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23/08/2007 - 07h19

Crise nos mercados: 'Pior ainda está por vir', alertam analistas

Adriana Stock

De Nova York
A atual crise de crédito nos Estados Unidos, que tem se alastrado para outros mercados e países, pode estar apenas começando e o pior ainda estará por vir.

A previsão nada otimista é de dois acadêmicos de peso que estudaram crises financeiras passadas e acompanham minuciosamente a mais recente - Robert Shiller (autor do best seller Exuberância Irracional, sobre a bolha especulativa da internet) e Robert Bruner (que no mês que vem lança em co-autoria com Sean Carr o livro The Panic of 1907, sobre o colapso financeiro daquele ano).

"Acho que a crise tem um risco substancial de piorar no próximo ano ou mais", disse Shiller à BBC Brasil. Para o professor da Universidade de Yale e co-fundador do índice Case-Shiller US National Home Price Index, os preços das residências nos Estados Unidos, que foram "igualmente inflacionados por um entusiasmo exagerado dos investidores", podem cair ainda mais nos próximos meses, algo entre 3% e 8%.

Isso acarretaria o aumento da inadimplência entre os devedores de hipotecas e um efeito dominó no mercado financeiro ainda mais profundo.

A inadimplência é o principal indicador do nível de gravidade dessa crise e um termômetro a ser observado mensalmente, segundo Bruner, reitor da Faculdade de Administração da Universidade da Virgínia, que ainda considera a atual turbulência muito "jovem", de três semanas, se comparada às passadas que duraram várias semanas ou até meses.

"Estamos esperando e observando, mês a mês, o que acontece com a inadimplência dos proprietários de casas", comentou. "Se muitos proprietários entrarem em inadimplência, essa crise pode crescer para algo extremamente sério."

As notícias não são muito animadoras. Dados da consultora americana RealtyTrac, divulgados nesta terça-feira, apontaram que o número de casas sob o risco de serem confiscadas por falta de pagamento dobrou em julho. Foi o suficiente para a alimentar uma queda dos indicadores da Bolsa de Valores de Nova York (NYSE, na sigla em inglês) no meio do pregão.

Recessão

Por enquanto, a falta de liquidez (facilidade para se negociar um ativo a um preço justo) desencadeada a partir da inadimplência tem afetado empresas ligadas ao setor imobiliário, como construtoras e instituições financeiras, que negociaram títulos de securitização com lastro em hipotecas de segunda linha (subprime).

A deterioração deste cenário poderá espalhar as perdas para outras áreas. "Até agora não vimos uma queda disseminada nos valores das ações como vimos em crises passadas", disse Bruner. Fusões e aquisições de empresas podem ser canceladas, assim como a abertura de capital de algumas companhias. Investimentos podem ser congelados e expectativas de crescimento, reavaliadas.

"Isso produz uma recessão. Recessões geralmente seguem crises financeiras, então esperamos que essa crise não se torne uma crise financeira completa", afirmou o professor da Universidade da Virgínia.

Recessão, contudo, não é necessariamente um desastre, na avaliação de Robert Shiller. Casas e ações mais baratas podem ser a oportunidade para alguns.

"Isso pode diminuir o ritmo da economia e nos colocar em uma recessão, mas vamos superá-la e muitas pessoas estarão em melhores condições financeiras."

Juros

Enquanto os investidores tentam decifrar a gravidade da atual crise de crédito e o possível impacto na economia real dos Estados Unidos, a pressão sobre o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), aumenta cada vez mais.

"Não há uma solução fácil e simples", destaca Shiller. Uma das ferramentas que o Fed tem nas mãos é a taxa básica de juros que pode ser cortada na sua reunião em setembro ou até mesmo antes disso, prevê o professor da Universidade de Yale.

Foi essa medida que o Fed tomou após o estouro da bolha da internet, em 2001, o que acabou resultando no cenário atual já que o dinheiro ficou mais barato e as pessoas passaram a se endividar para comprar casas. "O que eles fizeram no passado vem agora assombrá-los", brincou Shiller.

Em 1907, quando os Estados Unidos nem tinham ainda um banco central, foi o banqueiro John Pierpont Morgan (J.P. Morgan) quem acudiu o mercado, injetando liquidez na bolsa de valores, nos bancos, no mercado de títulos, ouro e na indústria de aço.

Um século depois, Bruner diz que a intervenção agressiva dos bancos centrais será inevitável para estancar as dificuldades em diferentes indústrias e regiões.

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