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26/04/2007 - 21h42

Análise: Disputa EUA-Rússia reproduz ecos da Guerra Fria

Paul Reynolds
A hostilidade russa ao plano americano de instalar um sistema antimísseis na Polônia e na República Tcheca é uma indicação de um desconforto mais amplo nas relações entre Washington e Moscou.

A questão também ameaça ter reflexos em outras áreas referentes ao controle de armas, com a Rússia ameaçando se retirar do tratado assinado com os Estados Unidos em 1987 que baniu mísseis nucleares de distância intermediária.

Isso mostra que o esforço americano para resolver um problema - a ameaça potencial aos Estados Unidos de uma nova geração de mísseis de países como a Coréia do Norte e o Irã - está produzindo uma nova leva de dificuldades diplomáticas.

Outra conclusão - refletida em outras arenas, como a econômica - é que problemas que poderiam ter sido resolvidos, e, em certos casos, foram resolvidos na euforia pós-Guerra Fria, agora estão produzindo ecos da própria Guerra Fria.

Vinculação
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, em seu discurso anual ao Parlamento nesta quinta-feira, ampliou as críticas russas ao Ocidente na área da defesa ao declarar que a Rússia está suspendendo por ora, e pode abandonar de vez, seus compromissos no Tratado de Armas Convencionais.

O tratado, originalmente assinado em 1990, foi modificado em 1999 para levar em conta as mudanças posteriores à desintegração da União Soviética.

A Rússia ratificou a versão modificada do acordo, mas os Estados Unidos e outros países da Otan estão vinculando a ratificação a uma retirada das forças russas que estão na Moldávia e na Geórgia. A Rússia não aceita que uma coisa esteja ligada à outra.

Essa vinculação, no estilo Guerra Fria, está de volta ao arsenal diplomático.

Esforço diplomático
Em um esforço para aparar as arestas com Moscou, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, viajou a Moscou na segunda-feira para o que aparentemente foi uma rodada fracassada de entendimentos com Putin.

Nesta mesma semana, os ministros do Exterior dos países da Otan vão ter um encontro com o ministro do Exterior da Rússia, Sergei Lavrov.

Os americanos esperam que a Otan apóie a instalação de um radar e de dez foguetes interceptadores, respectivamente na República Tcheca e na Polônia. Mas se a Otan não chegar a um acordo sobre essa proposta, a questão passará a ser tratada de forma bilateral entre os Estados Unidos e os dois países.

O sistema é projetado para interceptar mísseis que voarem sobre a Europa a caminho dos Estados Unidos ou que tenham como alvo algum país europeu.

É assim que o vice-secretário de Defesa americano, Gordon England, descreveu o sistema, proposto em março:

"Esta instalação européia é para ampliar a defesa de nossa pátria e defender nossas forças em locais avançados e seus aliados, especialmente contra ameaças emergentes do Irã e do Oriente Médio."

"Infelizmente, alguns líderes da Federação Russa mostraram alguma relutância - em uma linguagem notavelmente estridente. Os Estados Unidos foram - e continuarão sendo - transparentes com Moscou no tocante a planos de defesa antimíssil."

"Os fatos devem falar por si: os sistemas não são projetados para neutralizar - eles não são capazes de neutralizar - o arsenal de mísseis da Rússia, e, além disso, eles não incluem capacidades ofensivas", completou.

Para tentar satisfazer os russos, os americanos ofereceram o que England chamou de "medidas de defesa, cooperação e de construção de confiança" ampliadas, "como o compartilhamento de dados de radar e testes conjuntos de sistema de defesa antimísseis".

Até agora, pelo menos, isso não foi suficiente para a Rússia. Ainda que tecnicamente os dez mísseis na Polônia não possam ter qualquer efeito sobre foguetes russos, Moscou vê o plano americano não apenas como mais a instalação de mais um sistema associado à Otan em seu quintal, mas como outra manifestação do expansionismo americano.

"Uso descontrolado da força"
A postura russa pode ser resumida em um duro discurso de Putin em uma conferência que fez em Munique em fevereiro, na presença de Robert Gates.

"Hoje, nós estamos testemunhando um uso quase descontrolado de força - força militar - nas relações internacionais, força que está lançando o mundo no abismo dos conflitos permanentes", disse o presidente russo.

"Nós estamos vendo um desdém cada vez maior com os princípios básicos da lei internacional. E as normas legais independentes estão, na verdade, se aproximando cada vez mais das do sistema legal de um Estado. Um Estado e, obviamente, em primeiro lugar e acima de tudo os Estados Unidos, ultrapassou suas fronteiras nacionais de todas as formas."

"Isso é visível nas políticas econômicas, políticas, culturais e educacionais que impõem a outras nações. Bem, quem gosta disso? Quem está contente com isso?"

Putin tomou cuidado em dizer que a Rússia irá honrar seus compromissos nos tratados de armas estratégicas, o mais importante dos quais limita a Rússia e os Estados Unidos a entre 1,7 mil e 2,2 mil ogivas até o ano 2012.

Porém, ele indicou que a Rússia não está feliz com as restrições impostas ao tratado de mísseis de média distância.

"Hoje, muitos outros países têm esses mísseis, incluindo Coréia do Norte, Índia, Irã, Paquistão e Israel. Muitos países estão trabalhando nesses sistemas e planejam incorporá-los a seus arsenais. E apenas os Estados Unidos e a Rússia têm a responsabilidade de não criar tais sistemas bélicos."

"É óbvio que, nessas condições, nós precisamos pensar em garantir nossa própria segurança."

Autoridades russas sugeriram que, se os Estados Unidos conseguiram implantar seu sistema antimísseis na Europa Oriental, então a Rússia vai se retirar do tratado de mísseis nucleares de média distância.

Isso parece - para os Estados Unidos e para a Otan -uma desculpa, e não uma razão.

Mas tal conclusão é parte de uma nova realidade nas relações internacionais.

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