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26/02/2009 - 10h18

Adoção da reforma em Portugal continua indefinida

Jair Rattner
De Lisboa para a BBC Brasil
Enquanto o Brasil avança na adoção das novas regras da escrita, Portugal ainda não conseguiu definir um cronograma para a aplicação do acordo ortográfico no país. Existe apenas a promessa de que o período de transição comece ainda no primeiro semestre deste ano.

Isso significa que os editores portugueses não sabem quando devem ter seus livros escritos de forma diferente da atual e não existe indicação de quando os estudantes vão começar a aprender a escrever de acordo com as novas regras.

Segundo Rui Nunes, assessor de imprensa do Ministério da Educação, ainda não foi tomada nenhuma medida para o ensino das novas regras ortográficas. Ele afirma que deverá ser feita a formação dos professores para se adaptarem às mudanças, mas não há previsão de quando isso vai ocorrer.

No Ministério da Cultura, as preocupações são de natureza política. O governo quer que Portugal publique as normas do acordo em diário oficial junto com São Tomé e Príncipe e Cabo Verde e que se forme a prometida comissão que vai elaborar o vocabulário ortográfico comum.

'Brasil foi precipitado'
A necessidade da existência de uma comissão responsável por elaborar um vocabulário ortográfico comum - que normatize as mudanças previstas no acordo - foi acertada entre os países de língua portuguesa, mas não foi levada adiante.

O Brasil, que saiu na frente na adoção do acordo, decidiu produzir um vocabulário ortográfico próprio, que está sendo feito pelo gramático Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras.

Para José Mário Costa, coordenador do Ciberdúvidas - um site na Internet que há 12 anos responde dúvidas de português - o Brasil foi precipitado ao adotar a norma sem esperar pelos portugueses e sem criar estruturas comuns para resolver os casos deixados em aberto.

"É natural que o Brasil esteja mais avançado nesta questão, porque tem mais dinamismo e interesse pela língua. Mas o acordo não especifica uma série de grafias. Falta um vocabulário comum da língua portuguesa, em cruzamento com o que se fala e se escreve hoje nos países africanos", diz Costa.

Segundo ele, além dos termos não explicitados detalhadamente no acordo (como no caso dos hífens) uma área que pode gerar divergências e duplas grafias é a dos termos científicos e médicos.

"Acredito que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa deveria coordenar esse esforço, como é feito com o espanhol, com a participação de várias instituições através do Fundeón. Isso para não termos casos como o de paralímpico e para-olímpico".

Para o linguista João Malaca Casteleiro - que negociou o acordo por parte de Portugal - já que o propósito é unificar a ortografia, o ideal seria que todos os países tivessem implementado as mudanças simultaneamente.

"Creio que do ponto de vista da política da língua, é uma pena que não entre em vigor nos vários países ao mesmo tempo. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa elegeu como central a política da língua. Como se pode promover a língua portuguesa sem resolver esse problema (da divergência ortográfica), que está pendente há um século?"

Impulsionador do movimento contra o acordo ortográfico, o deputado do Parlamento europeu Vasco Graça Moura acredita que o Brasil está aplicando primeiro o acordo porque para os brasileiros é mais fácil.

"O acordo para o Brasil não implica grandes alterações e também não terá grandes problemas", argumenta.

Livros e jornais
O presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, Rui Beja, tem uma posição de cautela em relação às mudanças.

"Temos que aguardar para ver o que será feito. Na África, os grandes países de língua portuguesa (Angola e Moçambique) não ratificaram o acordo e eles seguem a norma do português europeu".

Os editores portugueses esperam que haja um apoio governamental para a adaptação dos livros para as novas regras ortográficas.

Até agora, três jornais portugueses adotaram o acordo. O mais importante deles é o diário esportivo Record, o terceiro maior jornal do país com 75 mil exemplares vendidos diariamente. Segundo o diretor adjunto António Magalhães, não tem havido problemas.

"Estamos utilizando as novas normas desde o começo do ano e até agora não tivemos nenhuma queixa de leitores por aplicarmos o acordo. Estamos aplicando o acordo de forma gradual, procuramos evitar nas manchetes palavras que possam causar estranheza ao leitor como espetacular sem c ou ótimo sem p", conta Magalhães.

Ele considera que a falta dessas letras faz com que os títulos fiquem mais feios. "A falta do c em espetacular ou do p em exceção retira qualidade estética às palavras". No entanto, ele relata que mesmo o colunista Artur Agostinho, de 88 anos, adaptou-se à nova forma de escrever.

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