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23/03/2009 - 05h34

Bandeiras para Paulo Coelho

Deve haver uma pesquisa mostrando qual é o povo mais embandeirado do mundo. Aquele que mais desfralda, agita, hasteia, usa, sacode e tudo mais de decente que se possa fazer com uma bandeira, por amor, orgulho ou outro sentimento mais complexo. A bandeira, afinal de contas, é o resumo pictórico de um país, o propalado querido símbolo da pátria. Caso exista essa pesquisa, acho que os americanos ganham longe. Em época de guerra, paz e assim-assim. Nós, brasileiros, estamos, com toda certeza, no mínimo nos três primeiros lugares. Por ali, perto da China. Já me deparei com o lábaro estrelado nas ocasiões mais inesperadas. Lembro-me de um concerto do Pavarotti em Hyde Park. Milhares de pessoas ouvindo e a saudar o magnífico tenor. Atrapalhando também, tentando cantar junto com ele, naquela hora do "Nessun dorma ". Tinha picolé, cerveja, mulher de busto para fora. Tudo. E uma única e solitária bandeira brasileira agitada nos ares. Querendo dizer o que, até hoje nunca entendi. Deve ser uma espécie super-patriota de se exibir e berrar, acenando para as câmeras, "Alô, mamãe, estamos aqui!" Patriota. Essa é a palavra-chave. Uma bandeira nos confere identidade. Dá sentido e propósito a nossas vidas. Agitar os auri-verdes pendões em jogos da seleção, ou mesmo de equipes estrangeiras recheadas de players com o nome terminado em diminutivo é fácil. Duro mesmo é entrar na cabeça do camarada, ou camaradas que ergueram nossa bandeira no concerto do Pavarotti, aqui em Londres. Entendo os americanos tacarem na lapela o escudinho de sua bandeira. Mesmo porque nós só muito raramente lançamos mão da lapela. Não temos clima para isso. Para melhor ou pior, e creio que seja sempre para melhor, ou, na pior das hipóteses, meramente inofensivo, estamos lá em cima em matéria de desfraldar e agitar bandeiras. Não há brasileiro vivo que não tenha sacudido nos ares a mais humilde das bandeiras, mesmo as bandeirolas de papel. Somos de nacionalidade festiva e festivos em nossa nacionalidade. Dignos, portanto, de umas boas bandeiradas, pouco importa a ocasião.

Por isso tudo é que se me deu, na semana passada, em entrevista de uma página com o Paulo Coelho no caderno G2 do The Guardian , um desses estalos de Vieira - e não me refiro a um atacante recém-contratado pelo Barça. Paulo Coelho já vendeu ao todo, pelo mundo inteiro, perto de 150 milhões de livros. Influenciou vida e pensamento de personalidades notáveis em todas esferas da vida.

O Alquimista é o livro escrito por autor vivo mais traduzido no mundo. Paulo Coelho é membro da Academia Brasileira de Letras, sem ter causado espécie a nenhum outro autor, membro ou não da Academia, e sabemos como são vaidosos e cheios de não-me-toques os praticantes da nobre arte literária.

Paulo Coelho tem uma notável experiência de vida. Canções que beiraram o protesto, prisões, internações. Ei-lo agora, em fluente inglês (o Guardian tem um podcast registrando a ocasião), respondendo articulado a bem formuladas perguntas, duras até, da jornalista Hannah Pool, com desembaraço e lances antológicos ("Os escritores são postes. Os críticos são cachorros. Pergunte a um poste o que ele acha de um crítico. Um cachorro machuca um poste?") Chego, neste ponto, onde queria chegar. Tenho notado através dos anos uma extraordinária má vontade para com o Paulo Coelho. Não me consta que tenha gente erguido bandeiras em seu louvor. O que não aconteceria se ele se chamasse Dudu, Dedé ou Dadá e jogasse na ponta esquerda de um Manchester United, Internazionale ou Real Madrid. Senti, pela primeira vez na vida, vontade de ter nas mãos e desfraldar uma bandeira com "Ordem e Progresso" e tudo da janela de minha casa, como um casal de americanos com o filho longe defendendo a liberdade no Iraque ou no Afeganistão.

Bandeiras para Paulo Coelho, pois, irmãos. Ler, já é outra história..

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