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28/03/2007 - 13h30

Imigração já levou mais africanos aos EUA que escravidão

Pablo Uchoa

De Londres
Em apenas 40 anos, mais negros africanos entraram nos Estados Unidos que durante 260 anos em que vigorou o tráfico negreiro, segundo um estudo do Centro Schomburg para Pesquisas em Cultura Negra, da Biblioteca Pública de Nova York.

A "nova diáspora africana", nas palavras da pesquisadora do centro Sylviane Diouf, autora de um estudo sobre o tema, é posta em marcha pela imigração, não mais por navios negreiros.

Entre 1600 e 1860, ano em que se registrou a chegada do último carregamento de escravos, esse comércio transatlântico envolveu 500 mil homens, mulheres e crianças africanos - um fluxo relativamente baixo, considerando que cerca de 12 milhões aportaram nas Américas ou na Europa durante o período colonial.

As recentes ondas migratórias fizeram o panorama mudar nos Estados Unidos: segundo o último censo, de 2000, cerca de 700 mil africanos vivem no país. Metade deles entrou a partir da década de 1990, indicou o estudo.

Até 1965, a imigração de não-brancos era fortemente restrita por lei, segundo o estudo do centro Schomburg. Muito poucos imigrantes da África subsaariana, por exemplo, foram admitidos no país antes do chamado Immigration Act de 1965.

Nova cara

A cara da nova leva de africanos, no entanto, poderia ser a de um pós-graduando, um médico, ou até um prêmio Nobel, como o nigeriano Wole Soyinka, que venceu na categoria Literatura em 1986.

Soyinka, cujas peças, romances e poesias são ensinadas em diversas instituições dos Estados Unidos, deu aulas na Universidade de Emory, em Atlanta.

Segundo os números do Centro Schomburg, mais de 1,8 mil acadêmicos da África subsaariana conduzem estudos em universidades americanas. A maioria vem de países de língua inglesa, mas 14% são de países francófonos, como camaroneses, senegaleses e marfinenses.

Em seu estudo, Sylviane Diouf afirma que a "principal característica" dos africanos que imigraram para os Estados Unidos na última geração é que "eles são o grupo mais qualificado da nação".

Metade tem pelo menos diploma de nível superior. Nada menos que 98% concluíram a educação secundária.

O estudo alerta, no entanto, que este fenômeno tem seu lado nebuloso do outro do Atlântico: a chamada fuga de cérebros, ou a perda de capital humano por países cujos cidadãos emigram em massa.

'Brain drain'

Desde os anos 1990, cerca de 20 mil intelectuais africanos deixam o continente anualmente para viver nas regiões mais desenvolvidas do globo, estimam a ONU e a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Três de cada cinco médicos formados em Gana durante os anos 1980 deixaram o país, assim como metade dos assistentes sociais formados no Zimbábue, segundo as estimativas.

Os dados levantam a discussão de quem paga a conta pela formação desses profissionais. A própria ONU afirma que a idéia de compensações é bem recebida entre os países ricos.

As saídas sugeridas incluem mecanismos de ajuda financeira e cooperação educacional para que países menos desenvolvidos não tenham de arcar com os custos, e os ricos, com o benefício.

O especialista em migrações Marcelo Suárez-Orozco, da Universidade de Nova York, destaca uma outra dinâmica importante nas migrações africanas para os Estados Unidos.

Embora a primeira geração de africanos que chega ao país seja extremamente bem-sucedida, as gerações subseqüentes já nascem sob a acentuada tensão racial da sociedade local.

Há um paradoxo na assimilação dos imigrantes africanos. A primeira geração normalmente mais bem-sucedida que a segunda ou a terceira.

Assimilação

Há, no entanto, exemplos de que esta regra não é estática. O mais recente é o do senador Barack Obama, pré-candidato democrata à Casa Branca.

Filho de pai queniano - também chamado Barack - e mãe americana, ele foi o quinto afro-americano a ocupar uma cadeira no Senado. Os dois Barack estudaram em Harvard.

Em uma convenção democrata em 2004, o atual pré-candidato agradeceu "a diversidade de minha herança", e disse estar "ciente de que os sonhos dos meus pais permanecem vivos em minhas preciosas filhas".

Hoje, cerca de 35 milhões de cidadãos se consideram afro-americanos.

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