UOL Notícias Notícias
 

04/03/2009 - 16h03

Chefe de inquérito sobre Jean Charles pede revisão de práticas policiais

O juiz-legista que presidia o inquérito a respeito da morte de Jean Charles de Menezes, Michael Wright, afirmou que práticas da polícia britânica precisam ser revistas e que ocorreram "falhas sistemáticas" no caso da morte do brasileiro em 2005.

Em um relatório divulgado nesta quarta-feira, Wright questionou as "diferenças" na forma como testemunhas deram seus depoimentos sobre a morte de Jean Charles.

Durante o inquérito, os policiais podiam responder juntos, mas os civis tinham que falar "de forma independente".

"Havia uma diferença total entre a experiência deles (policiais) e o tratamento aos civis, que tiveram que dar seus depoimentos a respeito imediatamente e de forma independente", disse o juiz-legista.

"Os policiais não passaram por interrogatórios cruzados, tendo como base que suas provas eram o produto de memórias independentes", escreveu. Em dezembro de 2008, o júri do inquérito sobre a morte de Jean Charles deu um veredicto inconclusivo a respeito da morte, rejeitando a alegação da polícia de Londres de que o caso havia sido um homicídio justificável.

A Polícia Metropolitana de Londres afirmou que foram feitas mudanças importantes em seus procedimentos. Jean Charles de Menezes foi morto pela polícia de Londres em uma estação de metrô da capital britânica em julho de 2005, ao ser confundido com um suspeito de tentativas de atentado ocorridas no dia anterior.

Wright afirmou, no relatório, que o veredicto do júri em dezembro "sugere que ocorreram falhas sistemáticas" .

O juiz-legista fez uma série de recomendações a respeito da estrutura de comando da Polícia Metropolitana de Londres, sistemas de comunicação, procedimentos de identificação e regras de conduta. Todas elas foram encaminhadas ao chefe da Polícia Metropolitana, Paul Stephenson, e à ministra do Interior britânica Jacqui Smith.

Wright também apontou a baixa qualidade das fotos usadas pela polícia para tentar apontar o alvo a ser atingido e acrescentou que os procedimentos de identificação deveriam ser revistos.

"Muitos dos policiais que deram depoimentos comentaram que as dificuldades na identificação complicaram o trabalho no dia em questão", afirmou.

Para o juiz-legista, a estrutura de comando no dia da operação, 22 de julho de 2005, foi "criticada várias vezes devido à falta de clareza e por estar sujeita a mal entendidos".

Wright acrescentou, no entanto, que a "situação sem precedentes" enfrentada pelos policiais depois das tentativas de ataques do dia anterior oferecem alguma explicação para isso.

Em um comunicado, a Polícia Metropolitana (Scotland Yard) disse que o juiz-legista reconheceu que mudanças já foram feitas, mas também destacou que "algumas questões continuam sem resolução".

"É certo que o público precisa se sentir seguro de que o processo e os procedimentos adotados pela polícia são adequados para o seu propósito, particularmente quando armas de fogo são usadas", afirmou.

"Para isso, é importante que as revisões críticas prossigam, levando em conta todas as circunstâncias que cercavam (o caso)", acrescentou.

A Polícia Metropolitana informou que está trabalhando na introdução de uma equipe dedicada de policiais que vão comandar operações envolvendo armas de fogo, em tempo integral.

A polícia também afirmou que seu novo sistema de rádio, que pela primeira vez funciona também no sistema de metrô de Londres, tratará de muitas das questões de comunicação levantadas por Michael Wright.

Nick Hardwick, presidente da Comissão Independente de Reclamações contra a Polícia, afirmou que a Polícia Metropolitana de Londres "já tomou medidas significativas para tratar destes problemas", mas acrescentou que é preciso fazer mais.

"A morte de Jean Charles de Menezes foi uma tragédia que poderia ter sido evitada e envolveu importantes falhas de organização", afirmou.

"É essencial que esforços contínuos sejam feitos para garantir que essas falhas não ocorram." O relatório do juiz-legista foi aprovado pela equipe legal que cuida do caso de Jean Charles de Menezes.

Entretanto, em um comunicado, o grupo ativista Justice4Jean (ou "Justiça para Jean") questiona a razão de, "se o conjunto de falhas identificadas agora é aceito, nenhum policial importante assumir responsabilidade pessoal ou ser responsabilizado" pelo que aconteceu.

O júri do inquérito decidiu que os policiais não gritaram "polícia armada" antes de disparar contra Jean Charles, mas a Polícia Metropolitana afirmou que vai estimular os policiais a agir de maneira diferente no futuro, a não ser que o procedimento coloque outras pessoas em risco.

"Se um policial armado não tem informações que afirmem que o suspeito tem os meios para detonar uma bomba, ele deve enfrentar o desafio, ou nos arriscamos a ver mais assassinatos pela polícia", acrescentou o grupo Justice4Jean.

"Precisamos há tempos de um debate público adequado a respeito da política de 'atirar para matar'", afirmou o grupo.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,18
    3,096
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,86
    63.521,34
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host