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26/02/2009 - 05h52

Lucas Mendes: Bye Bye, Nova York

Até sair de BH com 21 anos eu tinha conhecido cinco estrangeiros. Dois contraparentes portugueses - Porto e Portela -, minha professora de russo, Maria Ilchenko, ucraniana, o agente do Dops, tambem professor de russo que assombrava minha querida Dona Maria - esqueci o nome do canalha (devia ser falso) - e o "espião" Lawrence Laser, do consulado americano. Ah! E o professor Aimeh, de francês. O resto era só mineiro. Como até hoje, a massa é mineira da gema.

Daqui até minha esquina, encontro mais estrangeiros do que conheci nos 21 anos de BH, mas neste bloco, onde moro há 25 anos, só conheço três americanos que nasceram e continuam em Nova York: meus três filhos.

Com certeza, há centenas de outros no quarteirão, enrustidos. O Village é um bairro antigo onde as pessoas gostam de morar e morrer. Em busca de apartamentos disponíveis na vizinhança, as pessoas leem os obituários do Times .

Eu me refiro às pessoas que encontro no dia a dia, a maioria porteiros, garagistas, barbeiros, balconistas donos de restaurantes, lojas, farmácias, antiquários. Os novaiorquinos caíram fora e hoje 60% da cidade é de imigrantes ou filhos de imigrantes. Em 1970, eles representavam só 18% da população.

A classe média "sartoh fora". Em 1970, eram um quarto da população, hoje são 16%. Por quê? Aluguéis caros, ensino ruim e US$ 25 mil por ano para cuidar das crianças, encabeçam a lista do êxodo.

A maioria foi parar em Filadélfia, Charlotte (Carolina do Norte) e Atlanta, na Geórgia. Viver em Manhattan como classe média, custa US$ 123 mil por ano. Em Queens, custa US$ 86 mil, e em Houston, US$ 50 mil. Você perde os teatros da Broadway, alguns dos melhores museus e restaurantes do mundo, o imbatível cachorro-quente de rua, os sanduíches do Oriente Médio, os escândalos e crimes das celebridades, as emoções dos ataques terroristas e dos aviões que descem no rio Hudson.

E daí? Com os US$ 83 mil que você poupa quando mora em Huston pode passar três semanas em Nova York no melhor hotel, assistir dezenas de peças e comer cachorro-quente até sair molho de cebola e mostarda pelos ouvidos.

Qual é o ponto desta coluna? Não tenho certeza, mas a atração maior desta cidade, além da história, cultura, comida etc... é a diversidade. Quando vi o Rio pela primeira vez, aos 14 anos, senti que Beagá era bye bye. Só uma questão de tempo. Aos 24, recebi um convite para morar em São Paulo e trabalhar na Veja , que ia começar naquele ano. O trabalho era tentador, mas São Paulo não era minha cidade, e quando, no meio da hesitação, surgiu a bolsa para os Estados Unidos, disse adeus para sempre a São Paulo. E em Nova York, no primeiro encontro, me senti mais em casa do que no Rio ou na minha natal Beagá.

Nesta crise, a cidade perde mais ricos e classe média, mas este ciganismo não é só novaquino. Para frente ou de ré, os americanos estão sempre em marcha. Metade, infeliz onde está - e os moradores de cidades são mais infelizes que suburbanos, gente das pequenas cidades e do campo (não sabia que ainda existia gente do campo, mas é o que a pesquisa afirma).

Quem vive nas cidades quer marchar para o oeste e para Flórida, apesar dos furacões, do calor e da mesmice, mas a cidade favorita do país, para os mais velhos, é Denver, na porta das Montanhas Rochosas.

O sonho dos jovens, como eu aos 24 anos, ainda é Nova York, mas depois desta crise, o que Nova York vai ter para oferecer, alem do cachorro-quente?

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