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07/01/2010 - 11h56

Contrabando esquenta a estagnada economia de Gaza

No dia em que Israel lançou sua ofensiva de 22 dias na Faixa de Gaza, há pouco mais de um ano, Osama e sua família perderam a maioria dos U$ 70 mil (cerca de R$ 120 mil) de suas economias de vida.

O contador de Gaza, que dá apenas seu primeiro nome, havia colocado seu dinheiro em um esquema local de investimento - vendendo até mesmo seu apartamento e as joias de sua esposa para investir.

O esquema inicialmente gerou lucros excelentes, que Osama acredita terem vindo do comércio gerado pelos túneis de contrabando do Egito para a bloqueada Faixa de Gaza.

Mas quando a violência começou, incluindo ataques aéreos contra os túneis, ele correu para recuperar sua poupança, apenas para descobrir que centenas de outras pessoas estavam fazendo a mesma coisa e que os administradores do esquema de investimento haviam desaparecido.

"Foi o maior desastre da minha vida", disse.

Exatamente para onde foi o dinheiro de Osama, e quem foi responsável, é uma das várias questões nebulosas relacionadas à economia duvidosa e informal que cresceu em Gaza sob o bloqueio israelense e egípcio.

Israel diz que o bloqueio tem como alvo o movimento islâmico Hamas, que controla Gaza e já atirou milhares de foguetes contra o território israelense na última década.

Mas alguns observadores locais e internacionais estão perguntando se o bloqueio não está, na realidade, fortalecendo o grupo.

Economia legal Depois que o Hamas expulsou o grupo rival Fatah de Gaza em 2007, Israel e o Egito reforçaram suas restrições à região, virtualmente proibindo todas as exportações e permitindo a entrada apenas de produtos básicos.

Muito da atividade econômica legal já estava paralisada antes mesmo de a operação militar israelense ter destruído ou prejudicado 700 negócios, há um ano.

Mas, ao longo dos anos, uma próspera mini-economia se desenvolveu ao redor dos túneis.

Os moradores de Gaza dependem deles para gasolina barata egípcia e produtos para suplementar os alimentos básicos que Israel deixa entrar.

Além disso, itens maiores como geladeiras, máquinas de lavar, vacas, motocicletas, carros desmontados e - de acordo com Israel - armas também são movimentados pelos túneis.

O economista Omar Shanban, de Gaza, estima que os túneis movimentem quantias entre U$ 20 e 25 milhões por mês, e forneçam dois terços dos produtos à venda na região.

Com seu ativo mercado negro, e pouco a ser investido na economia legal, Gaza foi solo fértil para o esquema no qual investiu Osama.

A administração do Hamas diz que mais de U$ 100 milhões investidos por moradores foram perdidos no que acabou se revelando algo como um esquema de pirâmide.

Os corretores inicialmente ofereceram lucros pagando "de mim para você, de você para ele, e dele para mim", segundo o ministro da Economia Ziad Zaza, "como (o coordenador de um esquema fraudulento Bernard) Madoff nos Estados Unidos".

A administração culpa dois homens, agora presos, como supostos coordenadores do esquema. Uma investigação está sendo realizada e já recuperou 16,5% do dinheiro investido.

Osama diz que inicialmente teve suspeitas sobre o esquema, mas aumentou seu investimento porque os corretores recebendo o dinheiro eram homens respeitados com boas ligações com o Hamas. Ele diz que viu até mesmo ministros do Hamas investindo.

Zaza diz que isso era parte da rede de ilusão dos criminosos.

Mas Osama acredita que algumas pessoas ligadas ao Hamas foram alertadas cedo e conseguiram recuperar seu dinheiro, e está revoltado com o fato de que muitos dos corretores ainda não foram julgados.

"Eles compraram casas, carros, jipes, terras, por que não foram condenados? Eles estão aproveitando a vida com nosso dinheiro!" Ele votou pelo Hamas em 2006 por frustração com os rivais mais seculares e nacionalistas, o Fatah, mas agora está furioso.

"Que eles respondam a Deus pelo shekel que eu gastei para ir votar por eles!" Setor privado Empreendedores locais também alertam que, ao tornar o comércio ilegal, o bloqueio está enfraquecendo o setor privado, que geralmente é mais moderado.

Israel bombardeou os túneis durante sua ofensiva, mas, um ano depois, comerciantes dizem que o volume de produtos contrabandeados está maior do que nunca.

Abu Ibrahim, que é "dono" de um túnel e fala de forma anônima, trabalha em sua loja em meio a mercadorias que vão de fogões elétricos a TVs de plasma.

Ele diz que a competição aumentou nos meses recentes e que teve que diminuir seus preços, apesar de a maioria dos itens ainda ser relativamente cara.

E, recentemente, pedreiros podem ser vistos novamente colocando cimento em misturadores em algumas fábricas de tijolos de Gaza.

O cimento está em enorme demanda para a reconstrução pós-guerra, mas quase nenhum entra através dos canais legais. Israel diz que o cimento pode ser usado para construir pistas de lançamento de foguetes e túneis militares.

Antes do bloqueio, o cimento custava 20 shekels (R$ 9) por sacola. O produto ficou então indisponível até depois da ofensiva israelense, quando começou a entrar pelos túneis custando cerca de 180 shekels.

Agora, o cimento custa entre 60 e 90 shekels por sacola - mais barato, mas ainda bastante caro e em quantidades limitadas para trabalhos de construção em larga escala.

"O Hamas não precisa de cimento, tem suficiente disso - o que o Hamas precisa, tem", disse Ali el-Haik, da Associação Palestina de Negócios.

A mensagem dele para Israel é que "ao manter o bloqueio, você acabou perdendo controle do que entra e sai de Gaza".

Imposto Acredita-se que o Hamas administra túneis próprios, e impõe algum tipo de imposto aos produtos que passam por eles.

Em seu escritório no Ministério da Fazenda, Zaza admite que não teria nem mesmo o novo aparelho de fax em sua mesa sem os túneis, mas diz que eles prejudicam o argumento ético para acabar com o bloqueio.

Ele reconhece que a prefeitura de Rafah costumava cobrar uma taxa por cada túnel construído, que seria U$ 2,5 mil, mas diz que isso agora acabou.

Zaza nega relatos de que o braço militar do Hamas leva uma parcela dos lucros dos túneis ou demanda que os proprietários forneçam um certo volume mensal de cimento a preço de custo.

Abu Ibrahim diz que não teve que pagar nenhuma taxa, mas confirma que precisa fornecer cimento. "Mas é como uma contribuição à nação, eles não nos forçam", diz.

Membros da comunidade formal de negócios acreditam que é impossível administrar um túnel sem a cooperação do Hamas.

Eles apontam o banco e a seguradora criados pelo grupo, assim como o grande hotel à beira-mar que um conhecido simpatizante do Hamas comprou neste ano, e dizem que a situação está ficando cada vez mais difícil para negócios sem ligações com o movimento - o que Zaza nega veementemente.

Um ano depois da operação israelense, há pequenos sinais de atividade econômica.

A Federação Palestina de Indústrias diz que 7% do setor estão agora operando, um aumento dos 3% do pós-guerra - em parte comprando matérias-primas contrabandeadas.

Os moradores de Gaza que recebem salários do Hamas, da Autoridade Palestina ou organizações internacionais podem comprar bens de consumo - apesar de talvez não poderem ampliar suas casas ou desenvolver negócios.

Mas 80% da população dependem de algum tipo de ajuda, e a maioria ainda enfrenta a pobreza.

Agora, o Egito começou a construir um muro subterrâneo para acabar com o comércio pelos túneis, o que pode paralisar até mesmo os poucos sinais atuais de vida econômica em Gaza.

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