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02/03/2009 - 10h37

Crise leva crianças brasileiras a deixar escola no Japão

A crise econômica no Japão, além de deixar vários imigrantes brasileiros sem emprego, tem tirado as crianças das salas de aula. Segundo levantamento da Associação das Escolas Brasileiras no Japão (AEBJ), pelo menos 1.300 estudantes dos 10 mil que estavam matriculados nas cerca de 90 instituições de ensino brasileiras não estão indo à escola.

"Muitos voltaram para o Brasil e uma pequena parcela foi para as escolas japonesas, mas ainda há um grande número de crianças que está em casa, com os pais, esperando para ver qual será a decisão da família", conta Julieta Yoshimura, presidente da AEBJ.

O governo japonês se mostrou preocupado com a situação da educação dos estrangeiros e prometeu ajuda por meio de um comitê. Criado no começo do ano, o grupo tem a missão de buscar soluções para os problemas dos imigrantes, entre eles brasileiros, gerados a partir da crise.

Uma das medidas do Ministério da Educação, divulgada pela imprensa japonesa nesta segunda-feira, é pedir aos governos das províncias urgência no reconhecimento das escolas brasileiras.

Hoje, das cerca de 90 existentes, apenas cinco são reconhecidas pelos governos locais como instituições de ensino. As demais são tratadas como um comércio, não tendo assim benefícios escolares, como isenção ou abatimento de impostos, direito a passe escolar e a doação de empresas.

"No começo do ano nos reunimos com representantes do governo e pedimos justamente o auxílio às escolas brasileiras e a flexibilização no ingresso dos alunos brasileiros no sistema japonês de ensino", contou Patrícia Côrtes, diplomata responsável pelo setor de Comunidade da Embaixada do Brasil em Tóquio.

Segundo a Kyodo News, fontes do Ministério da Educação disseram que o ministro Ryu Shionoya vai pedir que as províncias eliminem alguns critérios de reconhecimento destas escolas. Nesta segunda-feira, ele se encontrou com a comunidade brasileira da cidade de Hamamatsu e ouviu os pedidos dos dekasseguis.

Entre as sugestões de Shionoya estão a eliminação de algumas cláusulas, como a necessidade de ter um prédio próprio e também uma reserva financeira.

No entanto, para a presidente da AEBJ, a medida do governo não vai resolver o problema. "Na verdade, não vai fazer nem diferença nesse momento de crise, pois a ajuda que as escolas teriam caso fossem reconhecidas é pouca", diz Julieta.

"O problema é que os pais, sem emprego, não têm dinheiro para pagar a mensalidade e, mesmo que as escolas ofereçam bolsas de estudo, as crianças não têm condições de frequentar a sala de aula, pois há o custo do transporte e da alimentação", detalha a educadora. "A atual situação é tão crítica que a família prefere ficar dentro de casa para não ter gasto nenhum", completou.

Edilson Kinjo, da Associação Amigos do Brasil, uma organização sem fins lucrativos que trabalha com a questão da educação, fez um levantamento nas escolas brasileiras da província de Gifu entre novembro de 2008 e janeiro deste ano.

"Dos que estão fora do sistema educacional, 35% estão na faixa dos 12 aos 17 anos", afirma. "Com o agravamento da crise, mais crianças devem abandonar os estudos", prevê.

Hoje, segundo o relatório da AEBJ, as escolas brasileiras amargam uma queda média de 50% no número de alunos. Mauricio Yamashita, diretor do Colégio Dom Bosco, de Komaki, província de Aichi, diz que neste ano letivo cerca de 85 alunos não renovaram a matrícula. "Para continuar com a escola tivemos de reduzir os gastos, cortamos professores e atividades extra-curriculares", conta o diretor, que agora também exerce a função de motorista e faz o transporte escolar.

Josélia Longatto, diretora da Escola Comunitária Paulo Freire, implantou a mensalidade de acordo com a renda familiar para evitar a evasão escolar. "Se a renda é zero, a mensalidade é gratuita", exemplifica a diretora, que também dá aulas e ajuda na limpeza da escola, localizada em Toyota, onde moram 3 mil brasileiros. "Os professores ainda aceitaram um corte no salário, mas tudo isso pensando nessas crianças", diz.

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