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23/04/2009 - 06h14

Análise: Proliferação de câmeras em protestos deixa polícia mais exposta

As imagens feitas por cinegrafistas amadores de policiais britânicos agredindo manifestantes em protestos durante a reunião do G20, no dia 1 de abril em Londres, mostraram que a proliferação de câmeras no policiamento de eventos de massa mudou a forma como cidadãos comuns monitoram as autoridades.

Dezenas de câmeras aparecem ao fundo das imagens de Nichola Fisher, atingida na perna com um bastão pela polícia, e nas imagens de Alex Kinnane, atingido no rosto com um escudo da tropa de choque.

As câmeras de vídeo estão em todos os lugares e a tecnologia as tornou mais baratas, compactas e eficientes.

"Isto mudou totalmente a paisagem em termos de responsabilidade da polícia", afirma o professor Philip Stenning, criminologista da universidade britânica de Keele. "Não há nada mais que eles façam que não seja registrado." O surgimento das imagens dos protestos G20, muitas delas feitas por cinegrafistas amadores, abriu um debate na Grã-Bretanha sobre os métodos usados pela polícia para lidar com manifestações.

O governo está investigando acusações de agressões ocorridas durante o evento. O caso mais grave é a morte de Ian Tomlinson, um comerciante que foi agredido por um policial quando passava pelas ruas onde ocorreram as manifestações.

Em um primeiro momento, acreditou-se que Tomlinson tivesse morrido de causas naturais, depois de desfalecer em plena rua nos arredores dos locais de protestos. Mas, mais tarde, um vídeo gravado por um transeunte em seu celular mostrando o momento da agressão pelo policial, minutos antes, acabou colocando a polícia na berlinda. Vigilância inversa O resultado da proliferação das câmeras é óbvio em manifestações. Durante algum tempo a polícia filmava e fotografava manifestações e outros eventos públicos para identificar possíveis agitadores ou para reunir provas.

Agora, manifestantes monitoraram eventos para impedir que policiais cometam excessos e para fornecer provas em processos contra as autoridades.

Um destes grupos é o FiWatch, que se autodenomina um "grupo de pessoas que se uniu para resistir e se opor às táticas de Equipes de Inteligência Avançada". O grupo tem duas táticas: flagrar policiais que agridem manifestantes e impedir que os policiais tirem fotos em protestos.

O acadêmico canadense Steve Mann cunhou o termo "sousveillance", ou vigilância inversa, para caracterizar esse fenômeno.

Ao mesmo tempo existe a preocupação entre jornalistas a respeito dos poderes dados a autoridades para limitar as liberdades dos cidadãos. Leis antiterrorismo permitem que a polícia impeça pessoas que estão filmando agentes de segurança.

"Existe muita preocupação a respeito da sociedade de vigilância", afirma o professor Robert Reiner, da London School of Economics.

"Sempre se falou disso como os poderosos vigiando os sem poder." Contexto Tanto a polícia como os manifestantes podem reclamar pelo fato de algumas imagens serem exibidas fora de contexto.

Muitas vezes, a imprensa mostra apenas os trechos mais violentos de uma ação policial, mas ignoram os eventos que provocaram a ação e o que aconteceu depois.

"Existe uma tendência para julgamentos precipitados pela imprensa - em vez de se usar os meios apropriados na Justiça", diz o professor Stenning.

"Algumas vezes a imprensa ultrapassa os limites ao tirar conclusões baseadas em provas que não foram totalmente testadas em um contexto mais amplo." Um trecho de um vídeo pode mostrar, por exemplo, um policial atacando um manifestante. Mas talvez o próprio manifestante tenha agredido o policial momentos antes, sem nenhum registro do fato em vídeo. O problema é ainda mais grave no caso de fotografias.

"Uma fotografia não conta a história toda", afirmou um policial que não quis se identificar.

"Eu poderia estar beijando seu rosto, mas se isto for visto de uma forma errada, vai parecer que estou te dando uma cabeçada. Não mostra a série de eventos, o que aconteceu minutos antes, o que aconteceu virando a esquina." A polícia está estudando formas de usar o mesmo avanço da tecnologia para se defender. Uma das alternativas são câmeras pequenas acopladas à cabeça dos agentes.

Segundo o Ministério do Interior britânico, testes realizados pela polícia em 2006 e 2007 foram um sucesso. Além de reduzir o crime, o uso de câmeras na cabeça reduziu a quantidade de trabalho burocrático necessário em cada processo e levou a uma queda nas reclamações contra a polícia.

No período de testes, não foi registrada nenhuma reclamação contra policiais que usaram as câmeras.

Pesquisas Ainda é difícil avaliar o impacto dos "cidadãos jornalistas" - cidadãos comuns que fazem imagens jornalísticas - na forma como manifestações são policiadas.

O professor Stenning e o professor Reiner sugerem que ainda existem poucos estudos nesta área.

"Seria muito surpreendente se a maioria (dos policiais) não fosse afetada", afirmou Reiner.

Qualquer policial diria que não cometeria uma ação ilegal, com ou sem câmeras ligadas.

Mas desde a proliferação de câmeras surgiu também uma percepção geral de que qualquer uso de força - seja ela legítima ou questionável - poderá julgada sob o prisma de várias imagens capturadas em vídeo.

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