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23/04/2007 - 16h45

Analistas vêem endurecimento tático do Brasil com Bolívia

Denize Bacoccina
De Brasília
Analistas vêem um endurecimento tático na relação do Brasil com a Bolívia, fruto da percepção, segundo eles, de que a política "generosa" do governo brasileiro não era mútua em relação ao governo boliviano.

"O Brasil não pode ficar refém dos seus vizinhos", diz o historiador Flavio Sombra Saraiva, professor da Universidade de Brasília (UnB) e coordenador do Instituto de Relações Internacionais (Ibri), que considera que houve "uma elevação no tom" do governo em relação ao país vizinho.

Mas ele não vê essa atitude como um afastamento definitivo da Bolívia.
"A mudança é tática, não estratégica", avalia.

O sinal mais claro desse endurecimento é a conversa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o presidente boliviano Evo Morales, na reunião da Cúpula Energética Sul-americana, na Venezuela, na semana passada.

Lula, segundo relato do chanceler Celso Amorim, "foi firme" e disse a Morales que investimentos futuros dependem do cumprimento dos contratos atuais do país com a Petrobras.

Queda-de-braço
O assessor para Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, que vinha defendendo uma postura mais compreensiva do governo brasileiro em relação às dificuldades enfrentadas internamente por Morales, também mudou o discurso, na avaliação do historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, professor de História Moderna e Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ele disse que havia uma queda-de-braço entre Garcia e o grupo que já defendia uma posição mais dura na relação com a Bolívia há mais tempo, que inclui o Itamaraty e a própria Petrobras.

A Petrobras, diz ele, sempre tentou imprimir uma postura empresarial - e não política - na negociação do preço do gás e das refinarias.

Mas a negociação do reajuste do gás importado pela Petrobras foi feita com a intermediação do Planalto, e não apenas com grupos técnicos, durante a visita de Morales a Brasília, em fevereiro.

No ano passado, quando o governo boliviano anunciou o confisco de refinarias da Petrobras, o presidente Lula disse que a Bolívia é "um país muito pobre e precisa da ajuda do Brasil", depois de negociar a suspensão da medida.

Na Cúpula Energética, na Venezuela, no início da semana, Garcia disse que o Brasil se negava "a comer o prato feito" do Banco do Sul, projeto impulsionado pelo Equador e pela Venezuela, e que nunca encontrou muito entusiasmo no governo brasileiro.

Para Teixeira da Silva, a declaração sintetiza a nova postura brasileira nos assuntos regionais.

Teixeira da Silva diz que Garcia sofreu uma derrota, mas encampou a tese vencedora e foi seu porta-voz na reunião da Venezuela.

"Ele perdeu, mas perdeu com elegância. Foi uma 'queda para o alto'", afirmou.

A duração do maior distanciamento entre Brasil e Bolívia, na avaliação dele, vai depender da atitude de Morales.

"Se Morales assumir uma postura mais razoável, não permitir que o Brasil seja utilizado cada vez que tiver uma crise interna no país, isso pode ser contornável. Senão, a crise se aprofunda", afirma.

Saraiva não vê uma divisão entre os formuladores de política externa brasileira, mas um discurso único, que mudou nos últimos meses em direção a uma postura menos tolerante.

A mudança, na avaliação dele, está relacionada à aproximação do Brasil com os Estados Unidos, que deu uma nova dimensão à relação com os vizinhos.

"Não é se afastar dos vizinhos, mas dar a eles sua devida proporção", diz ele.

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