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19/02/2009 - 05h48

Lucas Mendes: O pão nosso do Francisco

"Preto é carro e sapato, afro-brasileiro é palhaçada. Eu sou negro." José Francisco da Silva Filho, mais conhecido como Francisco Sampa, de Recife, filho de parteira e benzedeira, foi operário de construção quando chegou aos Estados Unidos. Hoje é jornalista e produtor de eventos em Nova Jérsei. Vai publicar seu primeiro livro, Um Jornalista Brasileiro Negro na Terra de Obama , uma coleção de artigos do seu blog e do jornal Brazilian Press com sede em Newark, Nova Jérsei com circulação em dez estados americanos. Francisco saiu de Recife para São Paulo e "lá, quando não dá certo, só há duas opções. Voltar pro Recife ou vir para Nova York". Foi parar em Nova Jérsei onde está há 22 anos e é figura popular numa das maiores comunidades brasileiras nos Estados Unidos. Durante cinco anos foi presidente da Brazilian American United Association (BAUA), uma organização sem fins lucrativos com o objetivo de dar assistência ao imigrante brasileiro.

Entre as funções do Francisco, como presidente, estava a de levar defuntos de volta para o Brasil. Só em julho do ano passado morreram seis. Francisco não levou todos os corpos, mas, com um deles, saiu daqui no domingo ao meio-dia e foi chegar em Itabirinha de Mantena na terça de manhã, com o corpo em avançado estado de putrefação. Ele e o corpo ficaram horas engarrafados na estrada por causa de um acidente que matou sete.

Só nas prisões de Newark há entre 30 e 40 brasileiros presos e em Connecticut há muito mais. Francisco faz visitas, ouve estórias, tenta ajudar. Alguns são pobres coitados presos porque estão ilegais no país, mas Francisco conta que há um número cada vez maior de criminosos. Há 20 anos era raro um crime na comunidade. Hoje são frequentes, diz ele. Sabe de casos: famílias ajudam o parente a fugir da prisão no Brasil e despacham o foragido para cá, via México. Em pouco tempo está no crime.

"Estou bem com o padre e com as putas", diz Francisco. "No saldo geral, a contribuição da comunidade brasileira é positiva mas nunca tivemos tantos bandidos e pilantras como agora. As pessoas esperam que a salvação venha de cima, como a chuva".

"Só em Newark há 30 restaurantes brasileiros e muitos empregados são explorados por outros brasileiros. Uma cozinheira deveria receber US$ 14 por hora. O patrão paga US$ 6 e, além disto, sonega os impostos. Rouba do empregado e do governo. São dois crimes".

A questão racial aparece nas crônicas e reportagens do Sampa. "O Brasil é racista. Negros são 13% da população nos Estados Unidos. Negros e pardos são 50% da população brasileira... o país de Lula é mais racista que o país de Bush e Obama ... Nosso racismo, como nossa economia é informal ... Salvador, a maior metrópole negra fora da África, nunca elegeu um prefeito negro. Nova York elegeu David Dinkins. Agora não sabemos nos desfazer desta herança maldita da escravidão que mesmo no século 20 permanece escancarada..." O consulado faz o que pode, mas pode pouco e não tem pessoal suficiente. O apoio é mais moral do que legal. Francisco Sampa não tem religião, mas anda tão pessimista que escreveu uma oração para Obama: "Santo Obama que estais na Casa Branca.

Santificado seja o teu mandato.

Venha a nós a vossa bondade.

Seja feita a vontade do povo, em todas as partes da terra e também do céu.

Que não falte o nosso pão de cada dia.

Perdoai, Obama, aqueles que te ofenderam (já começaram as críticas).

Assim como nós perdoamos aos nossos credores, cobradores das nossas hipotecas.

Não nos deixai desempregados e sem casa pra morar.

Livrai-nos da imigração, Que toda nação de indocumentados seja legalizada.

Amém." Que Deus e Obama te ouçam, Francisco.

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