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21/12/2009 - 10h30

El Salvador teme conluio de gangues locais com tráfico vindo do México

Teme-se que as 'maras' se associem aos 'narcos' mexicanos Um homem mostra sua camiseta com uma atitude desafiante: "Ninguém vai intimidar El Savador", lê-se em seu peito, em um anúncio do governo colocado em cartazes gigantes em distintas partes de San Salvador.

Os dizeres do cartaz - parte de uma campanha contra a violência - parecem adquirir um significado especial num momento em que muitos em El Salvador temem uma possível contaminação pelo conflito do narcotráfico no México.

O primeiro a levantar a voz de alerta foi o próprio presidente, Mauricio Funes, em abril passado.

"Temos a informação de que (os traficantes) entraram em El Salvador com fins exploratórios", disse Funes, referindo-se aos cartéis mexicanos, que, diante do que ele chamou de "efetividade da política" antidrogas do presidente mexicano Felipe Calderón, estavam buscando novas bases para suas operações.

Desde então, o possível avanço de cartéis como o dos Zetas em território salvadorenho e seu possível conluio com as gangues locais são seguidos atentamente pelas forças de segurança.

"Soubemos que os membros de gangues estão operando o transporte de drogas ou de dinheiro do narcocorredor que vai aos Estados Unidos passando pelo México", disse à BBC Mundo Douglas García Funes, chefe do centro regional de combate às gangues de El Salvador.

'Maras' El Salvador é um dos três países do mundo com os maiores índices de homicídio per capita.

Grande parte dessa violência é atribuída às "maras", gangues nascidas entre imigrantes salvadorenhos em Los Angeles, na década de 1980.

O Exército é presença constante em partes do país Desde então, com a deportação de vários deles à sua terra natal, as "maras" se transformaram no maior problema de segurança pública de El Salvador.

Estima-se que cerca de 15 mil jovens - homens e mulheres - pertençam a gangues no país. Algumas famílias já têm uma terceira geração de membros de gangues.

Os "mareros" têm o controle territorial de algumas zonas de El Salvador, e teme-se que a chegada de cartéis mexicanos ao país resulte em colaboração ou em confrontos.

Endurecimento Em junho passado, um incidente forçou o Estado a endurecer o combate às gangues.

Na ocasião, um grupo incendiou um micro-ônibus cheio de passageiros em um distrito da capital. Dezessete pessoas morreram carbonizadas, no que o governo chamou de "ato de terrorismo".

Pouco depois, o governo Funes impulsionou uma severa lei "anti-maras", que criminaliza a afiliação a gangues e seu financiamento (geralmente via extorsões).

Mas essa lei ainda não está sendo aplicada em sua totalidade, por causa de um debate político sobre seu alcance.

Ao mesmo tempo, o governo alocou mais de 6 mil soldados - quase a metade do efetivo do Exército - em distintos pontos "quentes" do país, incluindo fronteiras e as zonas com maior presença de gangues.

Muitos interpretam esse endurecimento como uma preparação para a ameaça representada pelos cartéis mexicanos.

"Certamente há preocupação. Mas o que tentamos fazer é agir de forma preventiva", disse à BBC Mundo o chanceler salvadorenho, Hugo Martínez.

Crueldade Talvez a pessoa em El Salvador que conhece melhor os extremos da violência seja Israel Ticas, técnico forense do Ministério Público do país.

Ticas faz a exumação de cadáveres em cemitérios clandestinos Ele é o único funcionário a cargo da exumação dos cadáveres encontrados em cemitérios clandestinos onde as gangues enterram suas vítimas.

Ticas já encontrou 38 valas em todo o país.

Seu escritório, em San Salvador, está coberto de fotos de suas descobertas macabras, difíceis de digerir para um observador casual.

Torturadas, decapitadas, mutiladas, degoladas: a violência sofrida pelas vítimas das "maras" alcança níveis aterrorizantes.

Nos últimos anos, disse Ticas, as gangues "se sofisticaram" no modo como enterram suas vítimas. "Eles as escondem mais, e é mais difícil encontrá-las. Deixam um corpo mutilado em um lugar e a cabeça a 5 km dali."

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