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13/05/2007 - 15h11

Papa, violência e o metrô de São Paulo na visão de um repórter inglês

Correspodente em Roma há 36 anos e biógrafo de João Paulo 2º, o repórter David Willey está escrevendo um diário sobre a visita do papa Bento 16 ao Brasil para o site de notícias da BBC em inglês.

A indústria das pílulas de Frei Galvão, a violência brasileira, o apelo do papa aos traficantes e o metrô de São Paulo de São Paulo foram alguns dos personagens de sua crônica de sábado.

Leia a íntegra abaixo.

O papa Bento 16 foi de São Paulo para o santuário de Aparecida. Mas eu decidi ficar atrás, na maior cidade do Brasil e da América Latina, para medir a reação à sua visita.

Voltei ao Monastério da Luz, que eu já tinha visitado nesta semana, e encontrei longas filas de fiéis esperando para receber as "pílulas" milagrosas inventadas há 200 anos pelo recém-declarado santo brasileiro, Frei Antônio Galvão.

Freiras enclausuradas estão fazendo horas-extras no convento anexo produzindo dezenas de milhares de papelotes, cada um deles com uma oração impressa.

Muitos acreditam que os papelotes ofereçam curas milagrosas para uma variedade de doenças.

A procura pelas pílulas dobrou desde a canonização de Frei Galvão, segundo um funcionário da Igreja.

Depois, eu viajei no rápido e eficiente metrô de São Paulo para outro monatério, o de São Bento, construído há cem anos no centro da cidade.

Foi a morada do papa durante dois dias de sua estada aqui.

Eu tive de trocar de trem em uma estação chamada Paraíso.

Não pude deixar de notar os nomes de algumas estações de metrô: Paraíso, Luz, Saúde e Liberdade.

O metrô reflete as aspirações dos paulistas - como os habitantes de São Paulo se chamam orgulhosamente - no século 21.

No Largo de São Bento, centenas de famílias com crianças tiram fotos debaixo da estrutura de vidro à prova de balas construída especialmente para proteger o papa.

As autoridades não correram riscos. Bento 16 teria sido um alvo fácil para um franco-atirador.

Ele apareceu várias vezes no balcão com vista para o largo para abençoar a multidão que fez vigília desde sua chegada.

O papa Bento 16 também visitou a Fazenda da Esperança, um centro de tratamento contra drogas.

Então, eu me lembrei de que neste sábado foi o primeiro aniversário do pior surto de violência na história moderna de São Paulo.

Em 12 de maio de 2006, houve 259 ataques coordenados por gangues de criminosos contra postos policiais, ônibus e prédios públicos em São Paulo.

Simultaneamente, houve rebeliões em 20 das superpovoadas cadeias da cidade, organizadas por criminosos usando celulares atrás das grades.

As autoridades, aparentemente, deixaram de monitorar e controlar as ligações clandestinas dos chefes das gangues de traficantes.

O caos durou dias. No final, a cidade contou mais de 150 mortos, incluIndo policiais, criminosos e pedestres inocentes, pegos no meio do selvagem fogo cruzado.

Praticamente todas as noites na TV nesta semana eu vi relatos de tiroteios, assaltos à mão armada e assassinatos. A última contabilidade indicava 26 mortes.

A razão da violência é a guerra não-declarada entre polícia e gangues de traficantes que transportam cocaína contrabandeada pela fronteira - porosa e virtualmente "impoliciável" - entre o Brasil e os vizinhos Peru e Colômbia.

Em um centro de reabilitação de viciados administrado por monges franciscanos perto de Aparecida, o pontífice advertiu traficantes de que eles enfrentarão a justiça divina pelo flagelo das drogas na América Latina.

"Deus vai lhes exigir satisfações", disse no sábado.

Traficantes devem refletir sobre o grave mal que estão inflingindo em incontáveis jovens e adultos de todos os níveis sociais, disse Bento 16.

"A dignidade humana não pode ser pisoteada dessa forma", acrescentou.
O Brasil tem o segundo maior mercado consumidor de cocaína, depois dos Estados Unidos.

A violência associada às drogas é um grande problema. Gangues controlam o comércio nas esquinas e o tráfico para a Europa e para os Estados Unidos.

Na favelas do Rio de Janeiro, elas recrutam crianças e se envolvem quase diariamente em tiroteios com outras gangues e com a polícia, muitas vezes matando inocentes.

Mas é de duvidar que a mensagem do papa aos traficantes tenha algum impacto.

"O que o papa disse para os traficantes é importante, mas eles não se importam com religião", disse a repórteres Felipe Kenji, 27, em tratamento na Fazenda da Esperança desde dezembro.

"Eles só vão parar de vender drogas quando morrerem."

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