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12/08/2002 - 06h30

Especial: Para analista, papel do Estado é 'criar' ciência

Rodrigo Amaral

O economista Vernon Ruttan é um especialista em políticas de fomento à ciência e à tecnologia da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, e um defensor do papel do Estado nesse processo.

Ele vem desenvolvendo pesquisas que mostram que o papel do governo americano foi fundamental para o desenvolvimento de pesquisas científicas que posteriormente deram vantagens tecnológicas a empresas do país em áreas como biotecnologia e informática.

Para os países em desenvolvimento, afirma Ruttan, existe o dilema entre investir em pesquisas científicas ou na transferência de tecnologias. No primeiro caso, na opinião do economista americano, o papel do Estado é fundamental.

Se a opção for importar tecnologia, por meio da atração de empresas estrangeiras ou pela compra de empresas de alta tecnologia no exterior, Ruttan recomenda conceder incentivos ao setor privado. Leia abaixo trechos de entrevista à BBC Brasil:

BBC Brasil - Qual deve ser o papel do Estado no desenvolvimento da ciência e da tecnologia de um país?

Vernon Ruttan - Depende do setor industrial de que estamos falando. Por exemplo, a biotecnologia. Esta é uma área em que os cientistas reponsáveis pelo desenvolvimento dessa ciência quase que instantaneamente se tornaram empresários. A ciência está tão próxima de suas aplicações práticas que, se o governo não tivesse apoiado as pesquisas básicas nesta área, não haveria hoje uma indústria biotecnológica nos Estados Unidos.

BBC Brasil - Se isso é verdade para os Estados Unidos, deve ser também para países em desenvolvimento como o Brasil...

Ruttan - Na verdade, há diferenças. O Brasil precisa se perguntar se possui conhecimento científico suficiente para criar tecnologia por si mesmo. Em caso negativo, precisa investir em transferência de tecnologias. Eu acho que o Brasil, assim como a China e a Índia, possui considerável capacidade científica. Portanto, não precisa depender de transferência de tecnologias - algo que o setor privado consegue realizar muito bem, se houver incentivos.

BBC Brasil - Mas, se o país possui uma base científica avançada em algumas áreas, como o sr. diz ser o caso do Brasil, qual deve ser o papel do Estado?

Ruttan - O que já o Brasil já fazendo na agricultura, por exemplo. O caso da Embrapa é extremamente bem-sucedido. Não se procura apenas usar tecnologias criadas em outros lugares, mas desenvolver uma ciência própria. A tecnologia para agricultura no cerrado depende de pesquisas realizadas no próprio país para solucionar problemas como a forma de lidar com a acidez dos solos do cerrado. Nesse caso, o Brasil não teria como ter emprestado tecnologia de outro país.

BBC Brasil - Mas países em desenvolvimento têm sérios problemas sociais e sempre existe um dilema na hora de destinar recursos públicos para a ciência e a tecnologia. Mesmo assim, esse investimento deve ser feito?

Ruttan - Vistos em perspectiva, os gastos em ciência e tecnologia não correspondem a uma grande parcela dos gastos públicos. O que o Brasil não deve fazer, na minha opinião, é simplesmente dar o dinheiro para os cientistas. Nos Estados Unidos, existe uma mentalidade em que os cientistas dizem ao governo: "Dê-nos dinheiro para fazer boas pesquisas, e coisas boas vão acontecer". Bem, isso não é o ideal. Alguns países precisam escolher áreas que possuem potencial para ajudar em seu desenvolvimento.

BBC Brasil - O investimento deve ser então mais direcionado. É o caso dos países do Leste Asiático, por exemplo?

Ruttan - Exato. Veja o caso do Japão. Nos anos 1960, o governo japonês decidiu que precisava desenvolver a indústria de informática e fez grandes investimentos para diminuir a distância que o separava dos Estados Unidos nesta área. Mas, com o passar do tempo, a indústria se sofisticou, se tornou mais complexa, e o governo não precisou mais manter um envolvimento tão grande. Assim que a tecnologia é internalizada, e o país possui capacidade científica estabelecida, o papel do Estado pode se limitar à regulamentação e à fiscalização. Mas é importante lembrar que não existe uma regra que vale para todas as indústrias. Além disso, é preciso tomar decisões nesta área com base em informações científicas e não por motivos políticos.

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