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15/04/2010 - 11h36

Brasil quer empenho de Brics por reforma do sistema financeiro

O governo brasileiro quer que os quatro maiores países emergentes da atualidade - Brasil, Rússia, Índia e China - atuem com "mais empenho e união" para promover uma reforma do sistema financeiro internacional. Segundo um representante do Itamaraty, esta deve ser a principal mensagem do Brasil durante a 2ª cúpula de chefes de Estado dos Brics, na noite desta quinta-feira, em Brasília. "O pior da crise econômica já passou, mas não podemos perder o momento para avançar nesse debate", diz a fonte. A avaliação é de que Brasil, Índia, Rússia e China têm peso econômico suficiente para "forçar" uma reforma em instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, mas que, para isso, precisam de "coordenação, de empenho". O subsecretário de Assuntos Políticos do Itamaraty, embaixador Roberto Jaguaribe, disse que existe uma "pressão crescente" na esfera internacional de que a reforma do sistema "não seja necessária". "Temos uma preocupação em levar adiante as reformas necessárias para evitar que a crise se repita. Precisamos consolidar esse processo, porque alguns países já estão achando que (as reformas) não sejam importantes", disse o embaixador. Citando estimativa do Fundo Monetário Internacional, Jaguaribe disse que os Brics serão responsável por 61% do crescimento econômico mundial, no período de 2008 a 2014. A sigla Bric foi criada em 2001 pelo banco de investimentos Goldman Sachs, em um artigo sobre as potências econômicas do futuro, e acabou sendo abraçada pela diplomacia dos quatro países. A cúpula dos chefes de Estado, inicialmente prevista para sexta-feira, foi antecipada a pedido do presidente da China, Hu Jintao. O líder chinês, que ficaria em Brasília até a manhã de sábado, antecipou sua partida para a noite desta quinta-feira devido aos fortes terremotos que atingiram a província de Qinghai, no noroeste da China. Moeda Sobre a discussão quanto a uma moeda que sirva de alternativa ao dólar, Jaguaribe disse que o assunto continua sendo analisado pelos quatro países, mas "ainda em nível técnico". O tema dominou a 1ª cúpula dos Brics, em junho passado, depois que o governo chinês apontou a "primazia" do dólar americano como um dos responsáveis pela disseminação da crise. De acordo com Jaguaribe, os quatro emergentes têm "fortíssimo interesse" na manutenção do equilíbrio na área financeira, mas a discussão sobre uma nova moeda será feita "sem pressa". Segundo o embaixador, os representantes dos Brics estão preocupados em promover uma substituição do dólar que seja "imperceptível" e "sem especulação". "Inventar jogadas que vão gerar marolas não faz parte dos planos de nenhum dos países envolvidos", disse Jaguaribe. "Não estamos pensando em uma mudança rápida", acrescentou. O assunto, segundo ele, não será incluído na pauta formal de debate dos chefes de Estado, estando restrito a um seminário, promovido pelo Banco Central do Brasil, com técnicos das instituições dos quatro países. 'Ponto forte' Segundo o Itamaraty, o "ponto forte" da coordenação entre os Brics têm sido as áreas financeiras e econômica, com conversas "frequentes" entre Bancos Centrais e Ministérios da Fazenda dos quatro emergentes. "E a expectativa é de que o foco siga sendo esse", disse uma fonte do Ministério. Por sugestão do Brasil, a reunião de chefes de Estado é precedida por uma série de eventos paralelos. Além de empresários dos quatros países, representantes dos respectivos bancos de desenvolvimento e de bancos comerciais também se reúnem em Brasília nesta semana. Uma fonte do Ministério da Fazenda disse à BBC Brasil que o governo brasileiro, principalmente, sente-se "incomodado" com a "ausência" de bandeiras de bancos brasileiros em outros países em desenvolvimento. "Estamos discutindo com nossos pares nos outros três países uma forma de estimular a presença dessas instituições nesses países, o que facilitaria em muito o comércio", diz o representante da área econômica. A avaliação do governo brasileiro é de que as instituições brasileiras, apesar de fortes no mercado nacional, não estão acompanhando a "nova dinâmica das relações comerciais entre os países do Sul". Política Se no campo econômico a discurso do governo brasileiro é de que os Brics "já mostram avanços", quando o assunto é a atuação política, a avaliação é de que o grupo deixa a desejar. Assuntos como a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a política nuclear internacional e as mudanças climáticas ainda não são tratados com frequência entre os quatro emergentes. Na avaliação de Jaguaribe, os Brics se destacam pelos trabalhos na área econômico-financeira, mas "sem uma mudança equivalente no âmbito político-estratégico". "Existe aí um espaço, em que nós batalhamos para que haja uma evolução compatível com as demandas e a expansão dos atores relevantes do mundo", diz o embaixador. Temas como o programa nuclear iraniano e um possível acordo climático serão discutidos em encontros "privados" entre os chefes de Estado, ou seja, não fazem parte da pauta formal da cúpula. IBAS Na tarde desta quinta-feira, horas antes do encontro dos Brics, o Brasil também é o anfitrião de uma outra cúpula de chefes de Estado, no âmbito do IBAS - grupo formado por Índia, Brasil e África do Sul. Esse é o quarto encontro desde que o grupo foi criado, em 2003, com o objetivo de unir os países do Sul em contraposição aos países ricos do Ocidente, representados principalmente pelo G8. Entre os destaques da cúpula está um encontro com o chanceler palestino, Riad Malik, recebido em Brasília para discutir o processo de paz no Oriente Médio. Segundo Jaguaribe, o encontro foi pedido pelos próprios palestinos, que segundo o embaixador, veem no IBAS uma instância "imparcial", capaz de contribuir nas conversas com Israel.

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