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13/05/2010 - 11h32

Copa cria expectativa de geração de empregos

Já no aeroporto da Cidade do Cabo, África do Sul, a Copa do Mundo se faz presente por todos os cantos: cartazes, propagandas, produtos. O cenário é parecido nas ruas, praias e pontos turísticos. Mas além da expectativa, existem dúvidas sobre se a Copa trará os benefícios prometidos ao país, que tem o maior índice de desigualdade do mundo, de acordo com a ONU.

A África do Sul tem aproximadamente 50 milhões de habitantes, e, apesar de ser o país com a economia mais forte do continente africano, tem quase 40% da população vivendo abaixo da linha de pobreza - com pouco mais de R$ 3 por dia. De acordo com dados oficiais, uma em cada quatro pessoas no país está desempregada.

A Copa do Mundo inspirou programas de geração de emprego e de ajuda às comunidades carentes. Um deles é o projeto Laduma (gol, na língua zulu), no qual um grupo de 2.010 pessoas de diversas regiões do país, grande parte desempregada, vem sendo treinadas para ser sommeliers, especialistas em vinho. A idéia é que eles supram a falta de profissionais na área, necessários para atender a alta demanda de turistas esperados durante o evento.

Alguns dos estudantes já trabalhavam em restaurantes e hotéis, mas para muitos o mundo dos sabores e aromas do vinho era desconhecido. O treinamento é todo baseado na comparação da bebida com animais encontrados na África, numa tentativa de aproximar o aprendizado à realidade de cada aluno.

Segundo um dos instrutores do programa, Fasie Malherbe, existe uma grande carência de mão-de-obra qualificada no setor e a demanda pelos novos profissionais não deve acabar com o último apito da Copa.

Francisco Domingues, de Angola, é um dos aprendizes. Ele deixou seu país há seis anos em busca de emprego. Ele conta que antes do curso só "sabia o que era vinho branco e vinho tinto", mas que agora acredita em um futuro mais promissor.

"Estamos à espera das oportunidades da Copa do Mundo, acho que há sinais de que serão muitas", diz Domingues.

O projeto Laduma foi financiado com as vendas do vinho Fundo (aprendiz, em zulu), criado especialmente para a iniciativa. A indústria vinícola sul-africana está entre as dez maiores do mundo e gera quase 300 mil empregos.

As expectativas de geração de emprego e de novas oportunidades econômicas com a Copa não se limitam à indústria do vinho, entretanto. De acordo com pesquisa da consultoria Grant Thornton, a economia local deve apresentar um crescimento de 0,5 % em decorrência do evento, com uma injeção de cerca de R$ 2,9 bilhões nos cofres do país.

Margarety Sefu, que ganha a vida vendendo artesanato, e todos os meses envia dinheiro para sustentar a família que ficou no Quênia, acha que 2010 será o melhor ano de sua vida.

"Tenho grandes expectativas com a Copa do Mundo, estou à espera deste evento há muito tempo. Nós esperamos fazer dinheiro", diz Margarety.

Apesar do otimismo, nem todos acham que tudo é festa. Existem dúvidas sobre se os lucros serão tão grandes quantos o esperado, e sobre se os benefícios serão suficientes para cobrir os gastos de quase R$ 8 bilhões com a realização o evento.

Inicialmente, a previsão era de que a África do Sul iria receber 450 mil visitantes durante o evento, e de que mais de 400 mil empregos diretos e indiretos seriam gerados. Mas com o ritmo lento da venda de ingressos, a própria Fifa admite que o número deve cair para menos de 350 mil.

Entre os fatores que devem influenciar na decisão dos turistas de vir ou não para a África do Sul está a questão de segurança pública. No país, todos os dias ocorrem cerca de 50 assassinatos, cem estupros e 700 assaltos. O governo sul-africano nega que a criminalidade será um problema durante a Copa, e informa que 41 mil policiais estão sendo preparados para sair às ruas. Os altos preços das passagens aéreas e acomodação também são vistos como obstáculos.

Benefícios para uma minoria Críticas se espalham pelo país, afirmando que a Copa só trará lucro para uma minoria. Regulamentações impostas pela Fifa proíbem a venda de artigos não oficiais nas regiões próximas aos estádios, prática tradicional durante os jogos. Quem usar as palavras Copa do Mundo 2010 sem permissão oficial pode até ser preso.

O show de abertura do evento também chegou a ser alvo de controvérsia, com músicos africanos criticando a falta de nomes regionais entre os artistas escalados. Depois de muita reclamação, esta semana a Fifa anunciou uma lista com artistas sul-africanos e do continente africano, que agora também participarão do show.

A especialista em eventos esportivos de grande porte, Scarlett Cornelissen, professora do departamento de Ciências Políticas da Universidade de Stellembosch, explica que inicialmente a ideia da Copa foi vendida para os sul-africanos ressaltando as vantagens econômicas que o evento traria.

Mas, segundo ela, existem indícios fortes de que estes não se concretizarão, especialmente para as pessoas comuns. Ela chama a atenção para como será difícil explicar à população que não será permitido vender produtos como estão acostumados.

"É um evento glamouroso, que é produzido para aparecer bem nas telas das televisões pelo mundo, mas não é realmente feito para ser acessível para alguém que vem das ruas. Infelizmente é assim que a Copa do Mundo funciona", diz Scarlett.

A professora analisa que agora que as ilusões econômicas estão se apagando, é o potencial político da Copa que deve ser tornar mais evidente. "O significado real da África do Sul como sede da Copa do Mundo é o potencial político de promover uma maior unidade social, de transcender as divisões do apartheid, com os mesmos efeitos da copa de Rugby de 1995, que o filme Invictos mostra. É um evento que pode unir o país, em um projeto de construção da nação que já dura mais de 20 anos, desde a libertacao do Nelson Mandela".

Para Scarlett, torneios esportivos como a Copa do Mundo também podem ser utilizados como estratégia política para vender a imagem do país para o mundo. O único problema é que eles também são imprevisíveis. Se tudo não sai como planejado por algum fator inesperado como, por exemplo, a questão da segurança, pode trazer mais efeitos negativos do que positivos. E este é um risco que a África do Sul, ou qualquer outro pais que receba um evento esportivo, sempre pode correr.

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