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25/03/2009 - 05h23

Como ficar doente

Quer dizer, um pouco doente. Não muito, muito doente. Nem 8 nem 80. Lá pelos 40 e poucos. Uma gripe. Gripe braba. Dessas de arriar. Aquilo que começou com os olhos lacrimejando, uma coceirinha no nariz, uma dorzinha na garganta, finalmente, como na história do médico e do monstro ou do homem virando lobisomem, completou sua trajetória tétrica e terminou no horror que aí está: baita gripona. Não, não é caso de chamar médico ou ambulância. Já se conhece a história: um ou dois dias de molho em casa, muito líquido, vitamina C, frutas cítricas. Aspirina, se der. Não dando, ou não podendo, por outros motivos mais sérios (te esconjuro), paracetamol. Juram por aí que é a mesma coisa.

O terrível nessa história não é a solidão do homem gripado em casa o dia inteiro. O terrível é encontrar o que fazer. Ou melhor, o que der para fazer.

Para levantar a moral, um bom banho. De chuveiro, de preferência. Água de colônia, depois. É você dizendo para você mesmo: "Podem me derrubar. Mas caio limpo e cheiroso". Se cair - e você vai pelo menos ficar prostrado - caia vestido direito. Nem pensar em botar um pijama. Camisa, calça, meia. Traje: passeio. Como nas festinhas no clube. Com boa vontade, chinelo se quiser. Depois... Depois o quê? Aí é que a porca torce o rabo.

Um pequeno parêntese esclarecedor. Quando doente mas não acamado, há uma pronunciada tendência, entre outras coisas, a regredir. Lembrar-se de besteiras. Empregar expressões esquecidas e inexplicáveis. Quando e por que é que a porca torce o rabo? Passar alguns minutos ponderando a questão faz parte do espetáculo, do seu show, por assim dizer.

Nem pensar em ler. Mesmo o jornal. Nada fará sentido e você só vai ficar ainda mais deprimido. Uma certa lucidez vem com a gripe. A crise econômico-financeira global, as pessoas se matando, o horror (o horror!) cotidiano, encaixam-se à perfeição em seu estado de espírito. Os gripados sabem de coisas que os saudáveis não sabem. Agarre-se com unhas e dentes neste pensamento. Dele faça passageiro consolo. Não se preocupe. Assim que o senhor ficar bom vai se esquecer de tudo que uma gripe ensina. Que não é tão pouco assim.

A televisão, como tem pouco a mostrar ou a dizer, a não ser séries com assassinos em série, aspirantes a calouros e outras celebridades sem sentido, serve como uma espécie de quadro cafona semovente articulado.

É recomendável manter o som bem baixo. Às vezes, tocam música pop. Você já tem o prato cheio de problemas.

Falar em prato cheio: e para comer, nada? Nada. Curtir a inapetência. Aproveitar para perder uns quilinhos. Líquidos à vontade. Contanto que bem açucarados. Limonada. Sem gelo. Nada que passe perto do dietético. Não é hora para essas frescuras.

Medicar-se. A hora da medicação. Outra porca torcendo o rabo. Você está indo de Benilyn. É, eu entrego logo. Um tratamento em drágeas, que leva o subtítulo de "Day & Night". Feito na canção de Cole Porter que você, roufenho, cantarola feito um idiota pelos cantos da casa. É tiro e queda. Muitos tiros, muitas quedas. Você toma uma de manhã, outro ao meio-dia, mais uma de tarde e a última na hora de deitar (mas só na hora de deitar, a bula adverte ameaçadora). Tomo as três primeiras e aguardo a polícia chegar para me prender a qualquer momento. Apesar de vendidas sem receita, elas dão barato. Botam as tristes pessoas gripadas para jambrar. Primeiro, elas te levantam. Depois, elas te derrubam. Levanta, derruba. Derruba, levanta. A uma certa hora, elas te jogam para os lados. A paranoia do drogado permeia a sala como um incenso. Aí é capaz de ser a febre. Não juro. Sei que os danados dos comprimidos são fogo. Te ressecam todo também. E tome limonada. Glub, glub. O único remédio mesmo é ter fé. Fé e esperança. Isso também passará. Junto com todo esse mal estar e qualquer lição dele depreendida. Por enquanto, continue falando sozinho. Diga mais uma vez só para a gata (mantenha-a à distância) ouvir: "Eu sou uma pessoa profundamente infeliz".

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