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17/05/2010 - 18h18

Para analista, acordo com Irã tem valor 'limitado' e exige desdobramentos

O acordo sobre o programa nuclear iraniano divulgado nesta segunda-feira por Irã, Brasil e Turquia tem um valor "limitado", na avaliação de Daryl Kimball, diretor-executivo da Arms Control Association, um organização independente com sede em Washington que se dedica a promover políticas de controle de armas.

Segundo ele, uma dessas limitações diz respeito ao fato o acordo permitir que o Irã continue com seu enriquecimento de urânio, apesar de o Conselho de Segurança das Nações Unidas ter recomendado a suspensão dessa atividade.

"Na superfície, esse parece ser um avanço positivo, mas o acordo para a troca de combustível tem um valor limitado a não ser que haja desdobramentos", diz o especialista.

Sua avaliação é de que ainda existem argumentos a favor de uma nova rodada de sanções econômicas contra o Irã e que a diplomacia brasileira deve ser "cautelosa" ao afirmar que as penalidades não fazem mais sentido.

"A não ser que o Irã pare de enriquecer urânio, o acordo anunciado hoje (segunda-feira) apenas estará apenas adiando um problema", diz Kimball.

Leia abaixo a entrevista.

BBC Brasil - O acordo anunciado nesta segunda-feira entre Irã, Turquia e Brasil deve ser comemorado ou visto com ceticismo? Daryl Kimball - Acho que comemorar seria prematuro. Na superfície, esse parece ser um avanço positivo, mas o acordo para a troca de combustível tem um valor limitado a não ser que haja desdobramentos. É bom lembrar que, em outubro passado, houve uma tentativa de acordo semelhante a essa e o Irã recuou. Precisamos ainda lembrar que esse acordo tem benefícios limitados. Ele prevê que o Irã envie para a Turquia parte de seu urânio levemente enriquecido e traga de volta combustível para seus reatores nucleares. Portanto, a não ser que o Irã pare de enriquecer urânio, o acordo anunciado hoje apenas estará apenas adiando um problema.

O fato de o Irã estar desenvolvendo uma capacidade de enriquecer urânio, em violação às resoluções do Conselho de Segurança, e o fato de continuar recusando a responder às questões da agência atômica sobre suas atividades nucleares, são motivos de cautela. Por isso é que a proposta de hoje é positiva, mas ainda é cedo para comemorar.

BBC Brasil - O governo brasileiro tem dito que, com o novo acordo, as sanções econômicas contra o Irã perdem o sentido. O senhor concorda? Daryl Kimball - Acho que o Brasil deve ser mais cauteloso ao afirmar que as sanções não fazem mais sentido. Essas sanções estão sendo discutidas pelo fato de o Irã continuar com seu enriquecimento de urânio, apesar de resoluções do Conselho de Segurança determinando sua suspensão. E o acordo de hoje trata apenas da troca de combustível. Não fala da suspensão do programa de enriquecimento de urânio do Irã. O argumento para as sanções, portanto, ainda está valendo. Brasil e Turquia devem ser elogiados por tentarem resolver o impasse com os iranianos, mas é preciso ressaltar que essa tentativa de acordo não seria possível sem a pressão das sanções.

Outro ponto importante, na minha opinião, é que o Brasil tem um importante papel também na conferência de revisão do Tratado de Não-Proliferação (o evento ocorre em Nova York até 28 de maio). É importante que países como o Brasil deixem clara a necessidade de o Irã cumprir com suas obrigações sob o TNP. Se no contexto do TNP o Brasil se opuser a essa questão, eu acho que isso pode tornar mais difíceis as conversas com o Irã sobre seu programa nuclear. E confesso que não sei ao certo de que forma os diplomatas brasileiros estão lidando com essa questão.

BBC Brasil - Mas essa tentativa de acordo coloca os Estados Unidos em uma posição delicada em relação às sanções, não? Daryl Kimball - Eu acho que o Conselho de Segurança vai continuar pressionando pelas sanções até o momento em que o Irã responda às questões da agência atômica sobre suas atividades nucleares do passado, que poderiam ter uma natureza militar. E até que o Irã pare de expandir sua capacidade de enriquecimento de urânio. A razão original dessa proposta para troca de combustível era a de criar confiança. E mais confiança precisa ser construída. O Irã precisa, na minha avaliação, dar passos adicionais para provar à comunidade internacional que o país não está buscando um programa nuclear para fins militares.

BBC Brasil - O senhor acha, então, que os iranianos devem demonstrar um maior compromisso? Daryl Kimball - Sim, claro. Se o país não fizer isso, o acordo de hoje não fará muito sentido. Como eu disse, o Irã ainda não responde às principais questões da agência atômica. Ainda não sabemos se os iranianos vêm desenvolvendo atividades nucleares fora da área inspecionada pela agência.

O problema fundamental que todos precisam entender é que o Irã buscou um programa nuclear secreto por muitos anos. O país falhou em cooperar com a agência atômica em sua investigação sobre as atividades nucleares iranianas do passado. O país continua expandindo sua capacidade de enriquecimento de urânio e ainda há a preocupação de que o Irã possa estar enriquecendo urânio em instalações que não são inspecionadas pela agência atômica. As sanções poderiam indicar ao Irã que a construção dessas instalações não são aceitáveis. Os líderes brasileiros deveriam ser mais cautelosos em sua sugestão de que não há mais razão para as sanções.

BBC Brasil - Um dos principais argumentos da diplomacia brasileira é de que não há provas de que o Irã esteja construindo uma arma nuclear. E que essa falta de provas coloca o Irã em uma situação semelhante à do Iraque, que foi invadido e não tinha armas de destruição em massa. As duas situações são comparáveis? Daryl Kimball - O caso do Iraque nos deixou algumas lições. Uma delas é que os países não devem agir com base em informações limitadas sobre programas nucleares. Em outras palavras, países não devem ser invadidos com base em informações limitadas. Mas existe ainda uma outra lição importante: não podemos falhar na adoção de medidas quando há evidências de que um país está desenvolvendo a capacidade para construir armas nucleares. E é isso que o Irã está fazendo. Em breve o país será capaz de produzir urânio altamente enriquecido em quantidade suficiente para construir um arsenal pequeno de armas nucleares. Nessa situação, os países devem adotar medidas para evitar que outros, como o Irã, venham a quebrar o tratado de não-proliferação.

Ao mesmo tempo, não podemos permitir que países como Estados Unidos e Israel cheguem à conclusão de que existe um programa nuclear clandestino e que isso exige uma resposta militar. As evidências que temos hoje com o Irã são muito maiores do que a que tínhamos com o Iraque antes da guerra.

As suspeitas com relação ao Iraque, em 1992, eram de que o país estava tentando construir centrífugas para enriquecer urânio. O Irã hoje não apenas tem as centrífugas, como já está enriquecendo urânio. O Irã foi pego construindo instalações de forma secreta, ou seja, sem comunicar à agência atômica. Se formos comparar, as evidências contra o Irã são muito maiores daquelas contra o Iraque. Mas, como eu disse, um ataque militar contra o Irã seria inadmissível. Além disso, se o Irã for bombardeado ou invadido, aí sim veríamos o país desenvolver armas nucleares.

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