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06/02/2009 - 09h15

Astros apagados

Morreu Bob May. Tinha 69 anos. Tinha problemas do coração. Quem deu a notícia para a imprensa, foi sua filha, Deborah May. Bob andava muito deprimido desde que os incêndios florestais do início do ano, na Califórnia, atingiram sua residência.

Lamentei a morte de Bob May. Não o conhecia, mas ele era de casa. Nunca vi sua cara. Não tenho a menor idéia de como era. Sei o que fazia. E o que fazia, fazia bem. Bob May, durante alguns anos, na década de 60, fez o papel do robô na série-curtição Perdidos no Espaço . O robô não tinha nome. Só um espaço-maníaco sabe, ou procura saber, que ele era apenas um modelo B9, Classe 3M.

Consta que May, na intimidade sua com o robô, o chamava de B9 e que ele, o robô, era seu lar fora de casa. May fumava dentro da pesada armadura de "B9, Classe 3M". Bob May movimentava B9. Com alto grau de profissionalismo.

Acho que vi, entre as versões dubladas em português, e os repetecos em inglês, aqui no Reino Unido, todos os episódios. Bob May não fazia a voz do robô. Esta tarefa cabia a Dick Tufeld, que também atuava como o narrador da série. Não sei quem dublou o "B9" no Brasil. Espero que esteja bem de vida e gozando de boa saúde. Mentalmente, fiz um minuto de silêncio em memória de Bob May.

Ando meio cansado e caladão depois de tantos minutos de silêncio feitos nos últimos meses. Ator, atriz, gente de cinema, de televisão, todos eles fazem parte de nossa família secreta - aquela que ocultamos do mundo e das gentes lá fora e onde passamos nossas ocasiões e aniversários particularíssimos. Diz a lenda que vão embora sempre - para aquele imenso telão no firmamento, para recorrer a um lugar-comum - de três em três. Vejamos. Foram-se, quase que no mesmo dia, em janeiro, Ricardo Montalban e Patrick McGoohan. O primeiro todo mundo de uma certa idade vai se lembrar pelos musicais da Metro. Todo mundo de uma certa outra idade vai se lembrar pela série Ilha da Fantasia . Mais outra idade? Pois não. Do cinema mexicano, anos 40. Lembro-me de ver Santa no Capitólio, no Rio, e cantarolar por muito tempo o bolero que dizia assim "Santa, santa mia...".

Patrick McGoohan, no Brasil, só para gente muito entendida. Ator, diretor e criador de uma série de televisão de 1967 que constitui um legítimo representante do gênero a que nós também batizamos de "cult": O Prisioneiro . Série de 13 capítulos apenas. Capaz de ter passado numa hora ou num desses canais inconvenientes em que somos pródigos. McGoohan, para quem acompanha televisão, fez de assassino em uns 3 ou 4 episódios da série Columbo , além de dirigir vários outros. Era amicíssimo de Peter Falk, o Columbo, que, soube outro dia, pelos jornais, se encontra em estado avançado do mal de Alzheimer. Mais alguns minutos de silêncio. Um em tempo de péssima expectativa.

No Brasil, quem subiu (não é impertinência; mera intimidade de admiração) outro dia mesmo foi o crítico de cinema Antonio Muniz Vianna, que durante 27 anos seguidos, dia após dia, fez o que já se fez de melhor em matéria de crítica cinematográfica. Eu lia todo dia. Muitas discussões internas. Nada vocalizado. Mais de uma vez dei com ele em reunião social ou mesa de bar. Falava pouco. Eu, por timidez ou burrice, nunca toquei em cinema.

Um minuto de silêncio.

Outro para: Kim Manners que dirigiu muitos dos episódios de Arquivos Secretos . E Claude Berri, francês, diretor. Olga San Juan, ex-mulher de Edmund O'Brien (um minuto para ele também) e que Hollywood tentou cognominar e promover como a "Puerto Rican Pepperpot" ("A pimenteira puerto-riqueña") na trilha de Carmen Miranda, "The Brazilian Bombshell" ("A bomba brasileira"), e Lupe Velez, "The Mexican Spitfire" ("A cospe-fogo mexicana"). E Pat Hingle, desde Sindicato de Ladrões , de Elia Kazan, ao primeiro dos Batman, com Michael Keaton. Ann Savage, mulher fatal dos filmes B, inesquecível em Curva do Destino , de Edgar G. Ulmer. Eartha Kitt, que dispensa - mesmo - apresentações. Sam Bottoms, de Apocalypse Now , do Coppola. Van Johnson, não dos musicais da Metro, como os da Broadway também.

Lá se foram eles. Continuam indo. Capaz de eu ter assistido a uns 20 mil filmes em toda a minha vida. Bem mais, creio. Mas fiquemos por aí. Entre atores, diretores, produtores e técnicos, retive um número aí por volta dos... ah, sei lá e nem vou contar que isso me deprime. A única coisa que resta a fazer é, lá por dentro, como o minuto de silêncio, dizer obrigado, foi um prazer.

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