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13/02/2009 - 06h19

'Pas de un' em Londres

Paulo Di Roberti (nome artístico), ex-integrante do Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, ora em período de estágio na TV Globo, chegou a Londres no segundo domingo de janeiro a fim de manter conversações com seus colegas do Real Sindicato de Bailarinos Britânicos (RSBB), constando, de sua agenda, estreitar os tradicionais laços de amizade que unem os dois países, sedimentar as bases trabalhistas da profissão em nível internacional, e, conforme disse a seu companheiro, Sinésio Fontamor (nome verdadeiro, baiano, siderúrgico), ainda no Galeão (Di Roberti sempre se recusou a chamá-lo de "Tom Jobim"), algumas horas antes de ser maltratado no balcão da companhia aérea, na polícia, na alfândega e durante todo o voo, "tomar uma sauna de cultura".

Di Roberti ficou hospedado no Hotel Nebraska, numa esquina de Earl's Court Road, onde tudo acontece, conforme lhe informaram no Rio. O quarto era pequeno, sem banheiro, com vista para o corpo de bombeiros local, e, assim que desfez as malas, Di Roberti constatou que esquecera o frasco de Leite de Rosas.

Di Roberti franziu o nariz para a hospedagem. Di Roberti era homem de franzir nariz - e cenho também, conforme o caso. Di Roberti deu uma chegada na janela. Seu nariz, seu cenho, prontamente se desfranziram. Beleza de vista! "Uma janela para o amor", conforme disse em e-mail para Sinésio ainda no primeiro dia.

Di Roberti, despachado que era, logo encontrou um ponto de internet no McDonald's local, quase ao lado da estação de metrô, a dez passos do Nebraska. Uma janela para o amor , de 1986, fôra o filme que mais adorara naquele ano, além de ser na sala de espetáculos que o exibia, o Odeon, onde, mesmo no escuro, encontrara, conhecera, e ficara, daquele instante até hoje, amando e vivendo com Sinésio. Como no filme, Di Roberti gostava de ocasionalmente, como uma personagem do filme, por a mão no coração e dizer em voz alta, "Aqui canta o pássaro! Aqui o céu é azul!".

No mesmo bilhete eletrônico, depois de desfilar suas primeiras impressões, Di Roberti lamentou que, naquele ano, ambos não poderiam ver juntos a entrega do Oscar tomando vinho branco. As primeiras impressões de Di Roberti, conforme o e-mail do dia de sua chegada: "Londres é uma cidade onde se respira cultura". "O hotel é fuleiro mas o bairro é quentérrimo. Já saquei tudo." "Ainda não nevou." "Há muitos estrangeiros por aqui: poloneses e ucranianos principalmente, conforme me informou uma criatura com quem fiz amizade no metrô, vindo de Heathrow para o hotel." Di Roberti tinha novecentos dólares em "traveller's cheques" ("Os ingleses não escrevem "checks" mas sim "cheques". Como são cultos!", informou a Sinésio uma semana depois, sempre do McComputador do bairro) que logo trocou numa casa de câmbio e de remessa de dólares para o Brasil, onde eram todos mineiros e simpaticíssimos.

E-mail: "Gosto mas não quero amizades brasileiras nesta viagem." A biboca ficava ao lado de uma vasta farmácia, depois da estação de metrô. Era pouquíssimo o dinheiro, logo verificou. Restava-lhe ainda 220 dólares em notas de 20, que alguns amigos deram juntamente com a lista de encomendas. Quase todas encontráveis na tal farmácia da cadeia Boots, sempre na mesma Earl's Court Road.

Seus novos amigos do sindicato convidaram-no para almoçar num restaurante italiano no Soho. Pagaram a conta e disseram que contasse com eles para qualquer dificuldade. Di Roberti pôde fazer uso do inglês que aprendera no Colégio Andrews, no cinema e nas letras de música. (Outro e-mail: "English no problem"). Discutiram problemas relativos à profissão. Qualidade das malhas importadas da Coreia do Sul, imundície dos mictórios de artistas, o deboche constante de membros das diversas orquestras que os acompanhavam. Di Roberti queixou-se de que, no Brasil, não levavam a sério a arte que praticavam. "For big people we are all women Bambis of the florest" . Di Roberti queria dizer que para o povão eles eram todos bichas. Em outro e-mail: "Doce amor: não deixe de me contar tudo sobre a nova novela da Gloria Perez. Só ela mesma para inventar uma trama maluca dessas. 'Ivagina' você, toda passada na Índia! Juliana continua linda? Tony Ramos dá o show de interpretação de sempre? Conte-me tudo, tudo, tudo!".

Engraçado, talvez fosse o frio, talvez fosse os 50 anos se aproximando, mas Di Roberti se cansava logo em suas peregrinações culturais (aqueles museus todos, inclusive da dança, Catedral de São Paulo onde Charles e Diana se casaram, "puxa, é uma dose para leoa! Qui, qui, qui!"), quando até há algum tempo caminhava quilômetros sem "bater pino", conforme dizia. Capaz do corpo estar sentindo falta da caminhada diária pelo calçadão de Copacabana e pela "esteira" feita também quase todo dia na academia logo ali perto de onde morava, na Siqueira Campos.

Na nevasca daquela segunda-feira, 2 de fevereiro, que paralisou Londres, Di Roberti ficou tão eufórico que fez questão de sair até o McInternet indevidamente agasalhado, conforme lhe advertiu a senhora portuguesa que limpava os quartos do hotel. Di Roberti nunca vira neve. Viu neve a mais não poder. Nela andou, com ela brincou. Pegou um resfriado. Que virou gripe. Que virou pneumonia. Que o levou ao hospital Chelsea & Westminster. Onde morreu na terça-feira, 10 de fevereiro. O corpo será transportado para o Brasil no sábado, dia 14, correndo todas as despesas por conta do sindicato britânico de bailarinos.

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