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08/04/2009 - 07h09

Ivan Lessa: Por falar em falar

Por falar em eufemismos: o ministério de Defesa dos Estados Unidos, assim como outros órgãos oficiais, passaram a se referir à "War on terror", do governo George W. Bush, como uma "Overseas contingengy operation". Sai, pois, "Guerra ao terror", entra "Operação de contingência além-mar".

Por falar em feminismo exaltado: setores mais radicais do feminismo norte-americano criticam, de leve e em voz baixa, Michelle Obama, respeitando assim os tradicionais primeiros cem dias de novo presidente e sua respectiva primeira-dama, também conhecidos como lua-de-mel política. Por quê? A coisa vinha mais ou menos de longe. Em maio de 2007, quando Barack Obama era apenas senador, embora já sonhando alto, Michelle, advogada formada, tendo Harvard e Princeton em sua bagagem acadêmica, além do nome numa placa em firma de advocacia das mais respeitáveis, declarou à imprensa que iria abandonar o emprego que lhe rendia o também respeitável salário de perto de US$ 280 mil anuais para se dedicar ao lar, à carreira do marido e às beneficências sociais. Michelle, já beirando a iconografia dos "fashionistas", como se diz no Brasil, manteve a palavra e, dois anos depois, aí está, dando seu show onde quer que Barack vá - e como ele vai, seu! As feministas radicais espreitam e, sabidas, aguardam apenas mais um tempinho para dar início a suas cobranças.

Por falar, ainda, em Michelle Obama, que nunca é demais, no momento: pouco se comentou o fato de que, ao visitar uma escola no bairro de Islington, em Londres, a popular primeira-dama, em suas poucas palavras, teve que lê-las de um papelzinho oculto por um pódio. Da leitura, algo hesitante, mas prenhe de emoção, as jovens multiculturais londrinas, ouviram, entre outras coisas, que "nós contamos que cada uma de vocês seja a melhor pessoa que possa ser" e que "vocês também podem controlar seus destinos". O incentivo incluiu ainda a revelação autobiográfica de que, com um pequeno esforço, poderiam chegar aonde ela, de modestíssima origem, chegou, ou seja, ao posto de mulher de presidente norte-americano: primeira-dama. O equivalente, segundo uma ou duas maledicentes jornalistas britânicas, a comentarem, para desagrado geral, que, na verdade, o que Michelle estava dizendo era que bastava às mocinhas crescerem e "se casassem bem". Por falar em articulação (e como se fala) de Barack Obama: há um quê de Juscelino Kubitschek nele. Para quem viveu a época, JK, assim como BO, era admirado, entre outras coisas, por sua simpatia, seu jeito despachado, sua facilidade em se expressar, mesmo sem teleprompter, que aliás ainda não existia. Após uma reunião com o primeiro-ministro Gordon Brown, da Grã-Bretanha, o icônico, carismático e emblemático novo presidente norte-americano em coletiva com a imprensa embatucou violentamente logo na primeira pergunta, feita por Nick Robinson, editor político da BBC, perguntado se... E a pergunta também me embatuca, lendo e relendo-a no jornal. Enfim, era sobre quem seriam os culpados pela atual crise econômico-financeira. Só o jornal The Guardian, de 3 de abril, deu a transcrição na íntegra da pergunta do jornalista e da resposta presidencial, sem desperdiçar a oportunidade de, em rubricas, dar uma boa gozada, na resposta presidencial que só pode ser classificada como digna de um George W. Bush. Além das longas pausas e da pontuação de "ahns", "ahs" e "ers", o jornalista John Crace acrescentou em seus diversos comentários em caixa alta e entre aspas, aquilo que no seu entender seria a tradução literal do pensamento interior Barackiano: "Não tenho uma única pista", "Afinal, quem é esse chato desse tal de Nick Robinson?", "Eu gostaria que esse cara sumisse da face da Terra", "Acabo de entrar pelo cano", "Pronto, não tenho de novo a menor idéia do que eu estava dizendo", "Agora vou responder improvisando como puder", "Eu deveria ter tirado o time de campo quando ainda estava ganhando", "Incrível. Ninguém mais presta atenção no que eu estou dizendo. Inclusive eu mesmo", "Quer saber de uma coisa? Eu vou é me mandar. Está na hora da habitual baboseira de encerramento." Por falar em fim: mais duas semanas e acaba a lua-de-mel.

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