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12/02/2009 - 12h20

Berlinale e Berlinada

Antes da viagem a Berlim, li, entre outras coisas, as sugestões do New York Times que aparecem na série sobre várias cidades com o título "36 horas". O que você faz numa cidade num tempo tão comprimido? Vim passar 72 horas, o dobro do tempo, e achei que poderia consumir e digerir Berlim com tempo de sobra para uma cochilada vespertina.

A nova estação de trem. Fantástica. Três - ou são quatro? - andares gigantescos de vidro com escadas rolantes, elevadores redondos, lojas e cafés. Acordado às seis da manhã, desfusado, foi meu primeiro destino para observar o pique matinal e de uma cidade com um dos melhores sistemas ferroviários do mundo.

Vum vum vum...parecem de brinquedo. Nenhum mendigo, nem sinal da recessão mundial. Perto dos alemães, os trens americanos são umas carroças, diria um ex-presidente nosso. Com temperatura perto de zero, parece uma geladeira, mas é um modelo de modernidade.

O Parlamento fica a dez minutos a pé, com uma redoma de onde se vê a vasta Berlim. Rumei para lá. No caminho, quase deserto, passei por um prédio branco não menos moderno, muito Brasília, com curvas de concreto.

Pergunto ao guarda louro e solitário na calçada do que se trata.

É a Casa Branca".

Do Barack?" "Da Baracka", respondeu com bom senso de humor.

O discurso do ainda candidato marcou a cidade. Muitos falam sobre o presidente negro como se fosse o presidente deles. Duas gerações depois de Hitler, a sedução do presidente negro é fascinante. A lua-de-mel dele está apaixonada. No Parlamento, a história da construção, incêndio dos partidários de Hitler, reconstrução, destruição pelos bombardeios aliados na guerra e nova reconstrução é bem ilustrada com fotos, mas podia ser muito melhor. Falta aqui o toque de Hollywood. Com certeza nao é falta de talento. Fica a impressão de que há uma intenção de contar sem valorizar a participação nazista.

Da redoma você toma o norte da cidade, mas a divisão, o que eram Berlim Oriental e Ocidental, não é clara, nem na manhã transparente de inverno. Embaixo, no café da varanda, a vista é melhor do que a comida, mas quem faz reserva para o restaurante elimina a longa espera na fila. Uma boa dica do Times .

Recorro a um velho amigo, correspondente da revista Stern , que dividia um apartamento comigo em Nova York na década de 70. O pai dele era oficial do Exército e morreu num bombardeio, talvez pela bombas do meu sogro, que bombardeou Berlim dezenas de vezes. Nick, casado com uma judia francesa, me diz que estou hospedado a dez minutos do monumento do Holocausto e em cima do bunker de Hitler. Duas visitas obrigatórias, mas saio do monumento sem resposta para uma velha dúvida. Por que os judeus não fugiram de Berlim em 1933, quando surgiram sinais evidentes e fortes da brutal perseguição que viria logo depois e ainda era relativamente fácil sair do país? Na recepção do hotel pergunto onde está o bunker de Hitler. Duas jovens louras, lindas, sem um fio de cabelo fora do lugar, solícitas como japonesas, não me entendem. "Bunker do Hitler?", uma pergunta à outra. Me mandam à concierge e ele esclarece: "Não é aqui embaixo. Fica a dois minutos, num estacionamento de automóveis, mas não há nada lá.

"É aqui o bunker?", pergunto ao garagista dentro de um cubículo de plástico com um aquecedor portátil.

Ele me responde com uma saudação nazista e aponta a mão esquerda para o chão. " Está aqui debaixo". Nem uma placa, nada. Duas dúzias de carros e o asfalto.

Nos Estados Unidos, até as cuspideiras de Roosevelt são preservadas, assim como memórias e objetos como os de Churchill na Inglaterra, mas a última residência de Hitler, que quase dominou e destruiu nosso mundo, está asfaltada em Berlim.

Vim aqui para assistir ao filme do meu filho Antonio Campos na Berlinale, um dos maiores senão o maior festival de cinema do mundo em termos de vendas de ingressos (mais de 260 mil vendidos).

O cinema - Babylon - fica na rua Rosa Luxemburgo, na antiga Berlim Oriental, onde morou uma das criadoras e heroínas do comunismo alemão. Esta cidade tem almas penadas de todas ideologias e etnias, novas e velhas (na caixa de TV a cabo do meu hotel 4 estrelas há 34 canais, entre eles dez em árabe, três em inglês - BBC, CNN e Bloomberg - e um em português, a Band).

O cinema está lotado pela juventude alemã, mas o filme não tem legendas em alemão. Os aplausos no final são um alívio. O filme é bom, mas é difícil.

No final, quando Antonio sobe ao palco, alguém pergunta: "Sobre o que é seu filme"? Quem pergunta recebe alguns aplausos pela provocação.

"Não sei". Ele responde. Os aplausos são mais fortes.

Bravo Antonio.

De volta ao bar do hotel, lotado, sento para um copo de vinho.

Uma mulher pouco atraente, na faixa dos 30 ou 40, vestida com o recato de uma quase freira, pergunta se pode sentar na cadeira vazia ao meu lado. Fico até animado com a possibilidade de ouvir uma boa história sobre Berlim. Ela é turca, muçulmana, vive aqui há dez anos, mas fala mal inglês. A conversa não rende e pergunto se ela não tem de acordar cedo para trabalhar no dia seguinte, uma forma delicada de terminar a conversa.

Ela responde que não tem horário rígido.

"E o que você faz?", pergunto contrariando uma regra de boas maneiras.

"Sou massagista." Me senti um sortudo. A massagem mais barata no hotel custa 130 euros, muito acima da minha tabela. "Quanto você cobra?" "Com ou sem sexo? Com sexo, 500 euros", me respondeu a recatada muçulmana.

Quando me recuperei do choque - não pela prostituição num hotel de luxo, mas pela aparência dela e pelo preço - decidi responder com outro.

"Ok. Vamos dispensar a massagem, mas quero fazer tudo." "O que é tudo?" "Vamos fazer exorcismo. Sou cristão, você é muçulmana. Durante a transa, dou uma surra em você com um rosário e você me dá uma surra com aquele terço muçulmano. Vamos ver quem tem e quem tira o demônio no corpo do outro." "Isto eu não faço." Ela se levantou e foi embora, insultada. Minha berlinada durou pouco, mas Berlim ficou em mim.

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