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05/10/2009 - 11h59

Após 30 anos de turbulência, Iraque conta um milhão de viúvas

Quase três décadas de guerra, totalitarismo, invasões, ocupação e rebeliões deixaram pelo menos um milhão de viúvas - e vários milhões de crianças sem pais no Iraque.

Essa foi uma estimativa, conservadora, feita pela ministra para Assuntos da Mulher do país, Narmeen Othman - embora ela tenha admitido que na realidade o número pode chegar até dois milhões.

Casar-se pela segunda vez não é visto com bons olhos na sociedade iraquiana.

Durante o governo de Saddam Hussein, apesar da brutalidade, viúvas de guerra recebiam cuidados do Estado. Agora, essas mulheres estão escondidas e vulneráveis - e o futuro de seus filhos é incerto.

A entidade beneficente al-Ethar, no oeste de Bagdá, ajuda a encontrar maridos para as viúvas que desejam se casar novamente e arrecada doações para ajudar as famílias sem pais.

A diretora da organização, Hana Badrani, disse que tem nos seus arquivos mais de duas mil viúvas, com um total de sete mil crianças cujos pais foram mortos. A maioria das viúvas não tem qualificação para conseguir um emprego.

História de sucesso O casal Iman e Hussein é uma das histórias de sucesso da al-Ethar. O marido de Iman morreu há dois anos e ela se casou novamente. Hoje, Iman e Hussein têm um filho, Yussef.

"Casar com uma viúva é bom para o homem e para as crianças", disse Hussein.

Apesar do preconceito, os amigos de Iman a aconselharam a procurar um novo marido. A mãe de Hussein, Latife, também apoiou o casamento.

"Todas essas viúvas", disse Latife. "Todas essas crianças. Quem vai cuidar delas?" Já a história da jovem viúva Umm Fatima não teve ainda um final feliz.

Fatima começou a chorar quando lhe perguntei de suas quatro crianças. O pai, Ahmad, foi morto a tiros por homens em uniformes militares há três anos, quando abastecia seu táxi.

Umm Fatima perdeu o marido e o ganha-pão da família.

Ela acredita que um novo casamento "traria mais segurança" financeira e emocional para ela e os filhos.

"Eles sentem falta do pai e, quando encontram um homem, às vezes querem ganhar um abraço", disse.

Tradição Mas a ativista iraquiana pela independência das mulheres Hanaa Edwar questiona a idéia de que casar de novo seja a melhor opção para uma viúva.

"Para sua dignidade como ser humano, as mulheres deveriam sentir que são capazes de fazer o que os homens fazem e que podem proteger suas crianças sem um homem na família", disse Edwar.

"Nessa sociedade, onde existem tradições tribais rígidas, temos de tentar criar uma nova visão para as mulheres no Iraque." Como Hanaa Edwar é cristã, é impossível não especular sobre o que ela diria aos muçulmanos, que podem argumentar que suas tradições sociais e religiosas não são de sua alçada.

"Eu me considero um ser humano, não me incomodo com religiões. Sou uma cidadã iraquiana. E, é claro, sou um ser humano internacional", responde.

Mas há inúmeras mulheres no Iraque que anseiam por um novo marido, e suas crianças, por um novo pai.

Em tom casual, a viúva Umm Ahmed, mãe de Sara, 3, me contava que seu marido foi morto a tiros quando andava na rua.

Quando a mãe terminou de falar, Sara olhou para mim e disse: "Por favor, fique com a gente".

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