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21/01/2010 - 05h52

Análise: Apagões e desvalorização da moeda colocam Chávez à prova

As crises energética e econômica na Venezuela colocarão à prova a popularidade do presidente Hugo Chávez neste ano e podem levar a um resultado desfavorável na composição do novo Parlamento que será eleito em setembro, na opinião de analistas entrevistados pela BBC Brasil.

Chávez, que está no poder há 11 anos, iniciou 2010 anunciando duas controvertidas medidas de governo: a desvalorização da moeda nacional, o bolívar, e o racionamento de energia elétrica em todo o país.

"As duas variáveis são negativas para a popularidade do presidente. Impactam o cotidiano e o bolso da população", afirmou à BBC Brasil o economista Luis Vicente León, da consultoria Datanalisis.

Há uma semana, o governo venezuelano implementou um plano de racionamento de energia que prevê cortes no fornecimento em todo o país, em dias alternados, até o mês de maio.

O anúncio do apagão provocou reação imediata na população, levando Chávez a voltar atrás, ao admitir falhas na programação dos cortes de energia, seguido da suspensão do racionamento na capital, Caracas.

De acordo com o governo, a medida visa impedir o colapso no setor energético. O abastecimento da principal hidrelétrica do país foi severamente afetado pela seca provocada pelo fenômeno climático El Niño.

A oposição, por sua vez, responsabiliza o governo por faltas de investimentos no setor.

Custo político
Para Luis Vicente León, diferentemente do que costuma ocorrer na Venezuela, onde a popularidade do presidente é superior à aprovação de seu governo, a tendência tende a não se repetir nesta oportunidade.

"Em ambos os casos, é muito difícil que o governo consiga construir bodes expiatórios que liberem o presidente do custo político dessas medidas", afirmou.

No bairro de La Vega, na periferia de Caracas, a moradora Fany Rudy não responsabiliza diretamente ao presidente pelas dificuldades energéticas e econômicas. "A desvalorização eu nem entendo muito bem. Para quem é pobre, não muda muito, eu não tenho dólar", disse Fany à BBC Brasil.

Desde 2003, o governo vinha mantendo a taxa oficial de câmbio estável de 2,15 bolívares por dólar. Pelo novo sistema cambial, implementado em 8 de janeiro, um dólar será correspondente a 2,6 bolívares para importações de produtos de primeira necessidade, como alimentos e medicamentos, e a 4,3 bolívares nas transações para a compra de produtos considerados não essenciais.

Em relação ao racionamento de energia, Fany disse compreender a necessidade de economizar eletricidade. "Não choveu, a represa secou e temos que economizar", disse. Porém, esta moradora da periferia, que ganha a vida alugando máquinas de lavar roupa no bairro, argumenta, assim como a maioria dos moradores entrevistados pela BBC Brasil, que o governo poderia ter evitado a crise, criando fontes alternativas de energia.

"Mas não adianta, o presidente fala, mas ninguém executa. Precisaríamos de uns quatro ou cinco Chávez no governo para construir o mundo que ele diz, mas não é bem assim", disse.

"Chávez quer implantar o socialismo, mas os funcionários não acreditam nisso e estão enriquecendo. Então o socialismo só vale para nós (população) e eles (ministros) continuam vivendo no capitalismo?", questionou Fany.

A seu ver, aliada à crise energética, a ineficiência do governo no combate à violência e à corrupção podem minar a base de apoio do presidente venezuelano. "A água tanto bate até que fura. As pessoas vão se cansando", acrescentou.

Novo modelo econômico
A desvalorização da moeda também duplicará o ingresso fiscal do governo, que vem prometendo injetar a receita no desenvolvimento do aparelho produtivo nacional, que foi duramente afetado pela onda de importações subsidiadas com o dólar cotado a 2,15 bolívares.

Na avaliação do economista e ex-ministro de Indústria Víctor Álvarez, esta é uma oportunidade para o governo modificar o modelo baseado na exportação do petróleo.

Para ele, mudanças no modelo econômico que levem à industrialização do país poderão diminuir o custo político de uma iminente manutenção da inflação e da perda de poder aquisitivo de grande parte da população.

Nesta semana, Chávez anunciou um reajuste do salário mínimo em 25%, patamar inferior às projeções de analistas econômicos, que previam que a inflação deverá manter a alta de 30% registrada no último ano.

"O risco da queda popularidade do Chávez é o que obriga o governo a reagir. A medida tenta impedir males maiores", afirma Alvarez à BBC Brasil.

A seu ver, o Executivo deve apostar na reativação da economia, apostando em investimentos na agricultura e indústria para reverter o cenário de crise.

"É imprescindível que a desvalorização não fique como uma medida isolada para que seu efeito não se anule", afirma Álvarez, ao acrescentar. "Se os setores produtivos crescerem e novos empregos estáveis forem gerados, isso potencializará a popularidade de Chávez".

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