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24/02/2010 - 20h00

Argentina recorre à ONU para rediscutir soberania das Malvinas

O ministro das Relações Exteriores argentino, Jorge Taiana, se encontrou nesta terça-feira com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, em Nova York, para pedir a ajuda da entidade para convencer a Grã-Bretanha a rediscutir a soberania sobre as Ilhas Malvinas.

"Nós pedimos ao secretário-geral para que, dentro do sistema de sua boa administração, esclareça à Grã-Bretanha a necessidade de se abster de tomar novas decisões unilaterais", disse Taiana a jornalistas após o encontro na sede da ONU.

Taiana voltou a afirmar que o governo argentino considera a decisão da Grã-Bretanha de explorar petróleo nas ilhas Malvinas como "ilegal e contrária às leis internacionais". Segundo ele, a ação "afeta o direito de todos os argentinos".

O chanceler afirmou ainda que o secretário da ONU "não está feliz em saber que a situação piorou".

Em uma coletiva de imprensa antes da reunião, o porta-voz de Ban afirmou que ele estaria disposto a escutar as reclamações do governo argentino.

"A ONU sempre está disposta a mediar, mas há uma condição: deve haver duas ou mais partes. As duas partes devem querer, não apenas uma", disse.

Após o encontro, Taiana disse que a Argentina está disposta a dialogar com a Grã-Bretanha, mas que os britânicos teriam "rejeitado sentar para conversar e cumprir com as recomendações das Nações Unidas".

Disputa
A Argentina alega que a exploração de petróleo por parte de uma empresa britânica a cerca de cem quilômetros do arquipélago, iniciada na última segunda-feira, desrespeita uma resolução da ONU que proíbe atividades em águas sob disputa internacional.

Por isso, o governo argentino impôs restrições à navegação no entorno das ilhas. Pelo decreto aprovado, todas as embarcações com destino às Malvinas ficaram obrigadas a pedir uma autorização do governo para navegar em águas argentinas.

O governo britânico, porém, defende que sua ação é completamente legítima.

"A soberania britânica com relação às Falklands (como os britânicos chamam as Malvinas) é absolutamente clara na legislação internacional", disse o ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, David Miliband.

Em entrevista à BBC Mundo, o secretário para a América Latina e Europa da chancelaria britânica, Chrys Bryant, enfatizou também o direito à autodeterminação dos moradores das Malvinas.

"Não temos nenhuma dúvida sobre essa soberania, Nós acreditamos na autodeterminação dos moradores da ilha para decidir seu futuro. Eles querem ser britânicos", disse Bryant.

Apoio latino-americano
O governo da presidente Cristina Kirchner conquistou importante apoio nos últimos dias à sua causa durante encontro da Cúpula da América Latina e Caribe, em Cancún.

"Nós aprovamos uma declaração em que os líderes dos países e governos aqui presentes reafirmam seu apoio ao direito legítimo da Argentina em sua disputa com o Reino Unido sobre sua soberania", declarou o presidente mexicano, Felipe Calderón.

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva foi um dos que defendeu a posição defendida pela Argentina.

"Qual é a explicação geográfica, política e econômica de a Inglaterra estar nas Malvinas? Qual a explicação política de as Nações Unidas já não terem tomado uma decisão dizendo: não é possível que a Argentina não seja dona das Malvinas e seja um país (Grã-Bretanha) a 14 mil quilômetros de distância?", questionou o presidente.

Markus Schultze-Kraft, diretor para a América Latina e o Caribe do International Crisis Group, instituto especializado em análise política, compara o apoio atual ao que ocorreu em 1982.

"Esse apoio à Argentina demonstrado no episódio atual contrasta com o que ocorreu durante a Guerra das Malvinas nos anos 80. Naquela ocasião, alguns países, como o Chile, apoiaram a Grã-Bretanha, enquanto outros se mantiveram neutros", disse em entrevista à BBC Brasil.

"Decisão unilateral"
"Considerando que a Argentina nunca interrompeu seus esforços diplomáticos para recuperar a soberania sobre as Malvinas e que houve uma guerra entre os dois países por causa da ilha, o certo teria sido o governo britânico ter procurado o governo argentino para conversar, ao invés de tomar essa decisão unilateral de explorar petróleo lá", disse Schultze-Kraft à BBC Brasil.

Na visão da presidente argentina, a atitude britânica não envolve apenas uma questão de soberania.

"Isso tem a ver com a história da região e do mundo ao longo dos últimos dois ou três séculos", declarou Kirchner, referindo-se ao histórico de colonialismo europeu na América Latina.

A colunista do diário britânico The Times Bronwen Maddox entende que essa referência ao colonialismo tende a tornar difícil para o governo britânico defender sua posição na região.

"É fácil retratar as Falklands como uma anomalia antiquada", escreveu em coluna publicada nesta quarta-feira.

Apesar do teor e do calor dos debates entre argentinos e britânicos, ninguém imagina que uma nova Guerra das Malvinas possa ocorrer.

"Não acredito que essa situação possa deteriorar a ponto de gerar um novo confronto militar entre a Argentina e o Reino Unido. O governo argentino já deixou claro que não tem intenção alguma de levar essa questão além da arena diplomática", analisou Schultze-Kraft.

Histórico
As Malvinas pertencem à Grã-Bretanha, mas elas ficam geograficamente próximas do litoral da Argentina, que reivindica a soberania sobre a região desde o século 19.

A Argentina invadiu o arquipélago em abril de 1982, iniciando uma guerra com a Grã-Bretanha. A vitória britânica, em junho do mesmo ano, não impediu Buenos Aires de continuar aspirando ao controle sobre as ilhas.

Os argentinos acreditam que herdaram o território dos colonizadores espanhóis, que disputaram a soberania sobre o arquipélago no século 18 com os britânicos.

Grã-Bretanha e Espanha chegaram a estabelecer colônias simultâneas nas ilhas, mas os britânicos abandonaram o assentamento, abrindo caminho para a presença de colonos argentinos - que, depois, foram expulsos pelos britânicos.

O principal argumento britânico para manter a soberania sobre as Malvinas é que, hoje, a população local é britânica e prefere manter os laços coloniais.

No conflito de 1982, mais de 900 pessoas morreram, sendo que dois terços das vítimas eram da Argentina.

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