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27/11/2007 - 10h00

Para especialista, ranking da ONU adota 'rótulos artificiais'

Daniel Gallas
De Londres
A classificação sobre desenvolvimento humano feita pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) é artificial e não leva em consideração aspectos importantes como o desenvolvimento sustentável, na opinião do especialista britânico Stephen Morse.

"O que a ONU faz nesse ranking é dividir artificialmente os países em três categorias: alto, médio e baixo desenvolvimento", afirma Morse, professor da Universidade de Reading e autor de livros sobre estatísticas em desenvolvimento humano.

Para ele, essas classificações são arbitrárias. "Elas não significam nada, são meramente rótulos usados para agrupar os países de uma forma simplificada."

A ONU divulgou nesta terça-feira em Brasília o ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que classifica os países de acordo com avanços na saúde, educação e riqueza. Pela primeira vez desde que o ranking começou a ser divulgado, em 1990, o Brasil atingiu o patamar de "alto desenvolvimento humano", com IDH de 0,800. O país ficou em último lugar na lista de 70 países com alto desenvolvimento.

'Imperfeito, mas útil'
O IDH - que varia de 0 a 1 - leva em consideração quatro variáveis: expectativa de vida, alfabetização adulta, quantidade de alunos matriculados em escolas e universidades e riqueza per capita. A Islândia lidera o ranking, com IDH de 0,968, e Serra Leoa está em último, com 0,336.

Países com nota de 0,800 ou superior são considerados de "alto desenvolvimento humano" pelo PNUD. Os países com IDH inferior aos 0,500 são "baixo desenvolvimento humano".

A ONU começou a trabalhar com indicadores de desenvolvimento humano nos anos 50. Nos anos 80, a metodologia do IDH foi aperfeiçoada, inspirado nos trabalhos do economista indiano e prêmio Nobel Amartya Sen.

Segundo Morse, o principal objetivo da ONU era achar um índice que servisse de alternativa à visão puramente economicista do Banco Mundial, que classificava o desenvolvimento dos países apenas de acordo com a riqueza per capita. Para isso, o IDH incorporou indicadores de saúde e educação, além do PIB per capita.

Apesar das críticas que faz ao trabalho, o professor diz que mesmo com suas imperfeições o IDH cumpre um papel importante de chamar a atenção de governos e da imprensa para sucessos e fracassos de políticas de desenvolvimento humano nos diferentes países avaliados.

O problema para o especialista é que o desenvolvimento humano é um conceito muito mais complexo do que apenas as quatro variáveis usadas pelo programa da ONU e, por isso, o ranking da ONU acaba sendo pouco usado por acadêmicos de desenvolvimento humano como ele.

"Nos países da África, por exemplo, existe um mercado informal, que sequer é refletido no (cálculo do) PIB. A economia africana acaba sendo subestimada no ranking do PNUD." O mesmo poderia ser dito sobre países como o Brasil, que também tem uma grande economia informal.

Outro problema para o professor é o fato de o índice do PNUD não levar em consideração o crescimento sustentável.

"Hipoteticamente, se o Brasil devastasse completamente a floresta amazônica e usasse a terra para plantar soja ou criar gado, o país subiria diversas posições e talvez até liderasse o ranking. Mas isso não pode ser chamado de alto desenvolvimento humano. O índice do PNUD só leva em consideração os benefícios de um país, mas não os seus custos."

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