UOL Notícias Notícias
 

06/06/2007 - 15h31

Quase 60% dos gays de São Paulo já sofreram agressão, diz pesquisa

Carolina Glycerio
de São Paulo
Cerca de 59% dos homossexuais que freqüentam a Parada Gay em São Paulo já sofreram algum tipo de agressão pela sua orientação sexual, indica uma pesquisa encomendada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), que será divulgada nesta quarta-feira.

Contratado pela Secretaria, o Instituto Criterium entrevistou 846 pessoas que participaram do evento no ano passado. Também foram feitas 1.373 entrevistas em Manaus, Porto Alegre e Natal.

Mais da metade dos casos relatados em São Paulo são de agressões verbais e ameaças de agressão física, indica o levantamento.

Embora os dados das outras três cidades ainda não tenham sido sistematizados, a Secretaria adianta que os resultados são semelhantes aos de São Paulo.

"Outra constatação é que no geral as vítimas de discriminação, preconceito e agressão não têm percebido nenhum encaminhamento concreto", afirma o diretor do Grupo Gay de Alagoas, Marcelo Nascimento, que apresentou, em Brasília, os resultados da pesquisa nas quatro cidades a 300 profissionais que trabalham no combate à homofobia.

Por outro lado, a assessoria de Comunicação da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, diz que nem sempre as vítimas de ataques homofóbicos denunciam os crimes.

A vice-presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, Regina Facchini, diz que o levantamento confirma que o público que sofre violência é muito maior do que o que denuncia.

"Muita gente tem vergonha de dizer que apanhou porque é gay. Elas também têm medo de ser destratadas novamente", diz Facchini.

Os 59% dos 846 entrevistados que dizem ter sofrido algum tipo de agressão "devido à sua sexualidade" relataram casos de agressão verbal e ameaça de violência física, agressão física, chantagem ou extorsão, violência sexual e o golpe do remédio "Boa Noite, Cinderela".

Quando a pesquisa incluiu todo tipo de discriminação, esse número subiu para 67% (em São Paulo).

O combate à homofobia será tema de campanha da 11ª Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, que tem como tema "Um Mundo Sem Racismo, Machismo e Homofobia". A organização da parada espera que 3 milhões de pessoas participem do evento, neste domingo, na avenida Paulista.

Homicídios

Embora não haja dados oficiais sobre assassinatos de homossexuais e transexuais, um levantamento do Grupo Gay da Bahia indica que 51 homossexuais foram mortos no país apenas entre janeiro e abril.

Segundo a entidade baiana, projetando-se este número para o resto do ano, 2007 deve superar o ano passado, quando 88 homossexuais foram mortos.

Marcelo Cerqueira, presidente do GGB, ressalta que os dados são "incompletos" porque são baseados em notícias de jornais e informações enviadas à ONG.

O jornalista André Fisher, diretor do site Mix Brasil, observa também que o levantamento do GGB não discrimina assassinatos comuns dos homofóbicos.

"No caso de um latrocínio, não dá para saber se o cara foi morto porque, sem querer, colocou um assaltante dentro de casa, ou se foi morto pelo fato de ser gay", diz Fisher.

'Desejo Marginal'

O sociólogo Antonio Celso Spagnol, autor do livro Desejo Marginal, que analisa três casos de assassinatos de homossexuais, diz que a forma violenta de matar é uma das marcas do crime homofóbico.

"Casos de extrema violência são típicos. Às vezes vejo no jornal 'sujeito morreu com 20 facadas, teve o crânio esmagado, ninguém sabe quem foi'. É praticamente certo que seja homossexual, pela extrema violência que o sujeito causa no outro", diz Spagnol, do Núcleo dos Estudos da Violência (NEV) da USP.

Os dados reunidos pelo GGB confirmam a observação do sociólogo. A maioria das mortes registradas até abril revela assassinatos por facadas, estrangulamento, decapitação, entre outros métodos brutais.

"Não se trata somente de matar o outro, se trata de destruir o corpo do outro porque a relação é com ele mesmo. É destruir aquilo que o outro personifica para destruir o que está dentro de mim", afirma Spagnol, que acaba de rever a edição de 2001 para nova publicação neste ano.

Embora os números variem para baixo nos últimos três anos, o estudioso acredita que a variação tenha mais a ver com a inconsistência dos dados do que com uma real flutuação no número de crimes.

"A violência não acabou, mas não está aumentando. É chocante, mas comparado com anos anteriores, é mais ou menos a mesma coisa - dois homossexuais por semana."

Fisher, como outros líderes do movimento, defende a criminalização da homofobia para coagir os ataques.

"É importante que você explicite a discriminação contra a orientação sexual como um crime igual ao racismo."

O projeto de lei 5003/01, que criminaliza a homofobia, já foi aprovado na Câmara dos Deputados e está agora na Comissão de Direitos Humanos do Senado.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,68
    3,129
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,71
    64.308,39
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host