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07/05/2010 - 06h00

Guerrilha paraguaia é como 'câncer que pode se alastrar', diz analista

O Paraguai vive em estado de tensão desde que o governo do presidente Fernando Lugo estabeleceu a condição de estado de exceção em cinco departamentos (Estados) do país, sob a justificativa de combater o chamado Exército do Povo Paraguaio (EPP), grupo armado acusado de promover roubos, sequestros e assassinatos nestas regiões.

Embora a ofensiva contra o grupo envolva mais de 3 mil homens, oficialmente, o governo do Paraguai afirma não considerar o grupo guerrilheiro como uma ameça à estabilidade do país.

Esta situação, no entanto, pode mudar nos próximos anos, caso o grupo não seja efetivamente combatido, na opinião do analista político Francisco Capli, da consultoria paraguaia First Análisis y Estudios.

Narcoguerrilha

Para Capli, o EPP hoje não tem o poder de desestabilizar as instituições paraguaias, mas, por terem ligações com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e possivelmente com narcotraficantes, a guerrilha paraguaia pode se tornar um problema "muito grande" para o país nos próximos cinco anos.

Ele ainda afirma que existe a possibilidade de o grupo também passar a atuar inclusive em território brasileiro.

"O EPP pode se transformar em uma narcoguerilha e, se você não atacar, pode tomar todo o Paraguai, e o Brasil não ficaria de fora", diz Capli, que afirma que facções criminosas brasileiras como o Comando Vermelho e o PCC já atuam nos dois lados da fronteira.

"É como um câncer em estado inicial. Se não for combatido, pode tomar o corpo todo. É preciso prestar atenção a isso", diz.

O analista ainda critica a posição do assessor especial da Presidência brasileira para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, que na última quarta-feira chegou a classificar o EPP como uma "peça de ficção".

"O EPP não é uma fantasia. O EPP é sim uma ameaça real, porque há gente morrendo e sendo ameçada em regiões do norte do país, como São Pedro e Concepción. Há muita gente com medo e sendo ameaçada", diz.

Brasileiros

De acordo com a imprensa paraguaia, o EPP foi criado em 1990, como o braço armado do extinto Partido Pátria Livre, de orientação socialista.

O grupo é acusado de sequestros e assassinatos ocorridos em regiões do norte do Paraguai. No alvo do EPP estariam inclusive brasileiros que possuem terras no país.

Uma das primeiras ações em que o grupo se apresentou sob o nome de Exército do Povo Paraguaio ocorreu na madrugada de 12 de março de 2008, na fazenda do brasileiro Nabor Both, localizada na cidade de Horqueta, Departamento de Concepción, a cerca de 420 quilômetros de Assunção.

De acordo com Both, um grupo invadiu a propriedade de cerca de 3 mil hectares durante a madrugada, queimando depósitos e destruindo tratores. Alarmados com a destruição, empregados da fazenda correram até o local, sendo recebidos com tiros. Ninguém se feriu.

Antes de saírem, os membros do grupo fizeram incrições com a sigla EPP em uma caixa d'água e deixaram panfletos do grupo no local. Após o ataque, Both decidiu vender a fazenda.

Sequestro

Mais recentemente, no último dia 21 de abril, a fazenda de outro brasileiro, Jorge Zenatti, também em Horqueta, foi alvo de outro ataque atribuído ao EPP.

Segundo Zenatti, após perceberem que um boi havia sido morto, funcionários de sua fazenda e de uma propriedade vizinha foram junto com a polícia averiguar o ocorrido.

Eles teriam sido então surpreendidos por balas disparadas por integrantes do EPP. Dois brasileiros e dois paraguaios, entre eles um policial, foram mortos no incidente.

Em varreduras posteriores, a polícia teria descoberto inclusive supostos acampamentos abandonados do EPP na região.

Zenatti, que vive na cidade de Dourados, no Mato Grosso do Sul, conta não ter retornado à fazenda desde então.

"Não sei se estavam lá por estarem cercados pela polícia ou se planejavam me sequestrar", diz.

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