UOL Notícias Notícias
 

30/03/2009 - 06h44

Rússia investe bilhões para garantir influência sobre vizinhos e manter liderança

A Rússia pretende manter sua posição de liderança no cenário internacional investindo bilhões de dólares até 2020 em uma nova estratégia de Defesa. A idéia é garantir que países da antiga União Soviética continuem sob sua área de influência, distantes da Otan e do poder do Ocidente. Segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil, diferentemente do que ocorria na Guerra Fria, quando a Rússia se preparava para um potencial confronto em escala global, hoje é muito mais importante para o Kremlin impedir que países vizinhos ameacem sua hegemonia na região. O governo russo estaria muito mais preocupado em evitar que eles fechem acordos econômicos e militares com o Ocidente à revelia - e para prejuízo - de Moscou.

"Garantir a influência nos países vizinhos é a espinha dorsal da política externa russa", diz o vice-diretor de redação do jornal russo Novayia Gazeta, Pavel Felgengauer, um especialista em Defesa. Ele afirma que, para isso, a Rússia pretende investir tanto na modernização de seu arsenal quanto na reformulação de suas Forças Armadas, tornando-as mais eficientes e compactas. "Os interesses militares da Rússia não vão muito além das fronteiras das ex-repúblicas soviéticas e para defendê-los o país precisa de uma estrutura militar mais enxuta e eficiente", afirma ele. A determinação russa de usar seu poderio militar para comprovar sua superioridade na região foi demonstrada durante a guerra da Geórgia, em agosto do ano passado.

Ignorando os apelos da comunidade internacional, a Rússia manteve uma campanha militar de duas semanas no país vizinho para garantir a autonomia da Abcásia e da Ossétia do Sul, dois territórios pró-Kremlin localizados na Geórgia. No âmbito econômico, o Kremlin criou tensões com a Ucrânia ao interromper o fornecimento de gás para o vizinho, numa disputa pelo preço que o país deveria pagar pelo produto. A suspensão do suprimento do gás russo à Ucrânia afetou milhares de lares europeus, que recebem 80% de seu gás por meio de gasodutos que passam pelo país.

Para analistas, a crise do gás foi mais um exemplo de como o Kremlin usa seu poderio energético como arma política para defender seus interesses econômicos e, no caso da Ucrânia, para instigar tensões políticas dentro do país, cujo governo tem boas relações com o Ocidente.

Pavel Felgengauer diz ainda que um sinal claro de que "os interesses da Rússia passaram de globais para regionais" é o rearmamento do país, anunciado em meados de março pelo presidente Dmitry Medvedev. Para ele, isso demonstra que o país ainda vê a Otan como principal ameaça à sua soberania. "A reforma militar é importante em um momento em que a Rússia teme que a aproximação do Ocidente com países vizinhos como Geórgia e Ucrânia (ambos cogitados para integrar a Otan ) dissemine valores ocidentais em seu território", afirma. Até o final da próxima década a Rússia deve renovar sua frota de navios de guerra e seu sistema de defesa aérea e espacial, e gastar mais de US$ 140 bilhões em compras de armamentos. Além da renovação do aparato militar, os planos do governo incluem um corte de pessoal de 13%, totalizando o número de militares para no máximo 1 milhão. O quadro de oficiais será o mais afetado, com a redução de 350 mil a 150 mil nos próximos três anos.

Alexander Golts, analista para assuntos de segurança na Rússia, afirma que os pesados investimentos na área de Defesa feitos ao longo dos últimos oito anos não se refletiram na modernização do arsenal ou no treinamento de pessoal, o que vem comprometendo a eficiência das forças russas no campo de batalha.

"A guerra na Geórgia mostrou como nossos equipamentos estão antiquados. Se o conflito fosse com outro país a Rússia poderia ter sido derrotada", acredita Golts. "Hoje há praticamente um oficial para cada dois soldados e cerca de duas mil unidades do Exército em terra. Mas apenas cerca de 20% delas estariam prontas para agir em caso de guerra", acrescenta. Alguns especialistas acreditam, entretanto, que as ambições da Rússia ultrapassem a esfera regional. Para Dale Herspring, especialista em relações cívico-militares da Kansas State University, nos Estados Unidos, ao anunciar o plano de rearmamento "a Rússia quer mostrar ao mundo que está de volta".

Herspring ressalta que os acordos de cooperação assinados ano passado entre o Kremlin e a Venezuela e os exercícios militares realizados pela Rússia no Caribe devem ser vistos como sinais de que o país também pode jogar na área de influência dos americanos. Ele afirma, entretanto, que a posse de Barack Obama nos EUA deu novo fôlego às esperanças de reaproximação entre os dois países, abrindo caminho para a possibilidade de a Rússia tentar mediar um diálogo da Casa Branca com o Irã. Em troca, segundo ele, os russos conseguiruiam fazer com que os EUA desistam de instalar o polêmico escudo de defesa antimísseis na Europa central, considerado uma ameaça por Moscou .

Mas há quem duvide que uma melhora nas relações entre a Rússia e o Ocidente seja possível. Alexander Golts aposta que a recente aproximação do país com os EUA não terá resultados práticos.

"No momento em que acordos começarem a ser assinados, a Rússia ocupará um lugar secundário na agenda de prioridades americanas", afirma. "E isto atrapalha as ambições do Kremlin de mostrar que a Rússia ainda é uma superpotência."

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,12
    3,169
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h20

    -0,90
    76.201,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host