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03/09/2007 - 07h45

Economia brasileira pode ser vítima do próprio sucesso, diz 'Financial Times'

A economia brasileira corre o risco de se tornar vítima de seu próprio sucesso, segundo afirma longa reportagem publicada nesta segunda-feira pelo jornal britânico Financial Times, por causa da supervalorização do real em conseqüência do aumento das exportações e da perda de competitividade dos setores não-exportadores.

A reportagem comenta que "até uma década atrás, se os mercados internacionais de crédito se resfriavam, o Brasil estava entre os primeiros a ficar gripado", mas que "hoje, o Brasil está fortemente protegido por grandes reservas internacionais, uma dívida externa baixa e superávits saudáveis em conta corrente".

O jornal compara à situação atual do Brasil à da Holanda nos anos 1970, "quando as exportações do recém-descoberto gás natural elevaram tanto o valor da moeda que destruíram a competitividade em todo o resto da economia", no que ficou conhecido nos livros de economia como "o Mal Holandês".

"O equivalente brasileiro ameaça tornar o pais uma vítima de seu próprio sucesso", diz a reportagem, comentando que "recentemente tem havido muitos comentários sobre um 'Mal Brasileiro'", apesar de "o país, aparentemente, nunca ter estado com a saúde tão robusta".

Reclamações

O jornal observa que a alta do real "vem produzindo reclamações de muitos do setor industrial". "O perigo, eles dizem, é que os empregos bem remunerados nos setores de capital intensivo e outros setores tradicionais sejam substituídos por outros de baixa remuneração no setor de commodities", diz a reportagem.

Segundo o texto, "a alta da moeda significa que muitos fabricantes, que antes exportavam para o leste asiático, por exemplo, estão agora construindo fábricas por lá em vez disso".

"Isso, segundo argumentam muitos, é o clássico sintoma do 'Mal Brasileiro'", diz o jornal. O Financial Times observa porém, que "as exportações em alta não são o único fator por trás da apreciação da moeda". "O Brasil, com sua recém-descoberta estabilidade, se tornou altamente atraente para investidores e credores. A quantidade de dinheiro dirigida a ações e títulos brasileiros tem um impacto ainda maior sobre o real do que o comércio", argumenta.

"Este fato sozinho, talvez, deveria acender uma luz vermelha sobre a estabilidade futura. Os bancos de investimento não vêem uma redução no nível de investimento. Mas outros advertem sobre uma mudança de humor", diz o texto, citando um analista que vê uma "bolha" nos investimentos, que pode estourar.

Mudanças no interior

Uma outra reportagem de apoio publicada pelo FT na mesma página relata as mudanças no interior do país provocadas pelo "boom" das commodities no mercado internacional.

O jornal cita como exemplo a cidade de Campo Verde, no Mato Grosso, "que aparece como uma miragem em meio aos campos de soja, com seus silos de metal brilhando sob o sol".

"Uma ampla avenida central é pontilhada com os armazéns dos maiores comerciantes de commodities do mundo. Atrás deles estão ruas bem arrumadas com lojas, casas e pequenos negócios. Alongando-se pelo pacífico vale ao norte há vastos projetos imobiliários novos", diz a reportagem.

O prefeito da cidade diz ao jornal que o boom das commodities levará a população local a crescer dos atuais 30 mil moradores para 100 mil até 2020. "Mas ao invés de atrair mais agricultores para cultivar mais - toda a terra arável no município já está sendo utilizada - ele quer adicionar valor às commodities na cidade", diz o Financial Times.

O jornal cita como exemplo a Sadia, que já tem criação de galinhas e uma fábrica de alimentos na cidade e que estuda instalar lá uma fábrica de processamento de carne de frango e outros pontos de produção que poderiam criar até 3 mil empregos diretos e 9 mil indiretos.

O alvo seria principalmente as exportações. O jornal observa que "o crescimento acelerado em tais exportações está ajudando a criar novos empregos em seus milhares, mas há perigos".

"Um deles é que os novos empregos para fatiar frangos em áreas rurais estejam aparecendo às custas de empregos bem remunerados em setores tradicionais e urbanos. Outro é que as exportações de bens com valor agregado sejam eles próprios ameaçados pela apreciação da moeda, que vem trabalhando contra preços internacionais mais altos das commodities, comendo as receitas dos produtores agrícolas", conclui o jornal.

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