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25/03/2010 - 15h35

Escândalos podem forçar papa a abrir arquivos secretos, diz vaticanista

Um especialista em Vaticano disse à BBC Brasil que, com a série de denúncias de abusos sexuais contra menores cometidos por religiosos católicos, o papa Bento 16 poderá ser obrigado a divulgar arquivos secretos do Vaticano.

Segundo Marco Politi, o Vaticano terá que escolher entre seguir na linha de transparência ou voltar atrás.

"O papa está numa encruzilhada e terá que abrir os arquivos secretos da Congregação para a Doutrina da Fé se quiser ser coerente com a transparência que defende", disse ele em entrevista à BBC Brasil.

Na avaliação do vaticanista, Bento 16 foi muito rigoroso e corajoso na carta aos irlandeses, publicada no sábado passado, ao exigir total transparência e afirmar que os padres responsáveis por abusos sexuais contra menores devem ser punidos.

"O papa disse que deve haver punição e que as vítimas não foram ouvidas. Deve então ser coerente com esta linha e abrir os arquivos do Santo Ofício. Tendo feito uma carta tão rigorosa e transparente, ou volta atrás sobre a transparência ou deve ir até o fim", afirma o vaticanista.

O tribunal do Santo Ofício, ou Inquisição, era o antigo nome da atual Congregação para a Doutrina da Fé, órgão da cúria romana responsável pela ortodoxia da Igreja Católica e pelas questões disciplinares. Joseph Ratzinger foi prefeito da congregação de 1981 até 2005, ano em que foi eleito papa Bento16 Na avaliação do vaticanista, após terem surgido denúncias em diversos países, o escândalo da pedofilia agora entrou no Vaticano.

"O furacão da pedofilia, depois dos Estados Unidos e da Europa, chegou na Alemanha, pátria do papa, depois na diocese do papa, agora dentro do Vaticano, na Congregação da Doutrina da Fé, onde Joseph Ratzinger foi prefeito, apontando para a sua responsabilidade direta", disse Marco Politi.

3 mil casos A denúncia de novos casos de pedofilia envolvendo um padre americano, divulgada pelo jornal The New York Times nesta quinta-feira, tornaram o quadro ainda mais grave.

Segundo o analista, após o caso denunciado pelo jornal, o importante não é mais saber o que foi feito nas dioceses dos Estados Unidos, da Alemanha, Irlanda ou Holanda, mas sim o que houve com os 3 mil casos de abusos assinalados ao Vaticano.

"Monsenhor Charles J. Scicluna, (promotor de justiça da Congregação para a Doutrina da Fé) afirmou dias atrás que houve 3 mil denúncias de abusos contra menores nos últimos dez anos. O que aconteceu com estas denúncias? Quantas foram julgadas? Quantos religiosos foram considerados culpados e quantos foram punidos? É preciso dar explicações e não admitir mais que os casos sejam ocultados", disse Politi.

O vaticanista considerou "fraca" a primeira reação do Vaticano, que definiu como "trágico" o caso denunciado pelo jornal americano.

Segundo o The New York Times, o Vaticano havia sido informado a respeito dos abusos cometidos pelo padre Lawrence Murphy, que molestou cerca de 200 crianças de uma escola para surdos no Estado do Wisconsin, ao longo de 24 anos, mas não tomou nenhuma providência.

O jornal afirma ter tido acesso aos documentos que as vítimas apresentaram à Justiça, entre eles a correspondência entre os bispos dos Estados Unidos e as autoridades do Vaticano, entre elas o cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e seu vice, cardeal Tarcisio Bertone, atual secretário de Estado vaticano.

"O trágico caso do padre Lawrence Murphy, da arquidiocese de Milwaukee envolveu vítimas particularmente vulneráveis que sofreram terrivelmente com o que ele fez. Cometendo abusos sexuais contra crianças surdas, violou a lei e sobretudo a confiança que suas vítimas tinham nele", diz uma nota do Vaticano, assinada pelo porta-voz Federico Lombardi, divulgada nesta quinta-feira.

Padre Lombardi afirma que algumas das vítimas de padre Murphy denunciaram os abusos para o tribunal civil nos anos 70, mas as investigações não prosseguiram e o Vaticano teve conhecimento dos casos apenas 20 anos depois.

Direito canônico Segundo o porta-voz do Vaticano o sacerdote acusado não foi punido e expulso da Igreja porque o direito canônico não prevê "punições automáticas" mas recomenda que seja feito um processo que pode levar até à expulsão do religioso.

"Considerando que padre Murphy era idoso, muito doente e vivia em isolamento, sem outras denúncias de abusos por mais de 20 anos, a Congregação para a Doutrina da Fé sugeriu ao arcebispo de Milwaukee que limitasse as atividades dele, exigindo que assumisse a responsabilidade da gravidade de seus atos", diz a nota do porta-voz do papa.

Padre Federico Lombardi informou que a Igreja Católica nunca proibiu que os casos de abusos contra menores fossem denunciados à Justiça Civil.

Na edição desta quinta-feira, o L'Osservatore Romano (jornal oficial da Santa Sé) diz que a denúncia feita pelo The New York Times, tem o "ignóbil objetivo de atingir o papa e seus colaboradores de qualquer jeito".

"A tendência que prevalece na mídia é de não dar atenção aos fatos e forçar as interpretações para difundir uma imagem da Igreja Católica como se fosse a única responsável por abusos sexuais", diz o jornal, que rebate cada acusaçao feita no artigo do The New York Times.

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