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23/04/2007 - 16h49

Historiador vê Brasil e Bolívia caminhando para "divórcio"

Denize Bacoccina
De Brasília
O historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, professor de História Moderna e Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que Brasil e Bolívia estão num processo de "divórcio", que pode se concretizar nos próximos três a cinco anos, quando os dois países conseguirem reduzir a dependência mútua que os une atualmente.

"Ambos estão numa corrida: a Bolívia para buscar novos parceiros", diz Teixeira da Silva, que em fevereiro passou cinco semanas viajando pelo país, estudando os movimentos sociais.

A Bolívia, diz ele, está se aproximando mais da China, enquanto o Brasil está buscando alternativas ao gás que importa da Bolívia.

Ele também acha que o Brasil vem sendo usado por Morales para unificar sua fragmentada base de apoio.

"Evo Morales tenta fazer com o Brasil o que (o presidente venezuelano Hugo) Chávez faz com os Estados Unidos", diz Teixeira da Silva.

Confira abaixo a entrevista de Francisco Carlos Teixeira da Silva à BBC Brasil.

BBC Brasil - Como o senhor vê esta mudança de postura do governo brasileiro em relação à Bolívia, dizendo que não vai aceitar as condições do governo boliviano na nacionalização das refinarias?

Francisco Carlos Teixeira da Silva - O governo brasileiro estabeleceu a linha vermelha nas relações com a Bolívia. E está dizendo muito claramente que o Brasil não aceita ser transformado em um elemento de unificação do movimento social boliviano. O Brasil entendeu isso desta vez.

Toda vez que Evo vê que está perdendo espaço internamente, especialmente com questões como a constituinte, política econômica, ele acaba puxando para a questão externa. E como não pega mais a crítica aos Estados Unidos, porque os interesses americanos na Bolívia são muito reduzidos, então bater no Brasil unifica os movimentos sociais com Evo.

Não é um abandono da política de integração sul-americana, mas o governo está dizendo que o Brasil não vai ser um saco de pancadas para unificar o movimento social boliviano.

BBC Brasil - O Brasil então é utilizado como o inimigo imperialista pelo presidente Evo Morales?

Teixeira da Silva - Ele é utilizado várias vezes neste sentido. Evo Morales tenta fazer com o Brasil o que Chávez faz com os Estados Unidos.

BBC Brasil - E o Brasil é visto assim pela população?

Teixeira da Silva - Não, não é. Fora algumas manifestações em La Paz, muito esporádicas, existe simpatia. Mas se a gente não der um basta nisso agora, pode ser que daqui a dois ou três anos tenhamos os mesmos problemas dos americanos (com a Venezuela).

Ou seja, isso não é natural, não vem do povo boliviano, não vem nem mesmo dos movimentos sociais bolivianos. Está sendo um instrumental do governo Evo Morales.

BBC Brasil - O senhor passou cinco semanas na Bolívia em fevereiro para fazer um documentário. Desde então a situação está mais acirrada?

Teixeira da Silva - Está, sem dúvida. Eu tenho ido cerca de quatro vezes por ano à Bolívia nos últimos cinco anos e nunca tinha visto uma polarização tão grande.

Particularmente fiquei muito preocupado com a situação em Santa Cruz de la Sierra. O movimento autonomista é muito forte. E a recusa das autoridades de La Paz em conceder um mínimo de autonomia às províncias, especialmente a Santa Cruz, prenuncia uma crise de grandes proporções.

BBC Brasil - E que poderia levar à queda do presidente Evo Morales?

Teixeira da Silva - Eu não sei, eu acho que no limite pode levar até a uma guerra civil. Porque a proposta de autonomia que Santa Cruz e outras províncias querem está inclusive aquém do sistema federativo do Brasil. Se fosse aplicada à Bolívia a Constituição do Brasil de 1988, os bolivianos ficariam felicíssimos. Mas quando o governo de La Paz recusa isso, aí sim acirra as possibilidades separatistas.

BBC Brasil - E se o Brasil assumir uma posição mais dura, ele pode piorar a situação do governo boliviano?

Teixeira da Silva - Pode. Porque após as ameaças feitas pelo presidente Lula - e foram ameaças - os comentários em geral no Itamaraty e no Planalto são de que nunca em outra situação Lula foi tão ríspido com uma autoridade de outro país estrangeiro.

Ele ameaçou cortar investimentos, ir aos tribunais internacionais, desaconselhar investimentos de outros países na Bolívia e exigir o visto de permanência dos bolivianos no Brasil.

Isso realmente teria um impacto grande na Bolívia. A Bolívia, por sua vez, está trabalhando muito rapidamente para tornar a presença da economia brasileira menos importante. Está fazendo acordos com a China, que está interessada na construção de um terminal no porto de Piúra, no Peru, para levar gás boliviano.

Neste sentido, a Bolívia teria um novo parceiro. Então ambos estão numa corrida: a Bolívia para buscar novos parceiros e minimizar a importância do Brasil e o Brasil também - por exemplo com acordos com a Argélia para compra de gás liquefeito, o programa de etanol e a descoberta deste imenso lençol de gás na bacia de Campos. Ambos estão tentando realizar em um prazo de três ou, no máximo, cinco anos, um divórcio neste sentido.

BBC Brasil - Então este discurso de integração na prática não está se realizando?

Teixeira da Silva - Uma integração energética, neste momento eu não vejo a menor condição. Está caminhando para uma separação. Acho que pela primeira vez, desde a política de boa vizinhança entre Brasil e Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial, o Brasil tem na mesa uma oferta de aliança estratégica com os Estados Unidos.

E esta aliança estratégica equivale, em termos de recursos econômicos e de prestígio, ao Mercosul. Pela primeira vez, o Brasil tem uma opção de escolha entre o Mercosul ou uma aliança estratégica com os Estados Unidos.

BBC Brasil - E o senhor vê o Brasil caminhando para escolher a aliança com os Estados Unidos?

Teixeira da Silva - Não, não vejo. Porque o Itamaraty, especialmente o secretário-geral Samuel Pinheiro Guimarães, insiste na idéia de que o Brasil só será um global player se futuramente tiver a liderança do seu entorno político.

Então o Mercosul é ainda uma pauta importantíssima para o governo brasileiro. Mas se nós caminharmos para uma crise com a Bolívia e, conseqüentemente, com a Venezuela, e se continuar esta aliança estratégica entre Kirchner e Chávez, é possível que o Brasil tenha uma alternativa bastante razoável.

BBC Brasil - E o Brasil então abriria mão de tentar apagar todas as fogueiras e de ficar bem com todo mundo na região?

Teixeira da Silva - E isso terminaria por transformar o Mercosul possivelmente numa zona de livre comércio muito frouxa, sem grandes instituições, e faria com que o processo de construção institucional do Mercosul cessasse e nós procurássemos acordos mais importantes, por exemplo, com os Estados Unidos e depois com a União Européia, com a Rússia e com o Japão.

BBC Brasil - Nesta Cúpula Energética Sul-americana, na Venezuela, o Brasil conseguiu evitar maiores danos, mas não houve um avanço no processo de integração, houve?

Teixeira da Silva - Não houve nenhum avanço neste sentido. O Brasil não aceitou a Opep do gás, o Brasil não aceitou o Banco do Sul, o Brasil não aceitou a política de manutenção de matriz fóssil, insistiu na matriz alternativa. Não houve nada que fosse um passo à frente.

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