações do festival é o brasileiro Michel Groisman, que participa com duas performances.

Em Transferência, Michel transfere a chama de uma vela para outra, através do lento movimento de seu corpo. Já Polvo é um jogo de cartas no qual os jogadores - que são o público - usam seus próprios corpos.

Na opinião de Groisman, a polêmica não faz necessariamemte parte da arte performática de hoje.

"Acho que o escândalo faz parte de cada pessoa, se ela quiser ser escandalizada", disse à BBC Brasil. "O escândalo é decorrente de uma incapacidade do público de estabelecer algum distanciamento."

Os organizadores do Fierce Festival sabem que a polêmica atrai público. Mas garantem que o objetivo do evento é explorar a identidade social e sexual das pessoas.

O Fierce Festival acaba no dia 9 de junho.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,52
    3,318
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,82
    61.675,46
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host