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06/05/2010 - 05h19

Lucas Mendes: Sombra na elite, sol no tabloide

Na Filadélfia, que divide com Phoenix a quinta posição entre as maiores cidades americanas, você encontra alguns dos melhores bairros e subúrbios do país, mas nos bairros pobres a barra pesa.

Quando Ventura Martinez entrou na redação do Philadelphia Daily News com medo de ser assassinado foi parar nas mesas de duas veteranas repórteres que cobrem de tudo no tabloide. A história dele arrepiou: tinha sido informante de Jeffrey Cujdik, um dos mais condecorados policiais da tropa de elite no combate ao tráfico.

Quando surgiu uma denúncia de que o informante morava - e pagava aluguel - numa das casas do policial, a relação entre eles azedou. Martinez foi despejado. Em pânico, com medo de ser assassinado pela polícia ou por um traficante, procurou o jornal.

Em troca da proteção, ele tinha centenas de denúncias que foram serializadas em trinta reportagens em dez meses sob o título "Tainted Justice" ("Justiça maculada"). A primeira delas foi uma das mais contundentes.

A turma da tropa de elite entrava numa destes mercadinhos de imigrantes - bodegas, entre os latinos - com armas na mão e davam voz de prisão ao dono porque estava vendendo uma "parafernália" de drogas. A prova do crime era uma sacolinha de plastico - ziplock, que tem varias funções, mas os traficantes usam para vender cocaína e maconha.

O dominicano Jose Duran tinha acabado de comprar a loja e não se preocupou com os saquinhos, comprados e vendidos legalmente no país inteiro. Uma das primeiras ações da tropa de elite foi destruir as câmeras do sistema de segurança. Depois avacalharam a bodega e roubaram US$ 7 mil em cash de Duran. No boletim de ocorrência disseram que ele tinha US$ 1 mil em caixa. Ao todo, 16 pequenos comerciantes sofreram o mesmo abuso. Muitos são ilegais ou desconfiam de bancos. Pagam seus fornecedores em dinheiro. Vários abandonaram seus negócios por medo ou falta de capital para recomeçar.

Os policiais não imaginavam que o jeca dominicano - nem falava inglês - pudesse ser um competente internauta capaz de montar um sofisticado sistema de circuito fechado de vídeo e áudio que gerava as imagens da bodega para o computador dele em casa. Quando a primeira matéria foi publicada, a poderosa Associação dos Policiais da Filadélfia convocou a imprensa para uma coletiva e os líderes desancaram as duas repórteres.

Os endereços delas foram colocados na internet, policiais diziam a elas: "Tomara que um dia vocês sejam estupradas e assaltadas e não apareça ninguém para salvá-las". Um advogado ameaçou processá-las. Numa das entrevistas durante a reportagem, Barbara Laker levou dois tapões na cara de uma informante de Cujdik.

As duas repórteres dão crédito a outros policiais que ajudaram a identificar os corruptos "porque a maioria dos policiais é honesta e sabe que precisa da ajuda da população para combater a violência". Sem eles, as reportagens não teriam avançado.

Os leitores do Daily News são, em geral, conservadores e pró-polícia, mas a intensa reação negativa inicial foi congelada e a atitude mudou quando o jornal publicou, na primeira página, as imagens dos policiais destruindo as câmeras e cortando os fios, e as transcrições dos comentários debochados sobre a "operação" dominicana.

Em outra matéria, as duas denunciam um investigador que bolinava as mulheres dos suspeitos presos. O apelido dele era Homem do Peito. Um fetiche. Mas a série mais consequente e incriminante foi de prisões de traficantes falsamente acusados de vender cocaína que tiveram suas casas invadidas com ordens de busca e apreensão manipuladas graças ao informante.

O FBI e a própria polícia da Filadélfia investigam as denúncias. Seis policiais, inclusive o condecorado Cujdik, foram afastados e estão em funções burocráticas enquanto aguardam os resultados das investigações.

Dezenas de presos foram soltos, inclusive perigosos traficantes, porque as investigações e os processos foram contaminados. Quinze presos processam a cidade que poderá pagar milhões em indenizações.

Na semana passada a série das duas repórteres, competindo com o que há de melhor e mais rico na imprensa dos Estados Unidos, ganhou o Pulitzer, o Oscar do jornalismo americano.

Quase no mesmo dia do prêmio, o jornal, que estava em concordata, foi comprado pelos credores. A redação não sabia se chorava ou comemorava. Na década de 30, o Daily News imprimia 200 mil jornais por dia. Hoje circula com 94 mil e dá prejuízo.

Se não houvesse um jornal local, quem investigaria denúncias contra a polícia da Filadélfia? Barbara me disse que, desde o prêmio, recebeu, por e-mail, uma oferta vaga de trabalho. O futuro do jornal e dos outros 15 repórteres continua incerto. Ela está na faixa dos 50. Wendy tem 40 anos. Mais cedo ou mais tarde Hollywood vai bater na porta delas.

Graças às duas e ao Daily News, a Filadélfia tem hoje uma Justiça mais limpa, mas não há Hollywood capaz de salvar a imprensa escrita.

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