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20/04/2009 - 05h32

Ivan Lessa: Informatices

Outro dia mesmo, um dos assessores de imprensa mais próximos ao primeiro-ministro Gordon Brown teve de pedir demissão às pressas. Motivo simples. Foram vazados vários de seus e-mails enviados para diversas pessoas ligadas à difusão de informações políticas.

Que continham esses e-mails? Algumas peraltices das pesadas. Sugestões as mais variadas em relação a parlamentares do principal partido da oposição, o Conservador. Exemplos falam mais alto. O cavalheiro em questão aconselhava a "espalhar" que o líder dos Conservadores tinha uma doença escabrosa. Que a mulher de outro... E assim por diante. Barra pesada. O homem, o adido, foi posto contra o muro e obrigado a se demitir no mesmo dia.

Um detalhe interessante: quem pegou os e-mails marotos do ex-assessor não foram jornalistas investigativos, tipo Woodward e Bernstein, de Todos os Homens do Presidente. Isso é coisa - livro e filme - do século passado. Não. Quem pescou os "pecadilhos" foi um blogueiro. Que imediatamente pôs a boca no mundo. Não foi necessário nenhum encontro clandestino em garagem, codinomes feito "Deep Throat", nada disso. Tudo na base apenas de um computador - vai ver um laptop - e o conhecimento necessário.

Conhecimento aliás que invejo horrores. Adoraria passar trotes por e-mail. Nada de grave, nada parecido com os tolos spams que recebo diariamente nos meus diversos sítios de correspondência eletrônica. Absolutamente. Eu gostaria de mandar e-mails inofensivos e bobocas feito os trotes de minha infância. Ou, vá lá que seja, de minha infanto-juventude. Não tenho a bossa necessária. Não foi por nada que criei o adágio que hoje corre os mundos "ciber" ou simplesmente "néticos". Qual é ele? O viajante informático perspicaz ou iniciante conhece: "Para o mau internauta até o mouse atrapalha". Quando eu morrer, não quero choro nem vela, quero uma fita amarela - e essa frase gravada em minha campa ou laje sepulcral. Tem mais informatices. A polícia, nas manifestações recentes durante a realização da cúpula do G20, andou baixando o cassetete de maneira mais pesada do que o comum. Ou pelo menos, achava-se que não batiam tanto nem com tanta força em manifestante, ruidoso mas pacífico. Todas as televisões mostraram, todos os jornais publicaram, todos os sítios exibiram os clipes: um pobre coitado, de mão no bolso, indo para casa, infelizmente para ele nas imediações de uma manifestação, vem um policial dá-lhe uma bastonada nas pernas e, para culminar, empurra-o e joga no chão. O infeliz morreu, ao que parece, de ataque cardíaco. Legistas estão examinando para confirmar. Há expectativa em torno do laudo. O policial estava com o rosto protegido por uma balaclava e tirara o número de identificação do peito. Boas, pois, não eram suas intenções.

Na semana passada, veio à luz mediática outro clipezinho. Uma mulher sendo, primeiro, esbofeteada por um policial (também com identificação oculta), e, segundo, levando um golpe de cassetete pra valer na parte de trás das pernas. De novo, não foi flagrante obtido por arrojado jornalista. Apenas alguém armado de celular, desses que gravam em vídeo, claro. Subitamente, neófito implicante que sou, começo a adquirir uma certa simpatia por esses aparelhinhos.

O Irmão Grande, do romance de George Orwell, que tudo via e tudo anotava, está entre nós. Em todas as partes. Só que não é diabólica invenção de governo totalitário nenhum. É apenas um irmão ou irmã de estatura média, andando por aí com um celular de boa ou mesmo razoável qualidade. É também o blogueiro que sabe das coisas e como catar e distribuir informações de interesse público.

Em suma, com o perdão do clichê, somos todos irmãos. E cuidado com nosso celular.

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