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23/02/2009 - 05h14

Do celular e seus males

Eu não tenho celular. Em matéria de células, restaram-me algumas lá por volta do cérebro ou cerebelo, não sei direito, e parecem-me que dão para o gasto. Tenho um telefone lá em casa. De vez em quando toca. Alguém - ou melhor, uma gravação - querendo me vender qualquer seguro. Desligo no meio da fala. Minha maneira patética de agredir quem me aborrece. Outras vezes, eu ligo. Para avisar na BBC que estou pior de saúde do que o de costume e não vai dar para ir. Para perguntar à minha filha, ao menos uma vez por semana, como vão as coisas. Continuo, como desde a mais tenra idade, a dissonar de meus semelhantes. Mais de metade das pessoas que, como eu, tem a desdita de habitar este planeta, possui celulares. Da mais atrasada tribo de índios da região amazônica ao gabinete do presidente Barack Obama. Uma sorte, eu tenho. Não sou obrigado a ver, ou entreouvir trechos, das conversações dessa gente que acabo de mencionar. O celular, asseguram-me meus sentidos e comprova a disciplina que estuda as comunicações, que o pequeno objeto em questão é um das mais bem sucedidos produtos já fabricados em todos os tempos. Afirmam ainda que é o mais versátil. Que o celular aglutina outros engenhos tais como os tocadores de mp3, o sistema de rastreamento GPS e as câmeras para fotos ou vídeos.

Aquele lugar-comum do "objeto de desejo" passou do surrado ao surrador. Eu que o diga.

Uso com desabuso, para explicar a minha retrógrada posição, um verbo antigo beirando o desuso, ou datado como gostam de dizer, ou ainda à espera de um adendo à reforma ortográfica: ojeriza, de ojerizar. Tenho ojeriza ao celular. Tentei olhar, e entreouvir, apenas com desdém aos pobres de espírito e bilionários de solidão que falam - e o falar é constante - ao celular. No celular, pelo celular, com o celular. O fato de eu desprezar os usuários de celulares não os afeta. Sofro calado minha solidão, como no samba, e, ao menos, não a compartilho com o resto da pobre coitada da humanidade com aquele infeliz aparelhinho colado no ouvido. Falando e andando. Andando e falando. E rindo. E fazendo caretas. Algumas até falando e dirigindo carro. Até uma certa época, por falta do que fazer, durante minha caminhada solitária de todos os dias eu ia contando o número de senhoras e senhoritas a palrar sorrindo no celular. Não é misoginia, não é sexismo. Deve haver algum estudo, um especialista em comunicações, que possui os dados relevantes: 83,5 % das pessoas que conversam por celular na rua pertencem ao sexo feminino. De que estão rindo? Bisbilhoteiro, na rua e no metrô, tento entreouvir uma nesga (conversa de celular tem nesga) da falação. O pouco que consigo pegar - ao menos não berram - é sempre sobre um programa feito ontem ou a ser feito hoje. E sobre o que a pessoa do outro lado fez, achou, disse. Tudo isso, pontilhado por exclamações e grunhidos variados. No dia 3 de abril de 2006, lá por volta das dez e meia da manhã, em Cromwell Road, eu flagrei um cavalheiro, bem vestido, de gravata, dizendo o seguinte, em inglês, para o celular: "São mais ou menos dez e meia. Estou em Cromwell Road prestes a pegar o ônibus 74. Tudo correndo bem, mais tardar onze horas estou aí. Tudo bem. Um abraço." Foi a única conversa celular entreouvida por mim que me pareceu prática e objetiva, sendo assim, pois, digna dos maiores encômios.

"Encômio" e "encômios" me parecem palavras merecedoras da ocasião, embora dificilmente constem do vocabulário usual daqueles que praticam o, chamemo-lo assim, "celularismo", como se fosse um vício ou doença incurável.

Voltemos ao mundo dos fatos científicos e que viva eu eternamente nesta terra descontente: a cada 15 meses os celulares são substituídos. Por modelos mais novos, mais versáteis, com certeza mais safados. Há aí um sério problema, conforme já vi discutido em editorial de jornal sério: isso significa que algumas centenas de milhões de celulares são descartados todos os anos, principalmente nos países em desenvolvimento, onde constituem um boom para a produtividade e um catalisador para novas indústrias que surgem, como o uso do sistema bancário online.

Acontece que, ao menos aqui no Reino Unido, apenas 20% dos celulares são reciclados. Isso significa perigo para o meio ambiente. Os celulares contêm substâncias como o cádmio em suas baterias. O cádmio é um perigo. Se bobearem jogando fora no mar ou num rio, isso pode vir a matar peixe e banhista. Ambos também armados ou não de celular. É preciso cuidar de não degradar o pouco que resta de vivível em nosso meio ambiente. Dizem lá eles.

Sou contra. Que poluam. Que degradem. Cádmio neles. A vida em meio a bilhões de pessoas armadas de celular não vale a pena ser vivida.

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